Estou farta de corações vermelhos. Há semanas que os vejo, por toda a parte, colados às montras, de pelúcia, em capas de livros xaroposos, no meio de electrodomésticos. Desconfio que hoje até o homem do talho corta os bifes em forma de coração enquanto recita poemas de amor. Não tenho nada contra o Santo Valentim, nada mesmo mas já não aguento estas investidas. Por isso aqui na Janela resolvemos ser do contra, hoje vamos abandonar os nossos namorados e namoradas. Nada de beijos lânguidos, nada de jantares românticos, nada disso, vamos trabalhar. Onde? Por aí. Na prisão?
Voltamos segunda-feira.
Sábado Pouco nublado. Máxima 62° F / 17° C Vento WSW 2 mph / 3 km/h
Actualizado: 10:00 AM WET em 14 de fevereiro de 2004 Observado em Porto, Portugal Temperatura 46 °F / 8 °C
Sensação Térmica 43 °F / 6 °C
Humidade 00% Ponto de orvalho 46 °F / 8 °C
Vento ESE com 6 mph / 9.7 km/h
Rajada de vento -
Pressão 30.24 pol / 1024 hPa (Estável) Condições Neblina Visibilidade -
Clouds
(Above Ground Level) (FEW) : 300 ft / 93 m
Muito nublado (BKN) : 1500 ft / 459 m
Marian Anderson, contralto, New York City, June 30, 1955 | Richard Avedon Gelatin silver print; 97.5 x 109.2 cm (38 3/8 x 43 in.)| Collection of the artist
– Bom dia, Sr. Renoir. Não lhe colocarei mais do que uma questão: que pensa o senhor do tema?
– Do tema de quê?
– De um filme, claro… ou de uma peça de teatro… ou de um romance… de que havia de ser?
– Podia ser a ginástica matinal, ou o sentimento: o tema do meu amor…
– O objecto.1 – Obrigado.
– Adoro a sua casa.
– (orgulhosamente) Foi construída por Alexandre Dumas – o verdadeiro – quero dizer, o pai.
– Tem a certeza?
– Foi alguém que mo disse.
– Quem?
– Já não me lembro.
– Se Alexandre Dumas tivesse construído esta casa, haveria uma placa comemorativa. (Em tom severo) O senhor exprimiu diversas vezes a sua desconfiança em relação aos temas fortes. Que quer dizer com isso?
– Quanto mais ligeiro é o tema, menos o autor se prende nele.
– Uma comédia?
– Não forçosamente. Digamos um tema ou um assunto que se desenvolve e se termina sem esforço e que deixa ao autor todo o tempo para se ocupar das suas personagens. Pode ser um melodrama como Hamlet (quem é o culpado?) ou um vaudeville como La Serva Padrona (quem seduzirá a rapariga?).
– Estou a ver. Para o senhor, a única coisa que conta é a maneira como o autor exprime a sua personalidade. O senhor é um subjectivista.
– (aterrado) Pelo contrário. É quando o autor tenta mostrar os seus próprios sentimentos que menos consegue exprimir a sua personalidade.
– (satisfeito) Admite portanto a importância do tema.
– Tudo o que eu admito é que o autor se deve dissimular por trás da história que conta.
– É isso que pensa, verdadeiramente?
– Sim. É uma das poucas coisas de que estou certo. Tomemos Alexandre Dumas como exemplo… ele não escreve nunca sobre si próprio. Mas o leitor, por intermédio das aventuras de Chicot, d’Artagnan ou Ange Pitou, aprende a conhecê-lo de maneira íntima; mais do que alguma vez conhecerá o poeta subjectivo que despeja sem pudor tudo aquilo que tem no coração… Pode-se resumir tudo isto em três palavras: “O eu é detestável”.2 – (em tom definitivo) Boileau! O senhor é um clássico.
– Admiro o teatro clássico. Mas pertenço à minha época. Como toda a gente hoje em dia, sofri a influência dos Srs. Freud, Einstein e também, infelizmente, de cento e cinquenta anos de romantismo deprimente. Dumas sabia conservar o nariz acima do nível do mar para respirar. Sabe porque é que ele construiu esta casa?
– Admitindo que foi ele que a construiu.
