Muitos flashs e vedetas na estreia de "Um Hamlet a mais" na passada quinta-feira no Rivoli.
É mais uma leitura da peça eterna. Desta vez pludisciplinar, com vídeos, muita música e muitos efeitos. Há microfones, espadas e até o que me pareceu ser um Theremin. Os actores desdobram-se e transvestem-se. Enche o olho mas não enche o coração. Saí da sala sem qualquer inquietação. Terei mesmo visto Hamlet?
Nome Vulgar: Oliveira
Nome botânico: Olea europaea Distribuição: Todo o país excepto nas zonas alpinas
Características: Árvore de folha persistente, resistente à secura e ao calcário
Fotografia: Abril de 2003, Belgais, antes do concerto
Texto: retirado do livro "A Árvore em portugal", de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles (edição Assírio & Alvim)
Uma colectânea das gravações feitas pela Winter & Winter na Villa Medici (Briosco, Itália). O disco é bom e tem uma capa muito bonita, aliás como todas as capas desta etiqueta.
Bom, o início do sonho da ascensão ao Pico ia cumprir-se, a lua corria nos pinhais (a memória dos pinheiros só em Santa Maria pode, esparsamente, ser recuperada a um continental, pelas outras ilhas fazem sempre figura de ornamento impossível de jardim). Da base da ilha, a montanha erguia-se mansa, poucas nuvens, apenas se congregavam em montão num pequeno ponto cimeiro. A cerca de vinte e cinco quilómetros da Madalena, aí a uns mil e duzentos metros de altitude, a carrinha largar-nos-ia para partirmos a pé e viria buscar-nos no princípio da tarde seguinte. Eu ia tão contente que nem queria ver o que o luar exigia, fugindo a entregar-me, sem o conseguir, às notas habituais nos solavancos de transportes que me enlouqueciam a letra.
…
Todas as noites canto, porque sou pago para isso, mas as canções que ouviste eram pézinhos e sapateiras para os turistas de passagem e para aqueles americanos que se estão a rir lá ao fundo e que daqui a pouco se vão embora aos ziguezagues. As minhas verdadeiras canções são só quatro chama-ritas, pois o meu repertório é escasso, e depois eu estou a ficar velho, e fumo de mais e a minha voz está rouca. Tenho de vestir este balandrau açoreano que se usava em tempos, porque os americanos gostam do pitoresco, depois voltam para o Texas e contam que estiveram numa tasca, numa ilha perdida, onde um velho com uma capa cantava o folclore do seu povo. Querem a viola de arame que dá este som de feira melancólica, e eu canto-lhes modinhas pirosas onde a rima é sempre a mesma, mas tanto faz, eles não percebem e, como vês, bebem gin tónico. Mas tu, o que é que procuras, que todas as noites vens aqui? Tu és curioso e procuras outra coisa, porque é a segunda vez que me convidas a beber, mandas vir vinho «de cheiro» como se fosses dos nossos, és estrangeiro e finges falar como nós, mas bebes pouco e depois ficas calado e esperas que fale eu. Disseste que és escritor e, no fundo, talvez a tua profissão tenha alguma coisa a ver com a minha. Todos os livros são estúpidos, há sempre pouco de verdadeiro neles, e contudo li muitos nos últimos trinta anos, mesmo italianos, naturalmente todos traduzidos, aquele de que mais gostei chamava-se Canaviais no vento, de uma tal Deledda, leste-o? E depois tu és jovem e gostas de mulheres, bem vi como olhavas para aquela mulher muito bonita com o pescoço alto, olhaste para ela toda a noite, não sei se estás com ela, também ela olhava para ti e talvez te pareça estranho, mas tudo isto acordou em mim qualquer coisa, deve ser porque bebi de mais. Sempre escolhi o demais na vida e isto é uma perdição, mas não há nada a fazer quando se nasce assim.
...
Ouvi um barulho e voltei-me. Alguém pousava sacos cheios junto a um papelão. De dentro de um deles reconheci o logotipo da K. “Mas... a K não pode ir para o lixo!” Atravessei a rua e fui remexer. Os sacos estavam cheios de revistas, a maior parte sem interesse. Depois de vários movimentos dignos de uma respigadora, saí vitoriosa com dois exemplares impecáveis da revista.
