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Janela Indiscreta
 
sábado, janeiro 17, 2004  
um quarto onde não falta nada

No quarto de João de Deus não há quase nada: uma cama, uma mesa de cabeceira com uma garrafa com água, um copo, um rádio portátil e os medicamentos. Talvez haja percevejos ou talvez não, esse assunto não foi esclarecido, nem com a ajuda de Maiakowski.
Há ainda uma cadeira e na parede esta fotografia:


posted by cristina on 19:45


 
Este não é para roubar, é oferta da casa:

Do mel e do Granito

Para mim a experiência de Portugal significou a experiência da arquitectura de granito e a consciência diária da sua presença: “Estamos a comer mel numa casa de granito” – o verso veio-me à mente no Alto Minho, e com ele a ideia de que o pão de milho de Portugal barrado com mel trazia ao presente um gosto de coisas que seguramente não eram indiferentes ou falsificadas.

É claro que não é apenas o granito do noroeste peninsular que me atrai a Portugal. Entre demolições e desenvolvimento indiferente, celebro num poema como “Rua do Carriçal” uma rua do Porto que, apertada entre vias de grande tráfego, de algum modo sustenta um sentido de continuidade, com algo do passado nos seus velhos muros, e num particular quintal, que é suficiente para dar a um poeta um significado próprio. Se me retorquirem que muitas das coisas que admiro em Portugal pertencem cada vez mais ao seu passado, apenas posso responder que se o passado deixar de pertencer ao presente, se for deitado fora numa qualquer febre de desenvolvimento, então o presente tornar-se-à numa estéril terra desvastada. Os poetas, com o seu amor tanto pelo passado como pelo presente, são testemunhas atentas que recusam acomodar-se a esta perigosa conjuntura da civilização europeia, a este ponto no tempo a propósito do qual escreveu Simone Weil: “Uma vez destruído o passado nunca volta. A destruição do passado é talvez o maior de todos os crimes. A preservação do pouco que dele resta deveria tornar-se nos dias de hoje quase uma obsessão”.

Alto Minho

Não, não é nesse lago entre rochedos...
Pessoa


Voam abelhas entre a rosa e o rosmaninho.
As laranjas esperam o momento da apanha.
Os cunhais de granito junto à eira,
A marca rúnica inscrita pelo pedreiro
Pedem a clarificação pelo sol oculto.
(Mais tarde, o sol descobre sobre o rio
Para mostrar até onde chegou a enchente
E manchou com lama as folhas baixas das árvores
Da cor de pedra, uma orla pétrea refletida
Na superfície calma...)
Aqui reconciliam-se o pão e a realidade
Na excelência do milho, nos nacos barrados.
Estamos a comer mel numa casa de granito.

Quinta do Baganheiro


Rua do Carriçal

Os moradores da Rua do Carriçal
na sua rua insular —
a sua Innisfree* urbana
apertada entre duas estradas —
vivem bem longe, quer seja
da psicose ou de qualquer convento, e contudo
alguém escreveu na parede
Psychotic Lesbian Nuns.
A mulher que lava o seu terraço
não sabe ler estes rabiscos
porque estão garatujados em inglês,
e vai entretanto torcendo a sua rodilha
em inocência islenha. O vizinho
encaminhou as videiras
por uma rede de arame e aparece
por entre a verdura lá em baixo
a regar um jardim em miniatura —
morangueiros em vasos de plástico, um delgado
rectângulo de terra onde
crescem couves e jarros
lado a lado, e onde rosas gigantescas
se elevam sobre alfaces,
chilas e batateiras.
Sitiados por postes de alta-tensão,
uma antena de rádio, tráfego
do fim da rua e a nota monomaníaca
de um gerador,
os carros estacionados
aglomeram-se como uma plantação de abóboras,
onde, imune a qualquer mal,
a pré-freudiana Rua do Carriçal segrega
na tarde lusitana
uma calma conventual.

Charles Tomlinson, “Poemas Portugueses”, traduzidos por Gualter Cunha e editados pela Relógio d’Água

* Innisfree é uma pequena ilha num lago do Norte da República da irlanda (Lough Gill, na província de Sligo), celebrizada num poema de William Butler Yeats publicado em 1893, “The Lake Isle of Innisfree”, onde aparece como lugar simbólico de paz e pacatez bucólica por contraste com a vida cinzenta da cidade. (nota do tradutor)


posted by cristina on 18:54


 
Caminheiro

Sinto é um medo, um medo insuperável
Defronte das alturas misteriosas.
E dizer que me agradam andorinhas
No céu e do campanário o alto voo!

Caminheiro de outrora, cá me iludo
Pensando ouvir à borda do abismo
A pedra a ceder, a bola de neve,
O relógio batendo eternidade.

Se assim fosse! Mas não sou o peregrino
Que vem dos fólios antigos desbotados,
E o que em mim real canta é esta angústia:

Certo – desce uma avalancha das montanhas!
E toda a minha alma está nos sinos,
Só que a música não salva dos abismos!

Ossip Mandelstam, Guarda a minha fala para sempre, Assírio & Alvim


posted by Lídia on 18:20


 
A imperfeição da filosofia

A ler, do princípio ao fim, a entrevista à filósofa, professora escritoraMaria Filomena Molder, publicada hoje no suplemento Mil Folhas.

P.- Fala de Sócrates e do seu pedido para que seja aceite a "natureza incompleta da filosofia". Em relação ao título deste seu livro - "A Imperfeição da Filosofia" - será que está a reportar-se às palavras do filósofo ? Ao debruçar-se sobre essa "imperfeição" quer dizer que a sabedoria implícita no termo Filosofia não é completa e que em vez de "consolo" traz a inquietação inerente à descoberta continuada?