– (historiador) À época, os muros de Paris seguiam o traçado do lado sul do boulevard de Clichy. Para além deles, havia apenas campos até à aldeia de Montmartre no pico da colina. Foi graças à permissão das autoridades militares que Dumas e os seus amigos puderam abrir uma passagem até àquilo que é hoje em dia a Praça de Pigalle. Aparentemente, esta elevação parisiense era apenas outrora, um terreno de caça às perdizes.
– Voltemos à vaca fria.3 O senhor citou Shakespeare e Goldoni.
– Podia acrescentar Labiche, Molière e muitos outros. Um jovem de boas famílias está noivo de uma jovem de um meio excelente. Não se conhecem. O jovem quer ser amado por si mesmo. Ele e o seu criado trocam as suas roupas. A jovem faz o mesmo com a sua criada. Eis um “quiproquo” e um pretexto suficiente para os melhores diálogos alguma vez escritos.
– O senhor situa-se, portanto, entre Shakespeare e Marivaux?
– Depois de alguns copos de whisky, sem dúvida. Mas na maior parte do tempo contento-me em pensar que se alguém se interessa pela pintura mais vale ir copiar Velasquez para um museu do que ficar em casa a copiar publicidades para salões de beleza. E quem sabe? Cézanne gostava de copiar flores artificiais. Estas coisas são demasiado complicadas… Conheço a maneira de salvar o cinema sem cinemascópio nem cinerama. Todos os realizadores deveriam trabalhar sobre o mesmo tema, um western ou um filme policial, e consagrar-se unicamente a ele durante dez anos. Encontrar-nos-íamos na mesma posição que os Gregos, que tinham o hábito de reescrever as mesmas histórias para um público que as conhecia de cor. Para haver mais segurança, o espectáculo começava por um resumo da acção para o caso de alguém se ter esquecido. Era o coro que se encarregava desta tarefa fundamental, libertando assim o autor e o público das facilidades do suspense.
– O autor, sempre o autor, mas no entanto ele não está sozinho; há também os actores e os técnicos.
– Felizmente, os seus feitos disfarçam os nossos falhanços. Sabe quem deveria ter sido o nosso mestre se tivesse vivido na era do cinema?
– (irritado) Alexandre Dumas. Mas ainda não respondeu à minha questão. Que pensa do tema?
– Acontece que duas maçãs em cima de uma mesa são um tema melhor do que Átila, o rei dos Hunos. Mas para conseguir qualquer coisa com duas maçãs, é preciso um Cézanne. Façamos então os filmes que o público deseja. Como diria Jouvet: ”A nossa primeira regra é ter sucesso”. Pode ser que um dia, um Cézanne nasça entre nós.
In The Observer Film Exhibition: “Sixty Years of Cinema”, Londres, Pall Mall East, 1955
Traduzido por Luís Miguel Oliveira para o excelente catálogo da Cinemateca Portuguesa dedicado a Jean Renoir em 1994
__________
1 brinca com o duplo sentido da palavra “sujet”, que pode querer dizer “tema” ou “assunto” mas também pode significar “sujeito”. (N. do T.)
2 No original: “Le moi est haissable”. (N. do T.)
3 No original: “Revenons sur nos moutons”. (N. do T.)
posted by Anónimo on 21:23
Uma Máquina
Um homem construíra uma máquina.
... Que faz o quê? disse o seu pai.
Que fica vermelha com a ferrugem se chover, não te parece, pai?
Mas uma máquina é o que rouba o trabalho a um homem, disse o pai, e o trabalho é oração, logo a máquina é um pecado.
Mas a máquina também pode ser amorosa, cultivando teias de aranha entre as rodas onde rastejam pequenas patas negras; e logo as ervas aparecem entre as engrenagens – E os seus raios adornados com borboletas...
Não gosto da máquina, mesmo se é amável, pois pode ainda decidir amar a minha mulher e apanhar o meu transporte para o trabalho, disse o pai.
Não não pai, é uma máquina voadora.
Bom, supõe que a máquina faz ninho no telhado e tem filhos máquinas? disse o pai.
Pai, se quisesses olhar para a máquina apenas umas horas irias aprender a amá-la, talvez até a dedicar-lhe a própria vida.