Vou ficar com o número 5 porque faz parte de um empréstimo a que perdi o rasto. Mas tenho o número 11, de Agosto de 1991, disponível para oferta a quem provar tratá-lo bem e, já agora, acertar na pergunta que vem a seguir.
Esta edição era especial, a K estava quase a fazer um ano e por isso oferecia uma moto BMW K1 a quem preenchesse um cupão e uns binóculos a quem acertasse no difícil, mas não impossível, inquérito formulado por Maria Filomena Mónica e António Barreto. Dentro do "espírito" do dia aqui fica a questão crucial:
1. No princípio, era o vinho Bebia-se mais no Antigo Testamento ou no Novo? Quantas vezes é o vinho citado em cada um?
a) 10
b) 82
c) 155
d) 230
e) 461
Outros assuntos tratados na K #11 Um inquérito feito a mais de cem portugueses: Borregos e Leitões, Ratos e Rochas, Motas e Fragatas, Cruzes e canhotos, minerais e vegetais, arquitectos e jornalistas, políticos e maníacos. A cada um fizemos três perguntas diferentes. Uma banda desenhada: “O Eterno passageiro”, de Luís Félix
As rubricas habituais de Miguel Esteves Cardoso, Agustina Bessa Luís, Manuel Hermínio Monteiro,…
“Retrato do Herói - Paiva Couceiro: de África à Galiza”, de Vasco Pulido Valente
O melhor é responderem na caixa de comentários para a senhora do Governo Civil se certificar que não houve batota.
O prémio inclui os portes e convém que saibam: tenho o número 12 para conferir as respostas.
Há muitos livros sobre álcool. Assim desprevenida lembro-me de “As memórias de um alcóolico”, de Jack London (Antígona), de algumas das histórias de Raymond Carver (Teorema) e deste : “De Moscovo a Petuchki - a lucidez de um alcoólico genial” de Venedikt Erofeev. Está editado em português pela Cotovia e é genial.
É mais ou menos auto-biográfico, narra uma viagem de Moscovo a Petuchki, de comboio, em que Venitchka partilha o álcool com os outros bêbados do comboio e com os anjos (a esfinge e o diabo que o alucinam).
Venitchka fala do estado soviético, da literatura russa e de filosofia e ainda apresenta umas receitas mirabolantes de cocktails, tipo “lágrima da jovem comunista”ou “tripa da cadela”, compostos por partes de vodka, água de colónia e outros ingredientes suspeitos.
Erofeev é uma personagem obscura das letras e dizer que é das letras já é suspeito. O livro foi escrito nos anos setenta e circulou mais ou menos na clandestinidade. Será o álcool capaz de dissolver o poder?
A primeira edição De Moscovo a Petuchki vendeu-se muito rapidamente por ter sido apenas de um exemplar. Desde então fui bastante criticado pelo capítulo “Foice e Martelo - Karatcharovo”, mas injustamente. No prefácio dessa primeira edição, eu prevenia todas as moças de que deveriam passar por cima do capítulo “Foice e Martelo - Karatcharovo” e não o ler, porque depois da frase E comecei imediatamente a beber seguem-se páginas inteiras dos mais refinados palavrões, já que em todo esse capítulo não há uma única palavra normal, à excepção da frase E comecei imediatamente a beber. Com essa informação bem intencionada consegui que todos os leitores, e em particular as moças, se atirassem logo ao capítulo “Foice e Martelo - Karatcharovo” sem lerem os anteriores, nem sequer a frase E comecei imediatamente a beber. Por isso achei necessário nesta segunda edição, retirar do capítulo “Foice e Martelo - Karatcharovo” todos os palavrões. Assim será melhor porque, primeiro, irão ler a obra conforme a ordem estabelecida e, segundo, não haverá ofendidos
Quando o Luís Rei me perguntou se eu conhecia poemas com alto teor alcoólico lembrei-me de Omar Khayyam, o poeta das “Rubaiyat - Odes ao Vinho" (edição da Estampa).
Escolhi alguns poemas para sintonizar com o Robin Laing. Podem ler à vontade, na poesia a tolerância ao álcool é total.
Na Primavera, gosto de me sentar na orla de um campo florido.