R.- Reli Boécio e a sua "A Consolação da Filosofia" - uma obra escrita na prisão de Ticinium em 524 ou 525, antes de ele ser executado - por causa do Dante. É um admirável esforço de se libertar do desespero, da desilusão, do medo da morte e do desprezo pela morte desonrosa. Nessa obra, vemos pela última vez brilhar sem vacilações a relação entre filosofia e modo de vida ou, melhor, a filosofia entendida como modo de vida, coisa que os Modernos tenderam a ocultar de forma mais ou menos eficaz. No meio da devastação, há quem jogue ao xadrez. Que a filosofia providencie a consolação tem alguma parecença com o jogo: suspende-se a relação com a imediatez, abre-se uma pequena fenda e tenta-se respirar melhor. Por seu lado, a imperfeição tem a ver com incompletude, um sentimento de perda, e com agilidade, leveza, tentar não cair como o acrobata. Isto é, a filosofia traz realmente inquietação e só atravessando essa parede ardente podemos chegar a vislumbrar que ela rima com "descoberta continuada".

posted by Lídia on 16:44


 
O cinema não tem consolo

O cinema não tem consolo. Porque é película, e a película nem sequer é tão saborosa como um gelado. É uma matéria físico-química, mais salgada do lado da emulsão porque tem ácidos - isto quando se põe a língua. Não sei se dá saúde. Mas não traz felicidade. E ainda por cima nesta idade já não excita muito o egozinho. O que é que eu gostava de ser? Gostava de não ser cineasta, não ser artista, ser gente simples, passando despercebidamente pelo grande magma social. Isto pressupõe uma certa inveja: não é a inveja de não ser um grande cineasta como o Murnau, é a inveja de não ser afável e simpático como o marido da minha porteira. Não consigo ser. Porque mexo em coisas que têm a ver com a criação, com a arte.

João César Monteiro

posted by cristina on 12:44


 
Encontro com João de Deus (primeira parte)



Lisboa, 1989: Um pobre-diabo de meia idade vive no quarto de uma pensão barata e familiar, na zona velha e ribeirinha da cidade. Atormentado pela doença, e por vicissitudes de ordem vária, o idiota, que se alimenta de Schubert e, quiçá, de uma vaga cinéfila como forma de resistência à miséria, é posto no olho da rua, após tentativa fruste contra o pudor da filha da dona da pensão.
Sozinho, e privado de quaisquer recursos, vê-se confrontado com a dureza do espaço urbano, e é internado num hospício, de onde sairá por ponderada decisão de homem livre, para cumprir uma missão "rica e estranha" que lhe é indicada por um velho amigo, doente mental como ele: "Vai, e dá-lhes trabalho!".

E aqui para nós, a rir a rir, algum tem dado...

Música: Franz Schubert; António Vivaldi

Cinema Nun' Álvares | sessões às: 15h00 / 18h15 / 21h30 / 00h00

posted by cristina on 12:34


 
Classificados (Lisboa)

Se alguém perdeu um cão de grande porte, pêlo bege, gorducho, na zona entre a Estefânia e o Martim Moniz (pelo menos é por aqui que anda), é favor contactar a Janela! É nitidamente um cão de casa e preferimos pensar que alguém deixou a porta aberta e um incidente aconteceu. Na pior das hipóteses, já estão a ser tomadas medidas para se arranjar nova casa.

Peço desculpa por não se tratar de um post janelesco, mas nestas situações temos de usar o que está ao nosso alcance...

posted by picatostes on 12:26


sexta-feira, janeiro 16, 2004  
Já cá faltava...


© Henri Cartier-Bresson / Magnum Photos

posted by camponesa pragmática on 21:21


 
a democracia está salva.


Com o teu melhor punho garroteias o tronco peniano para que o fluxo sanguíneo se comprima em torno da coroa da glande. Quando esta se apresentar rúbida e tumefacta, seguras a pele do prepúcio com a ponta do polegar e do indicador e sopras-lhe para dentro..prueeeeeee... conservando-a sempre muito esticada e hermeticamente colada aos lábios, tchuuc..tchuuc, tchuuc..tchuucc... do mesmo golpe, cuspinhando...ptuu...ptuuu... depressa e bem, até que fique cheia como um odre. Tapas muito bem tapadinha e deixas o todo murchar em branda evanescência.
— e o parlamentar?
—Lavrará o seu protesto. É uma questão de tempo. Já lhe falece o ímpeto falocrático, não evita a sofreguidão e acabará por bufar: “Então, amor, não chupas?”.
— E não chupo?
— Não. Era o que faltava. Explicas-lhe, com bons modos, que na China ninguém chupa, que essa prática é mais própria de sanguessugas que de seres finamente civilizados. Neste passo, o tribuno vacila, entaramela-se-lhe a voz, quer gritar pela mãe, mas não pode: tem a minhoca à mercê, escancarada à rés pública. A democracia está salva, ou, pelo menos, o que dela resta, na sua grotesca expressão teatral. Que após acesa discussão discussão, dura batalha no hemiciclo, legisla: “ o broche chinês, também designado por brochim, devido à sua remota origem asiática, é especialmente recomendado para senhoras ou meninas que não se sentem cativadas pela arte de bem o fazer, ressalvando que os incentivos, que no âmbito comunitário, lhe serão facultados, devem inserir-se numa rigorosa política de desenvolvimento das indústrias de recreio e lazer, pelo que o seu exercício será obrigatoriamente orientado por profissionais altamente qualificadas e com sobejas provas dadas em tão laboriosa e intricada tecnologia de ponta.”
A velha puta pode, enfim, sorrir.
....................................................................................................................................
— Quando é que nos voltamos a ver?
— Quando formos suficientemente velhos. Por ora, hesitamos como toda a gente. Aqui entre nós, e não deixa de ser engraçado, o brochim é o broche dos broches, a súmula. Mas esta gentalha nunca o saberá. Para a corja nem uma sede de água.

João César Monteiro, Vai e Vem.


posted by zazie on 18:35


 

Ondas curtas



1- O projecto alemão de música electrónica To Rococo Rot actua logo mais, às 20.00h, na estação de Metro da Baixa-Chiado em Lisboa. A entrada é livre (a saída é que pode ser complicada tendo em conta o hediondo sistema de acessos do Metropolitano de Lisboa: pessoas entaladas, pessoas presas sem conseguirem sair da estação, bilhetes que deixam de funcionar sem razão aparente, já vi de tudo.) Mais informações (sobre o concerto, não sobre o sistema de acessos) aqui.