Eu não faria tal coisa, pelo menos com a tua mãe a ver, catalogando as minhas infidelidades para me confrontar com elas na cama... Talvez eu conseguisse simpatizar com esta humilde obra de ferro, pois que já me sinto motivado a assegurar-lhe que existe um Deus, sim, até para ti, querida máquina paciente. Mas a tua mãe vigia. Até a minha mãe vigia. Todas as mulheres da casa observam pelas janelas, esperando para ver o que farei.
Pai, observa o orvalho nas suas rodas, não te recorda lágrimas?
Irás destroçar o meu coração enquanto as mulheres vigiam, quase esperando que eu ceda? pois elas anseiam pela vítima que me seria amável entregar.
Então curva-te perante a máquina, pai, sê gentil com as mulheres como és gentil com a máquina.
Oh não, querido filho, não conseguiria curvar-me perante uma máquina; no fundo, sou humano. Deixa que outros abram portas novas da história...
Não é a cor azul, é a cor frio.
É a cor do Atlântico em meados de Fevereiro.
E seja como for que estejas vestido, estás nu,
deitado de costas, num bloco de gelo.
Não é um simples bloco de gelo, feito de gelo,
mas o argumento de que todo o calor está ausente.
Está sozinho no oceano, e tu estás em cima dele
sozinho; e o som do trompete é como mercúrio cadente.
Não é uma voz ingénua que arranha no escuro,
mas os dedos gelados em ré maior, sem luvas;
e uma gota de chuva cintilante eleva-se para o zénite.
para observar do alto o espaço por essa retina.
Não é uma simples retina, é um brocado faiscante,
uma nova língua musical feita de riscas e estrelas. O gelo
não se funde, tal como um foco de luz errando
para a escuridão dos bastidores onde se esconde o pólo.
Trocam-se três estádios de futebol novos pelo regresso da zero em comportamento ao cinema; da Íntima Fracção ao ar; e pela chegada da Cinemateca ao Porto.
A troca inclui claques, dirigentes e polícias, todos deviamente fardados.
Michelangelo Buanarroti fez este estudo para o Último Julgamento da Capela Sistina. Mesmo sem nunca ter estado na Capela é do estudo que mais gosto. Ele cai ou ele voa?
2. Ufa, nasci antes de 74, ainda não vou ser despedida. Bom, pelo menos não vou ser despedida amanhã mas talvez daqui a uns meses, um, dois anos? Que importa? Acima de tudo não devemos impedir o desenvolvimento da economia. Devemos ser complacentes com a difícil arte de gerir os recursos em nome do progresso. É para o nosso bem por isso nada de ressentimentos.
3. A temperatura baixou mas o céu continua azul e o sol ao meio-dia está morno. Ainda é demasiado cedo, ainda não devia estar a pensar na minha praia de areia cor-de-rosa, mas estou. Desculpem o devaneio a culpa é da capa do “Undercurrent” de Bill Evans.
É uma aventura entrar no mundo de Robert Walser. Não sei se ele era esquizofrénico ou louco, talvez fosse um pouco, ou mais que isso. Era sem dúvida diferente, especial, dotado de uma excepcional liberdade de escrita e segui-lo é um grande prazer. Porquê? Por causa da construção das frases; das palavras escolhidas (ele faz a mais bonita utilização de diminuitivos que já li: passo agora a acalmar-me, a moderar-me, a fazer-me pequenino como um dedalzinho); das imagens (A cama era dura como uma tábua, conquanto toda a gente saiba que os sentimentos do salteador são macios como aletria com molho de manteiga ou trutas cujas pintas avermelhadas sorriam como raparigas tomadas de febre.); da delicadeza («Sou gerente de um hotel», declarou ela numa curva do caminho. As árvores sorriram ao ouvir esta declaração tão directa. O salteador ficou corado como uma rosa e a mulher ficou corada como uma juíza, como se as juízas, no ardor de não abdicarem da sua função de juízas, não se pudessem enganar); do humor delirante (o episódio da colherzinha ou a visita ao médico são deliciosos); das ideias em sobreposições inusitadas; e por causa do imprevisto, acima de tudo por causa do imprevisto: E agora, com vossa licença, vamos tratar de uma criada e de um beijo no joelho e de um livro que foi entregue num chalé. […] O caso da entrega do livro foi o seguinte. Uma senhora de cabelo branco, que no seu íntimo se sentia pouco jovem, havia emprestado um livro ao salteador. Porque estará a vir-me à lembrança uma série de casacos de senhora? Onde irei eu arrumá-los? Subitamente, faz-se luz no meu espírito e, logo de seguida, essa luz desaparece. E, então, não é que o salteador se imagina, de tempos a tempos, como uma espécie de Fabrice del Dongo*! Não é um disparate? Esperem lá um pouco. Deixem-me reflectir. Pois, está bem, está bem. Sobre o livro que foi devolvido iremos, eventualmente, poder falar mais adiante.