E, quando uma bela rapariga me traz uma taça de vinho,
não me impota nada a minha salvação.
Se eu tivesse essa preocupação, valeria menos que um cão.
Ninguém pode compreender o que é misterioso.
Ninguém é capaz de ver o que ocultam as aparências.
As nossas moradas são provisórias, excepto a última: a terra.
Bebe vinho! Basta de palavras supérfluas.
A tua vida não terá sido inútil,
se tiveres enxertado no teu coração a rosa do Amor
ou se tiveres procurado ouvir a voz de Alá
ou ainda se tiveres empunhado a tua taça sorrindo ao prazer.
Dizem-me:«Não bebas mais, Khayyam!»
Eu respondo: Quando bebo, ouço o que me dizem as rosas, as túlipas e os jasmins.
Escuto mesmo aquilo que não pode dizer-me a minha bem-amada.
Retóricos e silenciosos sábios morreram
sem terem podido entender-se sobre o ser e o não ser.
Ignorantes, meus irmãos, continuemos a saborear o sumo dos cachos
e deixemos esses grandes homens regalarem-se de uva-passas.
Senta-te e bebe. Gozarás de uma felicidade que Mahmud nunca conheceu.
Escuta as melodias que exalam os alaúdes dos amantes:
são os verdadeiros salmos de David.
Não mergulhes no passado nem no futuro.
Que o teu pensamento não ultrapasse o momento presente.
Esse é o segredo da paz.
No tempo em que ainda não havia blogs, escreviam-se diários. Hoje, este romance poderia ser dois blogs?
Confissão impudica
1 de Janeiro
Decidi anotar de hoje em diante neste diário coisas que até aqui não ousava confiar-lhe. Eu não queria falar de uma maneira muito clara das minhas relações íntimas com a minha mulher. Com efeito, tinha medo que ela se zangasse se lesse este diário às escondidas, mas a partir deste ano decidi deixar de temer a sua fúria. Tenho a certeza que ela sabe que meto este caderno numa determinada gaveta do meu escritório.
4 de Janeiro …
Seja como for, que importância é que isso tem? Mesmo que isto seja assim, não lerei nunca o seu diário. Não quero transpor os limites que fixei a mim própria, penetrando nos segredos da alma de meu marido. Tal como não gosto de revelar aos outros o que me vai na cabeça não sinto curiosidade em saber o que os outros têm no íntimo de si mesmos. Além disso, se ele quer que eu leia o seu diário, é porque talvez contenha mentiras. Não está, forçosamente, escrito só com coisas agradáveis para mim. Meu marido pode escrever e pensar o que lhe apetecer, eu faço o mesmo. A verdade é que também comecei este ano a redigir um diário. As pessoas como eu, que não contam aos outros os seus assuntos , têm necesidade de os contar a elas próprias. Mas não cometo a imprudência de deixar o meu marido suspeitar que escrevo o meu diário. Escrevo-o aproveitando as suas ausências e escondo-o num lugar de que não faz a menor ideia.