2- E quando já nada o fazia prever, ainda encontrei um exemplar de Escrítica Pop, de Miguel Esteves Cardoso (ed. Assírio e Alvim). O livro foi lançado em 30 de Dezembro conjuntamente com o nº 1000 do jornal BLITZ, ao preço especial de 14 €, e aparentemente ainda restam alguns exemplares nas bancas. E já me ri a valer com algumas passagens de "Como ser um critico de rock: um guia pratico".

posted by António Rebelo on 15:42


 


Anselm Kiefer, A via láctea (die Milchstrasse) 1985-87


posted by cristina on 13:38


 
Os fantasmas da infância

"Cenas Infantis com Robert Schumann", de Brice Pauset estreia hoje no Teatro Sá de Miranda em Viana do Castelo e amanhã chega ao Porto. Mais pormenores aqui.

posted by cristina on 13:20


 

Ministério da Saúde vai regular prescrição médica da "cannabis"



A regulamentação será feita no seguimento de uma directiva da União Europeia de 2002 sobre medicamentos à base de plantas, acrescentou Fernando Negrão, explicando que a "cannabis" poderá ser utilizada para diminuir as dores em casos como as artrites reumatóides.

© PÚBLICO

Ultimamente ando cheio de dores nas articulações, tenho que tomar qualquer coisa...






posted by António Rebelo on 12:34


 
Quase três tiras


Quino

posted by camponesa pragmática on 11:52


 
Tomei duche quente, levei um copo de leite com mel para perto do sofá, enrosquei-me e abri "O mundo de Mafalda", com que fui presenteada no Natal. Eu que passei anos a dizer mal do livro branco, que o vermelho chegava perfeitamente, devorei sem remorsos os textos e as tirinhas excedentes, onde muita coisa se explica, além de vingarem, mesmo ao fim de todos estes anos, aquele desgosto tremendo que senti quando acabei o último volume da colecção clássica, razão pela qual, em criança, passei directamente da Mafalda para os outros livros do Quino, com consequências irreversíveis.

Lá está, nessas tirinhas da Mafalda que não conhecia, sublime passagem: "Não faz sentido falar a sério com alguém que está a brincar e se estivesses a brincar eu não te levaria a sério. É uma situação complicada. Eu não gostaria de estar no teu lugar...". Que lindo!

Hoje entro nas tirinhas conhecidas pela 5ª ou 6ª vez. Isto não é reler a Mafalda, é ler mais uma vez pela primeira vez a Mafalda. Não percebo o que é mas está lá uma coisa que só está lá. A diferença é que antigamente tinha de pedir o livro emprestado e agora há este exemplar só meu. Caramba, que independência!


posted by camponesa pragmática on 11:42


 
três entrevistas

1.
"Sou um drogado do cinema. Fazer filmes é simplesmente um modo de justificar a minha existência aqui e agora", diz Saguenail ao JN. E continua: "Metade do Porto é um sonho americano importado. A outra metade é ruína", e diz ainda mais...

2.
“A minha actividade submarina tinha a ver com uma espécie de tranquilidade porque a água do mar é, por sinal, muito parecida com o líquido amniótico, e por uma ameaça, porque respirar debaixo de água é uma coisa completamente paradoxal. Mas isso vinha do meu amor pelo mar. Nas fotografias, a água, os rios, o gelo... já reparou que um charco que reflecte luz é um paradoxo "in se"? É que a luz que vem de um charco vem de baixo para cima em vez de vir de cima para baixo. Daí o meu fascínio pelos charcos. Ainda hoje, quando vejo uma poça de água (risos), vão para ali as tentativas... “
Gérard Castello-Lopes entrevistado por Kathleen Gomes no Público a propósito de "Oui Non" uma ampla retrospectiva da sua obra que inaugura hoje no Centro Cultural de Belém. A não perder, ambas.

3.
“A relação de um simples soldado com uma hierarquia militar limitativa, sempre em tensão, pode ser vista como uma metáfora da relação entre o indivíduo e a sociedade, sempre cheia de regras de convivência e de comportamento. Depois há o amor, a desilusão, o ciúme, um conjunto de emoções que levam muitas vezes a atitudes irreflectidas, mas genuínas, boas ou más. No fundo o que passa por "Woyzeck" é a natureza humana, com toda a sua crueldade, ternura, fraqueza”, diz Josef Nadj, que anda por aí (Évora, Viseu e Lisboa) a dançar Woyzeck.

posted by cristina on 10:15


 
o que é bom na freguesia das Mercês


— Bom-dia senhor João! Está a olhar para ontem?
— Bons olhos a vejam menina Custódia, nem tinha dado por si.
Neste ontem que foi hoje, só se olha para o nunca-mais-é.
—Mesmo com uma manhã tão linda, cara-sem-olhos é o que é.
—Sem olhos vi o mal claro, que dos olhos se seguiu, pois cara-sem-olhos viu, olhos que lhe custam caro.
D’olhos não faço menção que quereis q’olhos não sejam, vendo-vos, olhos sobejam, não vos vendo, olhos não são.
Seja bem aparecida. Vai de abalada até aos Grandes Armazéns?
— Lá terá que ser.
Tenho estado de férias em Paris.
— Sim, senhora.
Paris étoujours Paris.
—Subi até ao topo da Torre Eiffel, com todas aquelas luzinhas a perder de vista, mas ninguém me reconheceu.
—É íngreme e árdua a escadaria da fama. É preciso perseverar.
—Começaram logo a fazer pouco quando lhes disse que tinha ganho o título de miss Piscina....
—eurr... e sem espinhas, era a mais bela.
—realmente, até fui sufragada.
—O que é bom na freguesia das Mercês, é bom nos Champs Elisées

posted by zazie on 01:29


 

Os perigos da obediência



Já que se falou de Stanley Milgram mais abaixo, refira-se que este investigador deve em boa parte a sua fama a um conjunto de experiências que efectuou no início dos anos 60 sobre a obediência à autoridade.

