995. Programa para o Verão de 2003: em vez do deserto bronzeado, a sombra de um muro, a sombra de uma árvore. Voltar a ler Pascal Quignard, voltar a ler Junichiro Tanizaki. Procurar; esperar. Voltar a ler
Esta intenção faz parte de “Alguns Apartes (Im)pessoais” que Mário Santos publicou no Mil | Folhas desta semana e que nos leva à crónica anterior, ao elogio dos dois livros. Não tenho dúvidas, vou seguir o conselho: reler Tanizaki, ler "As sombras errantes".
"Elogio da Sombra" é o título de um pequeno livro que Junichiro Tanizaki publicou em 1933 (há uma versão portuguesa que foi publicada em 1999 pela Relógio D'Água). Diz o escritor japonês: "Tal como uma pedra fosforescente que emite brilho quando colocada na escuridão e ao ser exposta à luz do dia perde todo o fascínio de jóia preciosa, também o belo perde a sua existência se lhe suprimirmos os efeitos da sombra". Leia-se agora isto que Pascal Quignard escreve em "As Sombras Errantes": "Da máxima dos calvinistas, 'Post tenebras lux', conservo apenas as duas primeiras palavras. [...] Na beira dos terraços, com os melros, preservamos algo que não é negrume na treva mas que não é luz no dia". Quignard elogia assim o livro de Tanizaki: "Penso que estas páginas estão entre as mais belas de tudo o que foi escrito nas diferentes sociedades que surgiram no decurso dos tempos". Se não digo a mesma coisa sobre este livro de Quignard, ouso dizer, de um modo sem dúvida intempestivo e umbroso, que as suas páginas estão entre as mais belas de tudo o que foi publicado neste ano em Portugal (e isto, apesar do temerário recurso impressionista ao perigoso adjectivo, é pecar talvez por excesso de prudência).
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