O Citemor começa na próxima sexta-feira. O programa está disponível em www.citemor.com. Podem reservar bilhetes pela internet. Já comprovei, e funciona. Quanto a dormidas, a Residencial Abade João está cheia, o melhor é procurar em Coimbra. Deixo-vos com os títulos:
25, 26 E 27 DE JULHO > 22:30 > Teatro Esther de Carvalho
A FESTA, de Spiro Scimone > um trabalho de Miguel Borges e Américo Silva > Tá Safo > residência de criação > ESTREIA
26 DE JULHO > 24:00 > Teatro Esther de Carvalho
GUERRA, de Harold Pinter > leitura por Jorge Silva Melo
31 DE JULHO E 1 DE AGOSTO > 22:30 > Castelo
CAPRIIICHO!, um espectáculo de Lúcia Sigalho > Companhia de Teatro Sensurround
2 E 3 DE AGOSTO > 22:30 > Teatro Esther de Carvalho
UGLY, concepção e direcção de Carlota Lagido > ESTREIA
7 E 8 DE AGOSTO > 22:30 > Castelo
COMPRÉ UNA PALA EN IKEA PARA CAVAR MI TUMBA, direcção de Rodrigo Garcia > La Carniceria Teatro > ESTREIA NACIONAL
9 DE AGOSTO > 22:30 > Teatro Esther de Carvalho
SUPERMAN, seguido de Dossier HITCH, direcção de Francisco Camacho > residência de criação/apresentação informal
10, 11, 12 E 13 DE AGOSTO > 22:30 > Castelo
VERÃO - programa de cinema ao ar livre Janela Indiscreta, Alfred Hitchcock, 1954
Noites Escaldantes, Laurence Kasdan, 1981
Juventude Inquieta, Francis Ford Coppola, 1983
Verão Escaldante, Spike Lee, 1999
14 DE AGOSTO > 22:30 > Castelo
TONY ALLEN (concerto), ESTREIA NACIONAL
Master classes, Jordi Savall: Musiques pour la paix
Une partie de la culture européenne se trouve chez Jordi Savall. Celle de la musique médiévale avec toutes ses richesses. Espagnol et d’abord Catalan, Jordi Savall est né en 1941 à Barcelone. L’Espagne, et surtout la Catalogne espagnole, a une forte tradition de violoncelliste avec des musiciens tels que Pablo Casals. Jordi Savall termine ses études de violoncelle en 1965 et a eu immédiatement après la possibilité d’acquérir une viole de gambe. Dans le même temps on lui proposa de jouer en concert avec Victoria de Los Angelès à Barcelone: une longue carrière commençait.
En 1966, il se rend à Paris et fait des recherches à la Bibliothèque Nationale où il découvre les livres de Marin Marais, les pièces de Couperin pour Violoncelle, de Forqueray et Caix d’Hervelois. Il joue de manière autodidacte et prend conscience de l’importance et de la richesse du répertoire de la viole de gambe. Il part à Bâle en 1968, car c’est là que se trouve le seul centre de recherche sur la musique ancienne, la Schola Cantorum Basiliensis. En 1974, avec sa femme Montserrat Figueras (soprano), il fonde l’ensemble Hespérion XX, puis en 1989, le Concert des Nations, composé de musiciens internationaux et inspiré des Nations de Couperin.
Apaga-me os olhos: inda posso ver-te,
tranca-me os ouvidos: inda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso inda invocar-te.
Quebra-me os braços, e posso apertar-te
com o coração, e o cérebro baterá,
e se me deitares fogo ao cérebro
hei-de continuar a trazer-te no sangue.
Rainer Maria Rilke,
Poemas, as elegias de Duino e sonetos a Orfeu (tradução Paulo Quintela), Ed. Asa, 2001
Tu és tão grande que eu já nem existo
quando me vou pôr ao pé de ti.
Tu és tão escuro; a minha fraca luz
não tem sentido ao pé da tua fímbria.
O teu querer é como uma onda
em que vai afogar-se cada dia.
Só a minha saudade
chega à altura do teu rosto,
e fica frente a ti como o maior dos anjos,
um anjo estranho, pálido, ainda não liberto,
a estender as asas para ti.
Ele já não quer aquele voo sem margens
pelo qual passavam pálidas as luas,
e dos mundos sabe há muito já bastante.
Com as asas quer ele, como com chamas,
ficar diante da tua face sombria
e quer, à luz clara delas, ver
se os teus cenhos escuros o condenam.
Rainer Maria Rilke,
Poemas, as elegias de Duino e sonetos a Orfeu (tradução Paulo Quintela), Ed. Asa, 2001
Fotografia: um anjo na Marginal (do Porto). 20.07.03, ao fim da tarde.
Não sei porquê mas a verdade é que gosto de becos sem saída e ruas estreitas e incaracterísticas. Quando aproveito a hora do almoço para ir à baixa tomo geralmente a Rua das Oliveirinhas, que me leva mais rapidamente da Fernandes Tomás ao Largo do Padrão. É muito estreita, e só tem uma faixa – diminuta – de passeio mas, como quase não passam carros, atravesso-a pelo meio. Parte dela é feita de traseiras, de muros que resguardam os quintais das casas de Coelho Neto. Nesses logradouros crescem laranjeiras e uma palmeira. Encontro gatos e alguns jornalistas do “Primeiro de Janeiro” que vêm à rua fumar ou atender o telemóvel. As casas são antigas, sem desenho artístico, não são bonitas mas é mesmo disso que gosto. Uma rua que cresce à margem de urbanistas, arquitectos ou autarcas.