Através de um anúncio de jornal, Milgram recrutou um conjunto de cidadãos comuns para participar numa investigação que supostamente procurava estudar os efeitos do castigo na aprendizagem. A cada uma destas pessoas foi atribuído o papel de "professor", e a uma outra, que o "professor" pensava ser igualmente um colaborador voluntário da experiência mas que era na verdade um ajudante de Milgram, incumbia o papel de "aluno".

O "professor" devia ler um conjunto de duas palavras ao "aluno", que as deveria repetir correctamente; caso errasse, o "professor" deveria administrar-lhe um choque eléctrico, começando numa voltagem de 15 volts; cada vez que o "aluno" errasse, o "professor" deveria aumentar a voltagem do choque. Ao seu dispor tinha um painel que lhe permitia administrar choques de intensidade crescente, começando nos 15 volts e indo até aos 450. Cada interruptor tinha um pequeno rótulo associado, desde "Choque ligeiro" até "Perigo: choque grave"; os últimos dois interruptores tinham apenas o rótulo "XXX".




Na realidade, o "professor" não administrava choque nenhum, mas a experiência foi montada por Milgram de tal forma que cada "professor" estava absolutamente convencido de que efectivamente o estava a fazer (os gritos que o "aluno" emitia ajudavam sem dúvida a isso).

O investigador estava igualmente presente na sala, e o seu papel consistia em insistir com o "professor" para que fosse tão longe quanto o necessário. Se este hesitasse, o investigador dizia assumir todas as responsabilidades.

Os resultados, impressionantes, foram os seguintes: nenhum dos "professores" parou antes dos 300 volts, e 65% atingiram a voltagem máxima.

Para além dos problemas éticos que esta experiência levanta - os factos foram filmados, e os relatos de quem viu os filmes mencionam o estado de extremo nervosismo e ansiedade a que os "professores" chegavam - a verdade é que estes resultados são sem dúvida perturbadores. Até onde nos pode levar a obediência, principalmente se uma suposta autoridade nos exime de responsabilidades?

Aqui pode ler-se um texto do próprio Milgram sobre a sua experiência.

posted by António Rebelo on 01:25


 

O ponto alto de Mystic River



Quando um velhote dono de uma loja de bebidas descreve um assalto de que foi vitima como tendo sido scary as a glass of milk.

Que lindo! O ano de 2003 já nos tinha proporcionado uma excelente ocasião para renovar o arsenal fraseológico da humanidade, substituindo o algo datado "calendas gregas" por um "quando for encontrada uma arma de destruição maciça no Iraque", e eis que este filme nos fornece mais uma bela e sugestiva expressão, infelizmente aplicável a muitas coisas que povoam o nosso quotidiano.


posted by António Rebelo on 00:24


quinta-feira, janeiro 15, 2004  

Denny Moers | Exiled Papers

"The American poet Robert Duncan described the process of composing poetry as an open field --as though words formed their meaning directly and concretely on this "landscape made of paper." I have always felt the visual experience, landscapes, architecture, ancient forms and the monoprints I create from these places as an open field sensitized to whatever I could bring to it and receive from it. Photographing and printing has always been an act of transformation from the literal to the imagined, and from the seen to the felt. ..."

posted by camponesa pragmática on 22:07


 
sob escuta:


posted by camponesa pragmática on 13:41


 
John Cage


© Susan Schwartzenberg/The Exploratorium

...
We are living in a period in which many people have changed their mind about what the use of music is or could be for them. Something that doesn't speak or talk like a human being, that doesn't know its definition in the dictionary or its theory in the schools, that expresses itself simply by the fact of its vibrations. People paying attention to vibratory activity, not in reaction to a fixed ideal performance, but each time attentively to how it happens to be this time, not necessarily two times the same. A music that transports the listener to the moment where he is.
...


Para ler na íntegra: John Cage, An Autobiographical Statement

Para ouvir: Forever and Sunsmell e Solo for voice 67

For this recording, I focused on particular aspects of Cage: the sense of wonder, the feeling for beauty, the love of theatre, the fascination with words and sounds of all sorts and, of course, silence.

Each of the songs has its own emotional and acoustical space, some of which have been dictated in performance notes, some are indicated by the music itself. Unless otherwise stated, the notes instruct the singer: "To be sung without vibrato, as in folk singing."

In choosing these works I saw myself as singing through Cage, as he has done, writing through or reading through texts in order to study, to learn, to comprehend more fully.

Finally, "Singing Through" is a love song for my mentor to my mentor, my friend.

Joan La Barbara

© New Albion

posted by cristina on 13:15


 
Bisnacar (2)

Com ideia de incluir verbo bisnacar na língua portuguesa veio Jorge em caixa de comentários indiscreta. Tendo particular simpatia pelo ziguezaguear do dicionário pelo tempo e pelos costumes, fui por link teletransportador depositada em predisposição de ideia bonita no Lâmpada Mágica. Após leitura de post dei comigo em dúvida delirante – se o que fazemos na blogosfera é bisnacar e se bisnacamos na blogosfera portuguesa, não será o verbo bisnacar uma forma polida de dizer que nos desdobramos, diluímos e dispersamos em infinitas conversas de café porém escritas, mais ou menos coerentes e geralmente isentas de erros formais? O verbo mais apropriado não seria pois bifanar?

posted by camponesa pragmática on 13:08


quarta-feira, janeiro 14, 2004  
Bisnacar

Presente do Indicativo

Eu bisnaco
Tu bisnacas
Ele bisnaca
Nós bisnacamos
Vós bisnacais
Eles bisnacam




posted by camponesa pragmática on 23:27


 


Nesta casa vi céus de todas as cores existentes, tonalidades infinitas, céus todos os dias diferentes. Durante cinco anos vivi intenso encantamento com esta janela e com o que dela se via, que era essencialmente espaço. Fotografei-a todos os dias, a cores e a preto-e-branco, a todas as horas, com sol, a chover, com a cidade mergulhada em nevoeiro, com a luz doentia das tempestades, com e sem nuvens, com as escadas de incêndio e sem as escadas de incêndio, sem rio ao fundo e com rio ao fundo, com roupa estendida e vento e os fantasmas inevitáveis. Fotografei-a em qualquer estado de espírito, por mais improvável que fosse, num esquecimento absoluto de tudo.