N' “O Salteador” não há uma linha cronológica nem sequer uma lógica narrativa. A história segue por cortes, saltos e elipses impressionantes, tudo isto em alta velocidade e com um sentido de montagem não cinematográfica mas sim onírica. É tudo desconcertante como nos sonhos: Então, tudo entra em movimento e, no entanto, tudo fica parado, como num sonho. Aliás, que história? É certo que o narrador começa por dizer que Edite ama o salteador e no fim, bom, no fim ela comprova-o disparando sobre ele, mas pelo meio nada leva a nada. Walser perde-se em mil e uma deambulações sobre qualquer coisa, sobre a literatura, as mulheres ou a sua (dele) enigmática sexualidade. Há situações que ficam em suspenso, outras são retomadas sem mais e nem sequer nos podemos fiar nas personagens; por vezes o narrador é o salteador e o salteador é o próprio Walser (E cá está, de súbito, mais uma vez, este parvo do salteador, e eu a desaparecer para lhe ceder o lugar.).
E tudo isto por causa de uma simples aguarela pintado pelo seu irmão em 1894, em que Walser com quinze anos, aparece vestido de salteador. Um salteador que rouba agora impressões de paisagem e afeições. Toda a minha afeição. Fico à espera d’ A Rosa e de mais.
Sendo assim, torna-se apreciado e procurado todo aquele que tiver uma maneira muito própria, digamos, uma maneira um tanto inexacta de olhar o mundo, como se tivesse mantido um olhar de criança.
* personagem do romance "A Cartuxa de Parma" de Stendhal
Os itálicos são todos retirados de "O Salteador", de Robert Walser (tradução de Leopoldina Almeida e edição da Relógio d'Água
«Jemima Stehli é uma artista cuja obra se inscreve em algumas das linhas de investigação estética mais marcantes da actualidade. A sua reflexão em torno das problemáticas do corpo, da auto-representação e da citação crítica de autores canónicos, bem como a sua exploração de tópicos como a erotização do nu e o desejo fetichista, colocam o seu trabalho no âmago das principais questões da cultura contemporânea.»
(do Catálogo)
As coisas que existiam antes de tu morreres
e as coisas que surgiram depois:
Às primeiras pertencem, antes do mais,
as tuas roupas, as jóias e as fotografias
e o nome da mulher que te deu o nome
e também morreu jovem
Mas também um par de receitas, o arranjo
de um certo canto na sala,
uma camisa que me passaste a ferro
e que guardo cuidadosamente
debaixo da minha resma de camisas,
algumas peças de musica, e o cão
sarnento que por aí anda
com um sorriso estúpido, como se ainda aqui estivesses.
Às últimas pertencem a minha caneta,
um perfume conhecido
na pele de uma mulher que mal conheço
e as novas lâmpadas que pus no candeeiro do quarto
que iluminam o que leio acerca de ti
em todos os livros que leio.
As primeiras recordam-me que exististe,
as últimas que já não existes.
Que sejam quase indistinguíveis
é o mais difícil de suportar.