Volto da baixa pela mesma rua e páro numa das esquinas a olhar uma casa recentemente pintada de verde pantone 3395C
Não tem todos os livros que eu quero ler e o horário não é muito jeitoso para quem trabalha mas estes são os únicos defeitos que encontro na Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Fora isso, gosto do edifício (desenhado por José Manuel Soares), do tapete de cascalho que rodeia a entrada, da parede feita de troncos e das janelas rasgadas para os jardins do Palácio de Cristal. Gosto das cadeiras, dos sofás e dos candeeiros. Mas o que eu gosto mesmo é de andar por entre as estantes a ver as lombadas, a folhear, a escolher os livros que trago para casa. E têm sido muitos: JD Sallinger , Philip Roth, Seamus Heaney, Paul Celan, Wallace Stevens, Francis Ponge, Jack London… estão lá todos à nossa disposição.
Por brincadeira costumo chamar-lhe a “nossa biblioteca nórdica” porque aqui a burocracia é menor, reina o à vontade e a boa educação e há vestígios de Alvaar Alto. Dá gosto frequentá-la.
Nome popular: pitanga-vermelha; cerejeira-brasileira
Nome científico: Eugenia uniflora L.
Família botânica: Myrtaceae
Origem: Matas dos Estados de Minas Gerais até Rio Grande do Sul.
Pitanga é uma palavra proveniente da língua tupi que quer dizer vermelho-rubro. E ela é, de fato, fruta vermelha, rubra, roxa, às vezes quase preta, gostosa de se comer, refrescante, refrigerante. Como se dizia há muito tempo atrás, "grande calmante do sangue".
O sabor adocicado da polpa da pitanga, levemente ácido e de perfume característico próprio, tem lugar certo no paladar brasileiro. O ato de comer pitangas colhidas diretamente no pé tem, também, espaço garantido na cultura e nos sentimentos mais brasileiros. Sua imagem delicada, sua forma arredondada de gomos sutis e sua vermelhidão exagerada são símbolos da terra.
Originária do Brasil, a pitanga encontra-se por toda parte, país afora, para quem quiser e puder desfrutá-la, espalhando-se desde o Nordeste até o Rio Grande do Sul, ultrapassando fronteiras para chegar até algumas regiões do Uruguai e da Argentina.
Nascendo em pequenas ou grandes árvores, a pitanga, quando cultivada, é fruta típica e própria para quintais e pomares de residências urbanas ou sítios, onde a ornamental pitangueira pode compor bonitas cercas vivas e jardins.
A floração da pitangueira é abundante, branca e perfumada. Na época da frutificação, a árvore se transforma, chamando a atenção mesmo quando vista de longe, pois seus ramos ficam completamente pintados de um vermelho brilhante, atraindo grande quantidade de pássaros, crianças e adultos que se esqueceram de crescer. E todos eles podem se deliciar com o sabor dos frutinhos maduros.
Além de consumi-la fartamente in natura, com o sabor da pitanga o brasileiro criou inúmeras receitas de sucos, refrescos, geléias e doces, além do famoso "licor ou cognac de pitanga" ao qual se atribuem propriedades afrodisíacas. Este último, também conhecido como "cognac tropical" e cuja receita ficou imortalizada no livro "Açúcar" do pernambucano Gilberto Freyre é uma das bebidas regionais mais características do Nordeste brasileiro, juntamente com o caldo de cana, com a cachaça mexida com mel e com os vários sucos e vinhos de frutas nativas.
Estas Pitangas vão direitinhas para Belo Horizonte , ao cuidado de Lucas Baldus, Vicente Gunz, Rubem Focs e Franz Kafka.
Nota: a única pitangueira que encontrei foi no Jardim Colonial à Calçada da Ajuda em Lisboa. Já foi há uns anos atrás mas nunca mais esqueci esta bela e perfumada árvore.
O espaço que se segue é da responsabilidade da Zero em Comportamento.
Classificados: ALUGA-SE
A Zero em Comportamento tem três salas disponíveis para alugar a outras associações culturais ou a quem precise de um espaço de trabalho. As salas têm 25m2, 30m2 e 6m2 (esta é ideal para uma pessoa só). Temos cozinha, WC e espaços para arrumos. Venham ver!