Não sei digitalizar, isto foi cortesia da Cristina :)


posted by camponesa pragmática on 22:55


 
Miss Amélia amava o primo Lymon

«Era uma coisa evidente aos olhos de toda a gente. Viviam na mesma casa, juntos, e nunca se separavam. Por conseguinte, e segundo Mrs. MacPhail, uma velha metediça com o nariz coberto de verrugas e que nunca estava quieta, e algumas outras, aqueles dois viviam em pecado. Se eram parentes, tratava-se de parentesco afastado e mesmo isso não havia maneira de se provar. Ora, Miss Amélia, com mais de seis pés de altura, era uma pessoa desajeitada e o primo Lymon um anão que mal lhe chegava à cintura. Mas tanto melhor para Mrs. MacPhail e suas comadres, gente que se regozija com ligações discordantes e mais dignas de dó que doutra coisa. Assim seja. Os sem-malícia, por seu lado, pensavam que, se os dois extraíam prazer físico um do outro, era assunto que só dizia respeito aos próprios e a Deus. Mas todas as pessoas sensatas concordavam - e a sua posição era clara - que não era esse o caso. De que natureza era, então, este amor?
Em primeiro lugar, é uma experiência a dois, mas isso não quer dizer que seja a mesma coisa para cada um. Há o que ama e o que é amado, e estes dois eram diferentes como o dia da noite. (...)»

© Balada do Café Triste, Carson McCullers (Relógio d'Água)

posted by picatostes on 22:53


 

Já reparou que a Janela tem hoje sete posts novos?



E ainda não jantámos!


posted by camponesa pragmática on 17:43


 
O silêncio pode ser música?

A composição "4'33 (para nenhum instrumento ou combinação de instrumentos)" escrita por John Cage vai ser interpretada pela primeira vez por uma orquestra, a Sinfónica da BBC no Barbican Hall, em Londres, e transmitida em directo pela rádio da mesma estação na sexta-feira. São quatro minutos e 33 segundos de silêncio completo e foram precisos 50 anos para que a obra mais emblemática de Cage chegasse ao grande público.


Artigo de Sara Gomes no Público

posted by cristina on 13:33


 
Gosto desta frase:

Nova Iorque ainda é um grande lugar para o cinema, e é muito por isso que vivo aqui.

posted by cristina on 13:31


 
João César Monteiro

no Cinema Nun' Álvares, no Porto, de 15 a 21 de Janeiro:

quinta-feira, 15 Jan.
À FLOR DO MAR | às: 15h00 / 21h30
O ULTIMO MERGULHO | às: 18h15

sexta-feira, 16 Jan.
SILVESTRE | às: 15h00 / 21h30 / 00h00
VEREDAS | às: 18H15

sábado, 17 Jan.
RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA | às: 15h00 / 18h15 / 21h30 / 00h00

domingo, 18 Jan.
A COMÉDIA DE DEUS | às: 15h00 / 18h15 / 21h30

segunda-feira, 19 Jan.
AS BODAS DE DEUS | às: 15h00 / 18h15 / 21h30

terça-feira, 20 Jan.
BRANCA DE NEVE | às: 15h00 / 21h30
LE BASSIN DE J.W. | às: 18h15

quarta-feira, 21 Jan.
VAI E VEM | às: 15h00 / 18h15 / 21h30

posted by cristina on 13:18


 
"only we can prevent forests!"



A Guerra e a Justiça têm isto em comum –
são ambas cegas.


Agent Orange (detalhe)
© Philip Jones Griffiths/ Magnum

posted by camponesa pragmática on 11:06


 
sob escuta



“João Gilberto podia estar lendo o jornal que mesmo assim soaria bem”, disse certo dia Miles Davis e creio que tinha toda a razão.

João Gilberto (1973, Brasil): Águas de Março, Undiú, Na Baixa do Sapateiro, Avarandado, Falsa Baiana; Eu Quero um Samba, Eu Vim da Bahia, Valsa (Como são lindos os Youguis) (Bebel), É Preciso Perdoar, Izaura.

Cada palmeira na estrada
Tem uma moça recostada
Uma é minha namorada
E essa estrada vai dar no mar
Cada palma enluarada
Tem que estar quieta parada
Qualquer canção quase nada
Vai fazer o sol levantar

Vai fazer o dia nascer
Namorando a madrugada
Eu e minha namorada
Vamos andando na estrada
Que vai dar no avarandado do amanhecer
No avarandado do amanhecer
No avarandado do amanhecer


posted by cristina on 09:08


 

sob escuta



Sylvia Plath lendo The Thin People. Ainda haverá tempo para ouvir Joseph Brodsky lendo Nature Morte, ou Anne Sexton lendo Divorce, thy name is woman, e certamente W. B. Yeats lendo The song of the old mother. The Wasteland, lido por T.S. Eliot, é que terá que ficar para depois, que são 25 minutos de leitura.

Tudo isto e muito mais, nesta maravilha composta por três CD:

The Caedmon Poetry Collection


posted by António Rebelo on 00:38


terça-feira, janeiro 13, 2004  

O mundo será mesmo pequeno?





Mapa da Internet, disponível em http://www.opte.org/maps/



Em 1967, um investigador chamado Stanley Milgram procurou testar a ideia de que "o mundo é pequeno"; ou seja, até que ponto todos os membros de uma grande população (dos Estados Unidos, por exemplo) poderiam estar ligados entre si através de uma rede relativamente pequena de contactos pessoais.

Para tal, Milgram pediu a um conjunto de cerca de 300 pessoas seleccionadas aleatoriamente no Nebraska e no Kansas para fazer chegar uma encomenda a "pessoas-alvo" (desconhecidas daquelas, obviamente) residentes na área de Boston. Para chegar ao destinatário, a encomenda só poderia ser passada de mão em mão e apenas a alguém que os participantes conhecessem pessoalmente.