Henrik Nordbrandt (1945) Dinamarca
Tradução de Rui Guerra
Life is whittled
Life's a riddle
Man's a fiddle that life plays on
When the day breaks and the earth quakes
Life's a mistake all day long
Tell me, who gives a good goddamn
You'll never get out alive
Don't go dreaming
Don't go scheming
A man must test his mettle
In a crooked ol' world
Starving in the belly
Starving in the belly
Starving in the belly of a whale
Starving in the belly
Starving in the belly
Starving in the belly of a whale
Don't take my word
Just look skyward
They that dance must pay the fiddler
Sky is darkening
Dogs are barking
But the caravan moves on
You tell me, who gives a good goddamn
You'll never get out alive
Don't go dreaming
Don't go scheming
A man must test his mettle
In a crooked ol' world
Starving in the belly
Starving in the belly
Starving in the belly of a whale
Oh we're starving in the belly
Starving in the belly
Starving in the belly of a whale
As the crow flies
It's there the truth lies
At the bottom of the well
E-o-Leven goes to heaven
Bless the dead here as the rain falls
Don't trust a bull's horn
A doberman's tooth
A runaway horse or me
Don't be greedy, don't be needy
If you live in hope
You're dancing to a terrible tune
Starving in the belly
Starving in the belly
Starving in the belly of a whale
Oh starving in the belly
Starving in the belly
Starving in the belly of a whale
Lullaby
Sun is red; moon is cracked
Daddy's never coming back
Nothing's ever yours to keep
Close your eyes, go to sleep
If i die before you wake
Don't you cry, don't you weep
Nothing's ever as it seems
Climb the ladder to you dreams
If i die before you wake
Don't you cry, don't you weep
Nothing's ever yours to keep
Close your eyes; go to sleep
Já se encontra disponível a edição online da Periférica n.º 8. Destaque para o dossier especial dedicado a Luiz Pacheco.
Historieta
Texto de Luiz Pacheco | Ilustrações de Paulo Araújo
Era uma vez um sujeitinho que já tinha idade para ter juízo (andava nos quarenta e picos) e bebia de mais. Uma sede assim nunca se vira! Escorropichava tudo. Cervejolas, principalmente, se o dinheiro abundava; senão, caía nos tintaços, na rasca bagaceira; liso de todo, era quanto viesse, fiado ou pago por beneméritos compinchas de balcão. Aparecem sempre, é só saber esperar. Pagam o vinho, estendem-nos o maço dos cigarros, negam-se, porém, à sandes e ao galão e ao empréstimo ou cravanço. São os "amigos do copo".
Acontece que o tipo usava o mesmo nome que eu. Malvada coincidência. Porque, no correr dos anos, e conhecíamo-nos de perto, frequentávamos quase os mesmos sítios, as complicações e sarilhos, alguns graves, em que me vi metido por causa dele e das suas rábulas não tiveram conta. Se os fosse aqui contar... mas pra quê relembrar misérias, cegadas, trapalhadas incríveis? Sei que perdi empregos (com que alegria!), fugiram-me mulheres (oh que alívio!) e uma data de oportunidades porreiras, das que levam uma criatura a almejar e confiar numa velhice mais tarde garantida e repousada. Só porque me confundiam com ele e eu nem sempre dispunha de alibis ou testemunhas idóneas que provassem a minha inocência nas muitas macacadas em que, por gosto ou teima de bêbado, ele se recreava.
Na verdade, o abuso do álcool transtornava-o que era mesmo um disparate. Parecia outro. Metia-se com toda a gente, conhecidos ou desconhecidos, amigos do coração e outros que nunca gramara. Não poupava ninguém. Língua afiada, atitudes desbragadas, insolência, revoltas súbitas, quem o podia aturar? E passada a "crise", para cima de mim é que vinham... as iras, as censuras, caras torcidas, ameaças de pancadaria, perseguições injustas, vinganças a longo prazo. Que fazer? Eu às vezes nem me lembrava de nada do que ele tinha dito ou feito.
[...]
[Publicado originalmente no Século Ilustrado, em 30/10/1971.]