Estamos na Rua Gonçalves Crespo, no cimo da Av. Duque de Loulé, perto do Liceu Camões, da Sociedade Portuguesa de Autores e da Polícia Judiciária.
Para mais informações por favor contactar:
Zero em Comportamento > Rui Pereira 21 315 83 99
geralzero@netcabo.pt
Não é apenas uma exposição de fotografia. É uma mostra da casa de fotografia Pacheco. São restos ainda vivos e a memória impressa por uma casa fotográfica que registou pedaços da História do século XX. “Pacheco, a Memória de um Tempo e de um País” é o título da exposição – produzida pelo Ayuntamiento de Vigo-Cultura – apresentada no Porto com a colaboração do Instituto Cervantes e Fundación Caixa Galicia e com o patrocínio de Ferroser.
Nas paredes do edificio da Cadeia da Relação do Porto, nas instalações do Centro Português de Fotografia, estão as provas visíveis de um estúdio que perseguiu o momento. A Casa Pacheco, criada em Vigo com o esforço do italiano Felipe Prósperi, a pontevedrina Cândida Otero e o português, de Freixo de Espada à Cinta, Jaime de Sousa Guedes Pacheco, fechou definitivamente em 1944. Felizmente, o espólio da casa, adquirido pelo município de Vigo, sobreviveu.
“A maioria das imagens desta exposição situam-se nos trinta primeiros anos do século XX e mostram-nos não apenas a evolução do Porto de Vigo, a paisagem urbana e a vida económica e social ou personalidades da culturas, acontecimentos marcantes como a campanha de Marrocos, a estada de Lindberg, o início da guerra civil e imagens fortissímas da emigração para as Américas”, refre o texto de apresentação da mostra que foi inaugurada no passado sábado. Vá pelos seus olhos.
Centro Português de Fotografia Edifício da Cadeia da Relação do Porto
De 3ª a 6ª, das 15h00 às 18h00; sáb., dom. e feriados, das 15h00 às 19h00.
Entrada gratuita
“Edmond”, de David Mamet está em cena no National Theatre em Londres. Vale a pena ler o texto que o dramaturgo escreveu sobre a peça e sobre o racismo, no Guardian This is a harsh play. I remember when it was first staged in New York. The critics, rather universally, called it misguided and excessive. I didn't mind. I thought it was accurate. I still do. The only way a playwright can challenge racism in America is by facing up to its violent past.
posted by Anónimo on 13:29
Vaidade mundana era como apelidava Sebastian Brandt na Nave dos Loucos, publicada em Bâle em 1494, essa ânsia científica que levava os geógrafos a percorrerem o mundo na tentativa de o medir e descobrir. De nada lhes valeria tamanho desafio à Criação Divina pois o reino dos céus não se alcançava pelo saber mas pela aceitação da pequenez da condição humana.
“Não considero verdadeiramente sábio
Aquele que gasta todo o seu zelo e sentido
A descobrir cidades, países
E parte, de compasso na mão
Para conhece bem a largura da terra,
E a profundidade do mar
(...)Que povos estão nas latitudes,
Se existem, por baixo dos nossos pés,
Também pessoas, ou não existe nada?
Se aí vivem, como se sustentam de pé,
E não caem no ar?
(...) O mestre Plínio acerca disso já dissera
Que é por certo insano
Quem quer abraçar o mundo imenso
(...)Que necessidade tem o homem
de procurar mais alto que ele
sem saber para que isso lhe serve
o que encontrará aí de eminente
quando ignora a hora da sua morte
que corre atrás dele como uma sombra
por mais verdadeira e certa que seja esta ciência
Por isso é um grande louco
quem sonha
que lhe pertencem coisas estrangeiras
que procura conhecê-las directamente
quando o próprio não se conhece
(...) só busca glória mundana
esquecendo o reino eterno”
O mundo mapeado
Século e meio mais tarde, nos recolhidos interiores domésticos de Vermeer, os mapas e globos homenageiam estes sábios que mapearam a terra e lhe encontraram as coordenadas geométricas e matemáticas. A mesma ciência da ordem das proporções matemáticas e geométricas que defende como chave de ouro na sua pintura.