Milgram conclui que em média bastavam cerca de 6 passos até a encomenda chegar ao destinatário. Daí a origem da expressão six degrees of separation, a qual popularizou a ideia de que qualquer pessoa poderia estar ligada a qualquer outra através de uma cadeia com não mais do que 6 elementos.

Esta noção esteve na origem de jogos como o Kevin Bacon Game, o qual demonstra que é possível ligar quase todos os actores constantes na base de dados do IMDB a Kevin Bacon (ignoro porque foi ele o escolhido), com base nos filmes em que tenham participado; por exemplo, e usando a terminologia do jogo, Joaquim de Almeida tem um Bacon number de 2: Entrou em On the Run (1999) com Arthur J. Nascarella, que por sua vez contracenou com Kevin Bacon em In the Cut (2003).

Seja como for, a consistência dos resultados de Milgram foi posteriormente contestada com base em vários argumentos. Assim, para testar novamente a ideia do "mundo pequeno" decorre neste momento uma experiência organizada pela Universidade de Columbia e designada Small World Project.

O projecto retoma no essencial a ideia original de Milgram, mas desta feita numa escala global e tirando partido do correio electrónico. Qualquer pessoa com acesso à Internet pode participar: basta fazer um registo no site do projecto, após o que nos será atribuído um target: a pessoa a quem devemos fazer chegar uma mensagem, usando apenas a nossa rede de conhecimentos pessoais. Também podemos oferecer-nos para ser um "target", e esperar que alguém algures no mundo nos faça chegar um e-mail.

O que pretendem os investigadores? Nas suas próprias palavras: We hope to test not only average properties of lengths of acquaintance chains, but also the distribution of lengths, along with the effect of race, class, nationality, occupation, and education. We intend to quantify the impact of additional target information upon search success and chain length, and also to investigate the importance of "centers" individuals who are thought to exist who are disproportionately responsible for directing messages to the targets.


Mais informações:

- Um artigo do mentor da experiência: Kevin Bacon, the Small-World, and Why It All Matters


- Um artigo do Guardian sobre outras aplicações da ideia do small world



posted by António Rebelo on 23:03


segunda-feira, janeiro 12, 2004  
Antigos Mestres, uma comédia de Thomas Bernhard

A Alexandra já leu. Eu acho que Thomas Bernhard é um dos escritores mais perigosos que já li, e isso tem muito a ver com o seu método de explorar tudo aquilo de que fala até um limite dificilmente suportável,disse ela.
Eu comecei no fim-de-semana e ando às voltas, cinquenta, sessenta, setenta páginas de cada vez e um descanso depois, acabo logo à noite. Lê-se de fôlegos grandes, quase em voz alta, com sorrisos e até gargalhadas, por causa do sarcasmo, da ironia, daquele retrato de um país tão odiado ou da benevolência com o sul (ah, fosse ele português e mudaria de opinião, aposto), mas lê-se também com um certo desconforto porque não há meta com Bernhard, desde o princípio que sabemos disso, não vamos chegar a nenhum lado, é só caminho, não vamos ganhar nada, pelo contrário acabamos de mãos a abanar, ainda mais vazias. Mas mesmo assim ou por causa disso (sim, por causa disso) gosto do modo descontrolado como ele se deixa ir e nos leva até esse limite insuportável de que fala a Alexandra. Gosto dos recursos de malabarista e do ritmo das frases: as repetições, as obsessões, as contradições e a música, sempre a música.

Não sigo uma ordem cronológica, comecei o meu percurso com ?O sobrinho de Wittgenstein ? Uma amizade? (edição da Assírio & Alvim), depois ?O Náufrago? (da Relógio d?Água), li os poemas de ?Na Terra e no Inferno? (Assírio & Alvim) e agora entreguei-me aos ?Antigos Mestres - Comédia? (também da Assírio & Alvim e diga-se que as traduções, notas e prefácios de José A. Palma Caetano são excelentes). Desde o primeiro livro fiquei fascinada com o Thomas Bernhard mas ainda não sei porquê, nem sei se quero descobrir. Neste livro ele avisa-nos que não devemos ler tudo totalmente e estou decidida a não o fazer. É isto a sedução, não é?

Não gostamos de Pascal por ele ser tão perfeito, mas por ele ser no fundo, tão fraco, tal como gostamos de Montaigne por causa da sua fraqueza, que andou a vida inteira à procura sem nunca encontrar, Voltaire por causa da sua fraqueza. Gostamos da filosofia e de todas as ciências de espírito só porque elas são de uma absoluta incapacidade. Na verdade só do que nós gostamos é dos livros, que não são nenhum todo, que são caóticos, são indefesos. E assim acontece com tudo, disse Reger, a uma pessoa também nos afeiçoamos de uma forma muito especial porque ela é fraca e não é nenhum todo, porque é caótica e não é perfeita.


posted by cristina on 20:52


 
a realidade não é aquilo que vemos


© Gérard Castello Lopes, 1987

Esta fotografia já passou por aqui mais do que uma vez mas na última quinta-feira, logo no começo do filme – A Falha, de João Mário Grilo na 2 –, a câmara fazia uma panorâmica pela sala e lá estava ela de novo e depois do filme visto achei que a fotografia já contava a história toda e é esta a razão de voltar a Gérard Castello Lopes.

...
Jorge P. Pires (Expresso, 29.01.2000) – Ao mesmo tempo, essa sua famosa fotografia da pedra também é uma expressão do seu gosto pela arte do paradoxo.
Gérard Castelo Lopes – O meu olhar tem hoje uma liberdade que não tinha, e eu precisava de formular uma ideologia fotográfica, um esquema, um plano - dizer que a realidade não é aquilo que vemos. Tenho portanto esta ideia de que é possível que as aparências iludam, que o avião no ar vai parado, que as coisas ao longe são realmente pequenas e não grandes como sabemos. E, se eu fotografasse a cores, que as montanhas não são sempre verdes ou castanhas - por vezes são azuis ou violetas. Mas a gente já não vê a cor do mar, porque sabe que o mar é azul. A realidade que a maior parte das pessoas vêem é filtrada pelo nome que damos às coisas. E o nome estraga a pureza, a inocência do olhar. É esta espécie de inocência do olhar - que eu não tenho, mas que ando sempre a tentar apanhar - que dá algum sentido ao que vou fazendo.

