A primeira vez que ouvi falar de Brian Friel foi em 2000. Estava anunciada uma “Operação Brian Friel” que se propunha, entre outras actividades, levar à cena duas das suas peças: “Molly Sweeney”(pela companhia Ensemble) e “O fantástico Francis Hardy, curandeiro” (pelo grupo ASSéDIO).
Vi as duas e, como costuma acontecer com os actores – que adoram os seus textos –, também fui seduzida pelas personagens densas e comoventes de Friel. É em torno delas, dos actores e do texto que tudo gira. Como explica Nuno Carinhas (o encenador “frieliano” por excelência): “Mais actores e menos cenário. O palco é o território destas personagens. Mais luz para iluminar as palavras e os ruídos que lhe estão dentro”.
2ª fase: devoção
Agora Brian Friel surge de novo no São João (em co-produção com a Escola de Mulheres) e traz pela mão Anton Tchekov:
“Não sei exactamente porque é que me identifico tanto com os russos do século XIX. Talvez porque as personagens das suas peças se comportam como se as suas antigas certezas continuassem a ser tão importantes como antes – embora, no íntimo dos seus corações, eles saibam que a sua sociedade está em dissolução e que o futuro não se apresenta risonho, nem parece reservar-lhes nenhum espaço. Talvez um pouco como as pessoas da minha geração na Irlanda de hoje. Ou talvez me identifique com esses russos porque eles não têm quaisquer expectativas relativamente ao amor, mas continuam a investir tudo nele. Ou talvez eles me atraiam porque parecem esperar que os seus problemas desapareçam se falarem deles – interminavelmente”.
Em “Uma peça mais tarde” Friel ficciona o encontro de Andrei, o irmão de “Três Irmãs” com Sónia, a sobrinha de “Tio Vania”, num acanhado café moscovita. Ambos vão deixando cair, uma a uma, as “fábulas” com que se resguardavam, até ficarem completamente sozinhos, tristes e fracassados.
“O Jogo de Ialta”, baseado no conto de Tchekov “A senhora do cãozinho”, funciona no sentido inverso. Aqui assistimos a uma conquista amorosa jogada segundo as regras cínicas de Ialta: mentira sobre mentira.
Em ambas as peças as personagens não sabem reconhecer a fronteira entre a realidade e a ficção, enredam-se em mentiras e quimeras e esperam apenas, sabe-se lá o quê, como se fossem sonâmbulas e pudessem acordar de repente para a vida.
A cenografia é reduzida ao mínimo. As luzes, o guarda-roupa e a banda sonora são eficazes na sua concisão. Tudo se reduz para que a alma das personagens surja resplandecente e nestas peças é mesmo a alma russa que encontramos.
A peça está em cena até dia 27 de Julho no Teatro Nacional São João, no Porto e vai estar em Lisboa, no Teatro Municipal Maria Matos, de 26 de Setembro a 26 de Outubro.