Os “geógrafos” dos nossos dias preferem viajar nas férias e geralmente escolhem uma agência que lhes trate do tour turístico. A net.viagens não é má e permite fazer marcações sem sair de casa, poupando mais canseiras de deslocação que as estritamente necessárias nas vacances.
Duane Hanson satirizou estes viajantes dos tempos modernos em esculturas hiper-realistas. No cinema, Jacques Tati sabotou umas pacatas férias familiares na praia no delicioso Les Vacances de M. Hulot e mostrou-os insanos, massificados e tontos no Playtime. Pela minha parte não consigo deixar de gostar deles. Devolvem-nos o olhar ingénuo que tanto se comove com maravilhas da civilização registadas nas polaróides como é capaz descobrir poesia na vulgaridade que nos rodeia todos os dias.
segunda-feira, julho 21, 2003
Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apaziagua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses
Nome vulgar : Araucária-de-Norfolk
Nome botânico : Araucaria heterophylla Origem: Ilhas Norfolk
Exigências: Solo rico e pobre. Clima marítimo, quente e húmido
Características: Vulgar em portugal a partir de finais do século XVIII
Fotografia: Jardins do Palácio de Cristal (Porto) 19.07.2003, a meio da tarde
Texto: retirado do livro "A Árvore em portugal", de Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles (edição Assírio & Alvim)
Outras Araucárias conhecidas: na Zambujeira do Mar, em Santa Cruz da Graciosa
Ontem, numa volta pela livraria de Serralves, encontrei um livro muito interessante: “Guia de Arquitectura Moderna do Porto 1925-2002”, de Michele Cannatà e Fátima Fernandes, publicado pelas Edições Asa em 2002.
O livro é pequeno e, apesar das suas trezentas páginas, revela-se bastante portátil. Esta característica é importante porque assim é só metê-lo no bolso e sair para a rua à procura do modernismo escondido.
O guia organiza-se por fichas com localização do edifício, fotografia e um pequeno texto. No final há mapas para facilitar as buscas.
a — uma delegação de cidadãos composta de cinco membros descerá de dois táxis palhinha e atravessará o rossio em estado de nudez.
após a prisão grandes manifestações de regozijo podendo haver lapidações em série.
b — o professor catedrático, preferência escritor, é empurrado nu para dentro de um eléctrico. alocução à província. dispersão.
c — choque de um aeróstato monstro com os dois elevadores de santa justa previamente dispostos na passerelle. uma senhora jovem. dispersão.
d — duas delegações de cidadãos no total de dez membros descerão de dois táxis palhinha para atravessar o rossio em estado de nudez. após a prisão abertura de um parque de rebolagem. mais lapidações.
e — às cinco da manhã: ruptura de todas as negociações e preparação automática de novos cortejos.
Hoje à noite recomendamos uma ida à livraria Eterno Retorno para ouvir Richard Jeffcoat falar sobre música clássica.
Os encontros começaram em Maio e irão prolongar-se até ao fim deste mês.
Richard Jeffcoat é pianista, maestro, cantor, professor, escreve sobre música e, garantiram-nos que, ainda por cima, é um entusiasta a falar sobre música. Logo a noite Richard vai tentar pôr o público a cantar uma das paixões de Bach, aproveitem!
Já sabem, o encontro está marcado para as 20h45, no Bairro Alto à Rua de São Boaventura, 42.
A primeira vez que ouvi falar de Brian Friel foi em 2000. Estava anunciada uma “Operação Brian Friel” que se propunha, entre outras actividades, levar à cena duas das suas peças: “Molly Sweeney”(pela companhia Ensemble) e “O fantástico Francis Hardy, curandeiro” (pelo grupo ASSéDIO).
Vi as duas e, como costuma acontecer com os actores – que adoram os seus textos –, também fui seduzida pelas personagens densas e comoventes de Friel. É em torno delas, dos actores e do texto que tudo gira. Como explica Nuno Carinhas (o encenador “frieliano” por excelência): “Mais actores e menos cenário. O palco é o território destas personagens. Mais luz para iluminar as palavras e os ruídos que lhe estão dentro”.