Toda a entrevista aqui.

posted by cristina on 20:45


 
Debates em Volta dos Livros em Serralves e na Culturgest

Maria João Seixas vai orientar a Comunidade de Leitores que a Fundação de Serralves vai lançar, no Porto, a partir do próximo dia 29 de Janeiro. A iniciativa vai decorrer quinzenalmente, até 8 de Abril, com um total de seis sessões. "Estimular o gosto pela leitura e o debate de ideias através do desafio lançado a um círculo aberto de público, com base na leitura de uma obra literária", é o objectivo da comunidade, explica a Fundação de Serralves numa nota em que são também já anunciadas as obras escolhidas por Maria João Seixas: "Antígona", de Sófocles (29 de Janeiro), "Cartas de uma Religiosa Portuguesa" (12 de Fevereiro), "No Reino da Dinamarca", de Alexandre O'Neill (26 de Fevereiro), "A Hora da Estrela", de Clarisse Lispector (11 de Março), "Desconhecido nesta Morada", de Katharine Kressmann Taylor (25 de Março) e "O Leitor", de Bernard Schlink (8 de Abril).

© Público

posted by cristina on 20:42


 


A história de "Jane Eyre", personagem que dá título ao romance homónimo da escritora inglesa Charlotte Bronte, encontra-se agora representada neste conjunto de 25 litografias da autoria de Paula Rego que também retrata as outras duas personagens principais do romance: Bertha e Edward Rochester. Nestes trabalhos, expostos desde sábado na Galeria 111, a artista volta a abordar a condição da mulher num mundo dominado pelos homem.

"Jane Eyre, litografias de Paula Rego na Galeria 111, até dia 28 de Fevereiro
Rua D. Manuel II, 246 | Das 10h às 12h30 e das 15 às 19h30 | Encerra à 2ª, sáb. de manhã e domingo

© Público

posted by cristina on 20:38


 


Crossdressing

Picking the perfect little outfit for a stylish crucifixion!


posted by camponesa pragmática on 17:25


 
Bizarrona

Este fanzine deve ser reproduzido.

posted by camponesa pragmática on 15:07


 
HAITI. Port-au-Prince. December 2003. Preparations for the Bicentinary Celebrations. Celebrations of 200 years of Independence and political unrest against President J.B. Aristide. After the departure of UN and U.S. troops in 1996, Haiti has fallen off the map. The poorest country in the Western hemisphere is ruled by the formerly highly-welcomed former priest and democratic leader, J.B. Aristide and his Lavalas movement. But since the 2000 election irregularities, a steadily growing middle and upper class opposition is demanding his departure. They are trying to interrupt the pompous celebrations to mark 200 years of Independence after a slave revolt against Napoleon made Haiti the first black republic. In often violent demonstrations, the opposition clashes with police, pro-Aristid Lavalas supporters and the gang-style irregulars "chimeres."


Haiti: Celebrations and Turmoil © Thomas Dworzak/ Magnum

posted by camponesa pragmática on 14:34


 
Janelas altas

Li no JN de ontem que está quase a chegar às livrarias “Janelas Altas”, de Philip Larkin com edição (suponho que biligue) da estimada Cotovia. A tradução é de Rui Carvalho Homem.
Como todos sabemos, do Larkin há "Uma Antologia" fora do mercado, poemas esparsos em antologias colectivas e um romance ("Uma rapariga no Inverno") na D. Quixote por isso imagino a ansiedade em deitar as mãos ao desejado livro, imagino as bichas às portas das livrarias, imagino o país em alvoroço…

Por mim deixo claro: vou para a rua e só regresso ao blog com um exemplar nas mãos.


When I see a couple of kids
And guess he's fucking her and she's
Taking pills or wearing a diaphragm,
I know this is paradise

Everyone old has dreamed of all their lives -
Bonds and gestures pushed to one side
Like an outdated combine harvester,
And everyone young going down the long slide

To happiness, endlessly. I wonder if
Anyone looked at me, forty years back,
And thought, That'll be the life;
No God any more, or sweating in the dark

About hell and that, or having to hide
What you think of the priest. He
And his lot will all go down the long slide
Like free bloody birds
. And immediately

Rather than words comes the thought of high windows:
The sun-comprehending glass
And beyond it, the deep blue air, that shows
Nothing, and is nowhere, and is endless.

posted by Reporter on 12:57


domingo, janeiro 11, 2004  

Isadora Duncan em Atenas, 1903


A Isadora Duncan

Nasci quando morreste
por isso trago a nostalgia
dos movimentos puros que tiveste

David Mourão-Ferreira

posted by Lídia on 17:03


 
Sim, Cris, o poema "Leninegrado" está traduzido, pela Nina Guerra e Filipe Guerra, em "Guarda a minha fala para sempre", da Assírio & Alvim. Aqui fica.

Leninegrado

Voltei, cidade, até à lágrima sabida,
ao nervo, à infantil glândula inflamada.

Voltaste- sorve o óleo de peixe dum trago,
ah, lampiões do ro de Leninegrado.

Dum só trago reconhece o Dezembro, mês
com seus dias mistura de gema e de pez.

Ó Petersburgo, não quero morrer ainda,
em ti cabem os números da minha agenda.

Vê Petersburgo, endereços tenho muitos,
Pra neles encontrar as vozes dos defuntos.

Vivo na traseira, arranco em carne da fonte
o lancinar da campainha a cada golpe.

Espero as visitas noite dentro, noite morta,
tinindo as algemas da corrente da porta.