Quando o vi na livraria a capa fez-me imaginar um desfile das mesmas imagens que sempre se repetem em tantos livros e em tantas galerias de Doisneau. Este fim-de-semana um amigo apareceu com o livro debaixo do braço. Ignorei. Mostrou-o. Ignorei. Pousou-o na mesa. Ignorei. Acenou-me com ele. Ignorei. Passaram-se horas. Abri-o distraidamente numa pausa de conversa. O mundo cessou. Quando regressei, sabia que não tinha visto Doisneau antes. Jean-Claude Gaufrand escreveu e organizou assim o livro:
> Lessons of the Street
> Paris: The Luck of the Stroll
> Robert Doisneau's Legacy
> Photos
1912/1939 - The Early Years
1939/1944 - The War
1945/1960 - A Thirst for Images
1960/1994 - From Toil to Consecration
Admiráveis todas fotografias, tentei encontrar as que queria deixar na Janela mas não foi possível (ainda). Impressionam mais as de 1944 e dos anos imediatamente seguintes. Nas de 1944 não há indicação de mês, não se sabe se foram tiradas antes ou depois de Agosto, mas para que precisaríamos dessa nota se Doisneau fotografou, silenciosos mas muito nítidos, o cansaço, o alívio, a alegria enorme e genuína das pessoas? Essa alegria é imensa em cada imagem - nos gestos, nos olhos, nos corpos, nos passos que param sob a chuva (não, a chuva não mata, não é a chuva que mata). Mais tarde as ruas de Doisneau voltam a ser habituais e a alegria dá lugar à pressa ou ao abandono, os olhos voltam-se para o chão, o chão é mais sujo, as caras envelhecem, mesmo as das crianças que nunca conheceram a guerra.
Porque precisaremos sempre disto? De habitar a morte para saber que ter tudo, mas absolutamente tudo, é parar sob a chuva e abrir os braços, que a alegria é este momento, este dia e mais nenhum? Que cada árvore que não vemos e cada riso que calamos são ofertas feitas à nossa própria morte? Complicamos, complicamos. Nós merecemos as guerras. Merecemos o pior do mundo que temos. Só depois do limite sabemos quais são as coisas prioritárias. De resto somos cobardes, mesquinhos, cegos com status, com o ego, com a cor do carro, com a galinha da vizinha, com paternalismos inúteis e hipócritas, com o eterno jogo da moeda para pessoas minimamente informadas que é a divisão política do mundo entre esquerda e direita, arte incluída nesse jogo torpe como arma de arremesso ou vestido de gala, não pensamos, não queremos saber. Ficamos pois muito chocados quando descobrimos que, sim, a morte existe. Wow! E ficamos muito felizes quando lhe sobrevivemos. Descobrimos subitamente como é simples viver bem. E esquecemo-lo facilmente. Com um mínimo de dignidade não teríamos a lata de nos queixarmos da triste e patética condição humana que a nossa estupidez, só a nossa estupidez, nos impõe.
posted by camponesa pragmática on 01:36
domingo, fevereiro 08, 2004
Algumas notas sobre India Song
As cores e a escuridão: “A ferrugem é a cor do calor”, diz uma das vozes; “Violeta é a cor do nevoeiro no Delta”, diz outra; o vestido de Anne-Marie Stretter é vermelho escuro.
Os objectos: o mapa; as fotografias (da jovem Anna Maria Guardi) de Edouard Boubat; o piano que ninguém toca (mas numa das cenas Anne-Marie Stretter deita-se sobre ele); o espelho que duplica as personagens; os fatos Cerutti; os sofãs; o campo de ténis; a bicicleta vermelha de Anne-Marie Stretter (esta deveria estar nas cores?)
A música: a canção “India Song” dá-me vontade de amar diz uma voz.
Os gritos: do vice-cônsul (não sei se o vice-cônsul está louco ou apaixonado mas ele faz-me chorar) e da mendiga (que segue os brancos para as ilhas). O amor e a lepra.
Durée: 120 '. Coleurs
Text et réalisation: Marguerite Duras
Co-production: Sunchild, les Films Armorial, S. Damiani, A. Valio-Cavaglione.
Producteur délégué: Stéphane Tchalgadjieff.
Musique originale: Carlos d'Alessio
Principaux interprètes. Delphine Seyrig (Anne-Marie Stretter), Michael Lonsdale (Le Vice-consul de France), Matthieu Carrière (le jeune Attaché), Claude Mann (Michael Richardson), Vernon Dobtcheff (George Crawn), Didier Flamand (le jeune Invité des Stretter), Claude Juan (un invité).
Voix de la Mediante: Satasinh Manila.
Voix intemporelles: Nicole Hiss, Monique Simonet, Viviane Forrester, Dionys Mascolo, Marguerite Duras.
Voix de la réception: Françoise Lebrun, Benoît Jacquot, Nicole Lise Bernheim, Kevork Kutudjan, Daniel Dobbels, Jean-Claude Biette, Marie-Odile Briot, Pascal Kané, etc.
