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Janela Indiscreta
 
segunda-feira, fevereiro 09, 2004  

Caras ou Coroas?



Já se encontra disponível a edição online da Periférica n.º 8. Destaque para o dossier especial dedicado a Luiz Pacheco.

Historieta

Texto de Luiz Pacheco | Ilustrações de Paulo Araújo

Era uma vez um sujeitinho que já tinha idade para ter juízo (andava nos quarenta e picos) e bebia de mais. Uma sede assim nunca se vira! Escorropichava tudo. Cervejolas, principalmente, se o dinheiro abundava; senão, caía nos tintaços, na rasca bagaceira; liso de todo, era quanto viesse, fiado ou pago por beneméritos compinchas de balcão. Aparecem sempre, é só saber esperar. Pagam o vinho, estendem-nos o maço dos cigarros, negam-se, porém, à sandes e ao galão e ao empréstimo ou cravanço. São os "amigos do copo".

Acontece que o tipo usava o mesmo nome que eu. Malvada coincidência. Porque, no correr dos anos, e conhecíamo-nos de perto, frequentávamos quase os mesmos sítios, as complicações e sarilhos, alguns graves, em que me vi metido por causa dele e das suas rábulas não tiveram conta. Se os fosse aqui contar... mas pra quê relembrar misérias, cegadas, trapalhadas incríveis? Sei que perdi empregos (com que alegria!), fugiram-me mulheres (oh que alívio!) e uma data de oportunidades porreiras, das que levam uma criatura a almejar e confiar numa velhice mais tarde garantida e repousada. Só porque me confundiam com ele e eu nem sempre dispunha de alibis ou testemunhas idóneas que provassem a minha inocência nas muitas macacadas em que, por gosto ou teima de bêbado, ele se recreava.

Na verdade, o abuso do álcool transtornava-o que era mesmo um disparate. Parecia outro. Metia-se com toda a gente, conhecidos ou desconhecidos, amigos do coração e outros que nunca gramara. Não poupava ninguém. Língua afiada, atitudes desbragadas, insolência, revoltas súbitas, quem o podia aturar? E passada a "crise", para cima de mim é que vinham... as iras, as censuras, caras torcidas, ameaças de pancadaria, perseguições injustas, vinganças a longo prazo. Que fazer? Eu às vezes nem me lembrava de nada do que ele tinha dito ou feito.

[...]

[Publicado originalmente no Século Ilustrado, em 30/10/1971.]

posted by cristina on 13:31


 
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