1930

Ossip Mandelstam


posted by Lídia on 16:49


 
Também o silêncio forçado de Ossip Mandelstam

"Nov, 1933

De manhã, a Nádia Mandelstam veio inesperadamente a minha casa, entrou a correr:(...)
"O Óssia fez uma poesia muito violenta, não se pode escrevê-la. Além de mim, mais ninguém a conhece, é preciso que mais uma pessoa decore. Será Você. (...) Ele leu:"Vivemos sem sentir o país debaixo dos pés"(Ossip)."
(E. Guerstein)

de: "Guarda a minha fala para sempre"

posted by Lídia on 16:35


 
Termino esta curta viagem a São Petersburgo com mais um poema de Anna Akhmátova (também retirado de “Só o sangue cheira a sangue”, da Assírio & Alvim), dedicado a Ossip Mandelstam (que nasceu no dia 15 de Dezembro de 1891 e morreu (talvez) no dia 27 de Dezembro 1938, numa prisão na Sibéria ou a caminho dela); e ainda com o convite para outros poemas (infelizmente disponíveis apenas em alemão) e fotografias: convém vestir agasalhos, está frio na cidade branca, façam o favor, a entrada é por aqui...



Vorónej*

Toda a cidade imóvel e gelada.
Árvores, muros e neve sobre vidro.
Piso cristais a medo, o desfilar
dos trenós ornados é indefinido.
Sobre a catedral de Pedro voam gralhas,
erguem-se álamos, o verde-claro da abóbada
desbotada, baça, em poeiras de sol.
Sopram batalhas de Kulikovo os declives
da terra pujante e vitoriosa.
E os álamos tilintam sobre nós
com mais força, como taças a brindar,
como bebessem nas bodas à nossa
alegria convidados aos milhares.

No quarto do poeta em desgraça fazem
a Musa e o medo, por turnos, sua velada,
e continua a noite
que não conhece madrugada.

Anna Akhmátova, 1936

* Ossip Mandelstam passou três anos (1935-1937) exilado em Vorónej, região a oeste da Rússia, na fronteira com a Ucránia. "Cadernos de Vorónej" é o nome do seu último livro, mais pormenores aqui.

posted by cristina on 16:06


 

Postal e poema gentilmente enviados pela Carla Bryeva

Leningrad

I returned to my city that I know like my tears,
Like my veins, like childhood's swollen glands

You've come back here, so swallow at once
The cod liver oil of Leningrad's river lamps,

Recognize, right away, the brief December day,
Egg yolk commingled with ominous tar.

Petersburg! I'm not yet ready to die!
You've still got my telephone numbers.

Petersburg! I still have the addresses
Where I can call on the speech of the dead.

I live on a back staircase, and the clapper
Yanked out with flesh hits me in the temple,

And all night through I wait for precious guests,
Rattling like shackles the chains on the doors.

Ossip Emelievich Mandelshtam, December 1930

O original em russo pode ser visto/lido aqui.
Não sei se este poema está traduzido para português mas se o encontrar prometo substituí-lo.

posted by cristina on 14:11


 
À laia de prefácio

Nos terríveis anos do ejovismo(1) passei dezassete meses nas bichas da cadeia de Leninegrado. Uma vez, até alguém me «reconheceu». Por esta altura, uma mulher de lábios azuláceos que estava atrás de mim, e que de certeza nunca ouvira sequer pronunciar o meu nome, despertou da letargia própria de todas nós e perguntou-me ao ouvido (ali toda a gente sussurrava):
— Pode contar isto?
Respondi:
— Posso.
Então, uma espécie de sorriso deslizou por aquilo que outrora fora o rosto da mulher.

Anna Akhmátova, Abril de 1957, Leninegrado
“Só sangue cheira a sangue”, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, edição da Assírio & Alvim

(1). De Ejov, chefe da polícia secreta (NKVD — comissariado popular dos assuntos internos), antecessor de Béria, e que, tal como este, foi no seu tempo o braço direito de Stáline. (N. da T.)

posted by cristina on 13:25


 
só o sangue cheira sangue…

Pó cheira a raio de sol,
mel bravo à liberdade,
boca de moça à violeta,
e o ouro não cheira a nada.
A reseda cheira à água,
amor à maçã rescende,
mas agora já sabemos –
só o sangue cheira sangue…

Em vão o pretor romano
se lavava as palmas grossas
sob os gritos da plebe.
E a raínha da Escócia
debalde raspava as gotas
vermelhas da mão esguia
na penumbra sufocante
da real moradia.

Anna Akhmátova, 1943
“Só sangue cheira a sangue”, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, edição da Assírio & Alvim

posted by cristina on 13:12


 
Este ano, o Outono chegou muito cedo



[…] Quando me visitava, Anna Akhmátova recitava poesias do «Requiem», também a sussurrar, mas na sua casa do Fontanka nem a isso se atrevia; de repente, no meio da conversa, calava-se e, mostrando-me com os olhos o tecto e as paredes, pegava num papel e num lápis, ia dizendo qualquer coisa de mundado — «toma chá?» ou «a senhora ficou muito bronzeada» — enchia o papel com umas letrinhas apresssadas e entregava-mo. Eu lia a poesia, decorava-a e devolvia-lhe o papel. «Este ano, o Outono chegou muito cedo» — pronunciava em voz alta e, riscando o fósforo, queimava o papel em cima do cinzeiro.
Era o ritual: mãos, fósforo, cinzeiro — um ritual belo e amargo.
[…]

Lídia Tchukovskaia, Notas sobre Anna Akmátova, vol. 2, «Soglácie», 1997, Moscovo
in Introdução a “Só sangue cheira a sangue”, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, edição da Assírio & Alvim

posted by cristina on 13:07


 


Josefa de Óbidos, Santa Maria Madalena, 1650, óleo sobre cobre, 22,8 x 18,4 cm, Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra (presente na exposição virtual "Seis Séculos de Pintura Portuguesa")

A exposição "Seis Séculos de Pintura Portuguesa" é um projecto concebido e mantido por Eduardo Mota (Gouveia, Portugal). Para a sua concretização contou com a colaboração de Rui Bebiano (Coimbra, Portugal) e o apoio do Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Apesar de não ser actualizado desde finais de 1999 este site continua a ser de visita obrigatória.

posted by cristina on 12:56


 
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