Directeur de la photographie: Bruno Nuytten, assisté de Pierre Gautard et Joël Quentin.
Assistant réalisateur: Benoît Jacquot.
2e assistant et photographe: Jean Mascolo.
Assistant stagiaire: Rita Ziska.
Ingénieur du son: Michel Vionnet.
Assistante stagiaire: Nicole Lise Bernheim.
Chef monteuse: Solange Leprince.
Assistante monteuse et scripte: Genevière Dufour.
Maquilleuse: Eliane Marcus.
Électriciens: Louis Bihi et Jean-Pierre Lacroix.
Machinistes: Bernard Brégier et Henry Lhaute.
Assistant régisseur: Jacques Peyrac.
Administrateur de production et régie: Stella Quef.
Secrétaire de production: Roberta Nevers.
Attachée de presse: Chantal Poupaud.
Mixage: Antoine Bonfanti.
Laboratoire: C.T.M.
Etalonneur: Gérad Savary.
Distribution: Josépha Productions.
Delphine Seyrig est coiffée par Edouard et Fédéric. Les interprètes masculins sont habilés par la Maison Cerutti 1881.
Les photographies sont d'Edouard Boubat.
La musique de Carlos d'Alessio a été enregistrée à O.R.T.F. sous la direction de Gaston Sylvestre. La 14e des 33 variations de Beethoven sur un thème de Diabelli a été exécutée par Gérard Frémy. «India Song Blues» a été exécuté par Raoul Verez.
São todas personagens trágicas. À excepção da mendiga, que está para além da tragédia, porque não sabe nada. Tenho de falar da mendiga durante a rodagem. Ela não existia. Havia uma pequena banda-sonora que tinha repicado, que uma estudante do Laos tinha gravado na televisão. Os actores, a equipa precisavam de ouvir esta jovem rapariga. Punhamo-la muitas vezes. Tornou-se como um tabu, sagrada, quando ela falava, cantava, descarrilava todos se
calavam. A personagem principal de "India Song", o satélite à volta do qual tudo gira, posso dizer que é a mendiga. Que destino!
O trabalho mais moroso foi o das vozes. Mais do que a montagem - a montagem das imagens. Gravei sons por todo o lado: em igrejas, lugares muito ruidosos, em caves, corredores, na minha casa, um pouco por todo o lado... Sempre fui muito sensível às vozes ouvidas por acaso, fragmentadas, em lugares públicos, em cafés, nos pátios dos prédios, muito alta, das crianças que brincam, das pessoas que falam, mesmo só por um instante. Em Paris abro as janelas no Verão. Faço-o frequentemente. Para ouvir estes rumores.
Penso que elas afirmam Calcutá. Afirmam a embaixada de França. Afirmam a Ásia, como os pássaros, que são terríveis em "India Song"; gritam todos como aves de rapina.
Sabe, a mendiga, não sabemos o que diz. Das conversas, percebemos um bocadinho. "India Song" é um filme em parte - 80% - surdo e cego: não vemos ou vemos muito mal. E não ouvimos ou ouvimos muito mal. Há vozes que emergem. Desta desordem. Desta noite. Desta surdez. São muito raras. Mas quando as ouvimos, é uma festa!
O nome das cidades, dos rios, dos Estados, dos mares da Índia têm aqui, antes de mais, um sentido musical. Todas as referências à geografia física, humana, política de "India Song" são falsas.
Assim, não se pode, por exemplo, ir de carro de Calcutá à embocadura do Ganges numa tarde, nem ao Nepal. O hotel Prince of Wales não fica numa ilha do delta, mas sim em Colombo. Nova Deli é a capital administrativa da Índia e não Calcutá.
As personagens evocadas nesta história foram retiradas do livro "O Vice-Cônsul" e projectadas em novos territórios narrativos. Já não é possível fazê-las voltar ao livro, nem ler, em "India Song", uma adaptação cinematográfica ou teatral do "Vice-Cônsul". Mesmo que um dos episódios seja aqui retomado na quase totalidade.
Na verdade, "India Song" é uma consequência de "A Mulher do Ganges". Se "A Mulher do Ganges" não tivesse sido escrito, "India Song" também não o teria sido.
As vozes 1 e 2 são vozes de mulher. Estas vozes são jovens.