2ª fase: devoção
Agora Brian Friel surge de novo no São João (em co-produção com a Escola de Mulheres) e traz pela mão Anton Tchekov:
“Não sei exactamente porque é que me identifico tanto com os russos do século XIX. Talvez porque as personagens das suas peças se comportam como se as suas antigas certezas continuassem a ser tão importantes como antes – embora, no íntimo dos seus corações, eles saibam que a sua sociedade está em dissolução e que o futuro não se apresenta risonho, nem parece reservar-lhes nenhum espaço. Talvez um pouco como as pessoas da minha geração na Irlanda de hoje. Ou talvez me identifique com esses russos porque eles não têm quaisquer expectativas relativamente ao amor, mas continuam a investir tudo nele. Ou talvez eles me atraiam porque parecem esperar que os seus problemas desapareçam se falarem deles – interminavelmente”.
Em “Uma peça mais tarde” Friel ficciona o encontro de Andrei, o irmão de “Três Irmãs” com Sónia, a sobrinha de “Tio Vania”, num acanhado café moscovita. Ambos vão deixando cair, uma a uma, as “fábulas” com que se resguardavam, até ficarem completamente sozinhos, tristes e fracassados.
“O Jogo de Ialta”, baseado no conto de Tchekov “A senhora do cãozinho”, funciona no sentido inverso. Aqui assistimos a uma conquista amorosa jogada segundo as regras cínicas de Ialta: mentira sobre mentira.
Em ambas as peças as personagens não sabem reconhecer a fronteira entre a realidade e a ficção, enredam-se em mentiras e quimeras e esperam apenas, sabe-se lá o quê, como se fossem sonâmbulas e pudessem acordar de repente para a vida.
A cenografia é reduzida ao mínimo. As luzes, o guarda-roupa e a banda sonora são eficazes na sua concisão. Tudo se reduz para que a alma das personagens surja resplandecente e nestas peças é mesmo a alma russa que encontramos.
A peça está em cena até dia 27 de Julho no Teatro Nacional São João, no Porto e vai estar em Lisboa, no Teatro Municipal Maria Matos, de 26 de Setembro a 26 de Outubro.
Depois da “Operação Brian Friel” em 2000, depois das personagens tchekovianas de “Uma peça mais tarde + O jogo de Ialta”, na sexta-feira, descubro que hoje à tarde (mais precisamente daqui a meia hora) passa “Dançando em Lughnasa” na Casa das Artes.
995. Programa para o Verão de 2003: em vez do deserto bronzeado, a sombra de um muro, a sombra de uma árvore. Voltar a ler Pascal Quignard, voltar a ler Junichiro Tanizaki. Procurar; esperar. Voltar a ler
Esta intenção faz parte de “Alguns Apartes (Im)pessoais” que Mário Santos publicou no Mil | Folhas desta semana e que nos leva à crónica anterior, ao elogio dos dois livros. Não tenho dúvidas, vou seguir o conselho: reler Tanizaki, ler "As sombras errantes".
"Elogio da Sombra" é o título de um pequeno livro que Junichiro Tanizaki publicou em 1933 (há uma versão portuguesa que foi publicada em 1999 pela Relógio D'Água). Diz o escritor japonês: "Tal como uma pedra fosforescente que emite brilho quando colocada na escuridão e ao ser exposta à luz do dia perde todo o fascínio de jóia preciosa, também o belo perde a sua existência se lhe suprimirmos os efeitos da sombra". Leia-se agora isto que Pascal Quignard escreve em "As Sombras Errantes": "Da máxima dos calvinistas, 'Post tenebras lux', conservo apenas as duas primeiras palavras. [...] Na beira dos terraços, com os melros, preservamos algo que não é negrume na treva mas que não é luz no dia". Quignard elogia assim o livro de Tanizaki: "Penso que estas páginas estão entre as mais belas de tudo o que foi escrito nas diferentes sociedades que surgiram no decurso dos tempos". Se não digo a mesma coisa sobre este livro de Quignard, ouso dizer, de um modo sem dúvida intempestivo e umbroso, que as suas páginas estão entre as mais belas de tudo o que foi publicado neste ano em Portugal (e isto, apesar do temerário recurso impressionista ao perigoso adjectivo, é pecar talvez por excesso de prudência).
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