Estão ligadas entre si por uma história de amor. Às vezes falam deste amor, o delas. A maior parte do tempo falam de outro amor, da outra história. Mas esta outra história remete-nos para a delas. Da mesma forma que a delas para a de "India Song".
Contrariamente às vozes dos homens - a 3 e a 4 que intervêm no fim -, as vozes destas mulheres estão cheias de loucura. A sua doçura é perniciosa. A memória que têm desta história é ilógica, anárquica. Deliram a maior parte do tempo. O delírio delas é ao mesmo tempo calmo e ardente.
É uma história de amor, vivida nas Índias, nos anos 30, numa cidade sobrepovoada nas margens do Ganges. São aqui evocados dois dias dessa história de amor. É a estação da monção no Verão.
Vozes (quatro, duas jovens mulheres, de um lado, e duas vozes masculinas, de outro) - sem rosto - falam desta história. As vozes não se dirigem ao espectador ou ao leitor. São totalmente autónomas. Falam entre elas. Não sabem ser escutadas.
A história deste amor, as vozes souberam-na ou leram-na, há muito tempo. Algumas lembram-se melhor do que outras. Mas nenhuma se lembra de todo e nenhuma a esqueceu.
Em momento algum sabemos quem são estas vozes. No entanto pela forma como, cada uma delas, se lembra ou se esqueceu, elas dão-se a conhecer mais do que pela sua identificação.
A história é uma história de amor imobilizada no culminar da paixão. À volta dela, uma outra história, a do horror - fome e lepra coladas na humidade pestilenta da monção - imobilizada ela também num paroxismo quotidiano.
A mulher, Anne-Marie Stretter, mulher do embaixador de França nas Índias, agora morta - a sua campa está no cemitério inglês de Calcutá - como que nasceu deste horror. Ela está no meio dele com uma graça em que tudo se abisma num silêncio inexaurível. Graça que as vozes tentam precisamente rever, porosa, perigosa, perigosa também para algumas vozes.
Ao lado desta mulher, na mesma cidade, um homem, o vice-cônsul de França em Lahore, caído em desgraça em Calcutá. Ele é pela cólera e pelo assassínio que se aproxima do horror indiano.
Uma recepção na embaixada de França tem lugar - durante a qual o vice-cônsul maldito gritara o seu amor a Anne-Marie Stretter. Perante uma Índia branca que olha.
Depois da recepção, ela vai para as ilhas pelos caminhos direitos do delta.
Dominique Noguez: Será que nos pode dizer de onde vem "India Song"?
Marguerite Duras: Desde que me lembro. Desde a infância. Foi em Vinhlong na Cochinchina onde a minha mãe era professora na escola local. Um dia o administrador foi nomeado para outro posto. Um novo administrador chegou do Laos, com a sua mulher e duas filhas. A primeira vez que esta mulher entrou num dos meus livros eu tinha quarenta anos, foi em 1964, no "Ausência de Lol V. Stein". A personagem principal desse livro ainda não é Anne-Marie Stretter mas Lola Valérie Stein. Não sei de onde vem Lola Valérie Stein. Mas sei que Anne-Marie Stretter é Elisabeth Striedter. Tornou-se Anne-Marie Stretter em 1965 no Vice-cônsul e o nome manteve-se no filme "India Song", em 1975.
Ela caminha, escreve Peter Morgan.
Como não voltar? É necessário perder-se. Eu não sei. Tu aprenderás. Eu queria uma indicação para me perdeer. É necessário não ter segundas intenções, dispor-se a não mais reconhecer nada do que se conhece, dirigir os passos para o ponto mais hostil do horizonte, espécie de vasta extensão de pântanos que mil taludes atravessam em todos os sentidos não se sabe porquê.
Ela fâ-lo. caminha durante dias, segue os taludes, deixa-os, atravessa a água, caminha a direito, volta-se para outros pântanos mais distantes, atravessa-os, deixa-os por outros ainda.
É ainda a plánicie do Tonlé-Sap, ela reconhece ainda.
É necessário aprender que o ponto do horizonte que nos levaria a atingi-lo não é sem dúvida o mais hostil, mesmo se assim se julgar, mas sim o ponto que não se pensaria de modo algum em julgar que o é.
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