Andava à procura do livro de David Sylvester sobre Giacometti quando me surgiu no caminho uma preciosidade mas sobre isso falarei mais tarde. O que eu queria dizer agora é que numa prateleira bem em baixo descobri esta colecção da Quimera Editores. Não tenho a certeza mas desconfio que se trata do primeiro livro sobre Francis Bacon traduzido para português (se excluirmos o catálogo da exposição de Serralves). Numa vista de olhos rápida pareceu-me muito interessante. Formato de bolso mas com boa impressão em papel couché. Infelizmente só havia um exemplar já um bocado estragado, não o trouxe. No entanto vale a pena procurá-lo nas livrarias. Parabéns à Quimera.
Tenho vinte e muitos anos estou a meio da minha vida
e nada sei sobre o Guadalquivir.
Não sei das inundações arruinando searas
dos seus rápidos do infindável tráfego
que vai remando para jusante.
Histórico traiçoeiro rio
(será do Guadalquivir que falo?) muito dele tenho a aprender.
Uma manhã acordei sob estreita mão no meu ombro.
Que me queres? Queria conversar.
Que espécie de vida levas? Faço o que tenho a fazer.
Então fala-me do Guadalquivir.
Olhei apenas para as águas do rio (porque
me sentia tão só assim o cão de Francis Bacon
entre uma esquadria vermelha).
tenho muitos muitos anos e nunca estarei a meio da minha vida.
João Miguel Fernandes Jorge, “Turvos dizeres”, 1973
In my Blakean year
I was so disposed
Toward a mission yet unclear
Advancing pole by pole
Fortune breathed into my ear
Mouthed a simple ode
One road is paved in gold
One road is just a road
In my Blakean year
Such a woeful schism
The pain of our existence
Was not as I envisioned
Boots that trudged from track to track
Worn down to the sole
One road is paved in gold
One road is just a road
Boots that tread from track to track
Worn down to the sole
One road is paved in gold
One road is just a road
In my Blakean year
Temptation but a hiss
Just a shallow spear
Robed in cowardice
Brace yourself for bitter flack
For a life sublime
A labyrinth of riches
Never shall unwind
The threads that bind the pilgrim's sack
Are stitched into the Blakean back
So throw off your stupid cloak
Embrace all that you fear
For joy will conquer all despair
In my Blakean year
The music of the Penguin Café, Simon broadly regarded as "a very big yes to the survival of the heart in a time when the heart is under attack from the forces of coldness, darkness and repression." When forced to describe it more precisely, he called his music "imaginary folklore" and "modern semi-acoustic chamber music." He very much liked the comment of a Japanese girl who attended a Penguin concert in Japan and who said afterwards that the music sounded strange, because it was as if she'd heard it a long time ago. Dissolving the otherwise insuperable barriers of time and space was, and still, is an important function of the magic contained in his music. Simon Jeffes always conceived his Orchestra to be a fluctuating unit rather than a tightly cast group: aside from one other founder member, the cellist Helen Liebmann, there were no regular performers. Dozens of players passed though the Orchestra's ranks in the 24 years of its young life. "It is my context as a composer," he said. "I write for people rather than instruments."
Il fut bientôt (dès mon adolescence) que j’étais né pour vivre parmi les monstres.
Ils furent longtemps terribles, puis ils cessèrent d’être terribles et après une grande virulence, petit à petit s’atténuèrent. Enfin ils devinrent inactifs et je vivais en sérénité parmi eux.
C’étais l’époque où d’autres, encore insoupçonnés, se mettaient à se former et un jour se présenteraient á moi, actifs et terribles (car s’ils devaient venir surgir pour être oisifs et tenus en laisse, qui pense qu’ils viendraient jamais?), mais après avoir noirci tout l’horizon, ils en venaient á s’atténuer et je vivais parmi eux avec égalité d'âme et c’était une belle chose, surtout ayant menacé d’être si détestable, presque mortelle.
Eux qui au premier abord étaient si démesurés, infects, répugnants, prenaient une telle finesse de contour qu’on les eût, malgré leurs formes impossibles, presque introduits dans la nature.
C’est l’âge qui faisait cela. Oui. Et quel était le signe certain de leur stade inoffensif? C’est très simple. Ils n’avaient plus d’yeux. Lavés des organes de la détection, leurs visages quoique monstrueux de forme, leurs têtes, leurs corps maintenant ne gênaient pas plus que celle des cônes, des sphères, des cylindres ou des volumes que la nature offre en ses rochers, ses galets et dans bien d’autres de ses domaines.
belo como o encontro dum guarda-chuva e um cão numa mesa de autópsia
Os surrealistas defenderam apaixonadamente o filme «belo como o encontro dum guarda-chuva e um cão numa mesa de autópsia» na famosa frase de Breton que clamava «este sim, é um filme surrealista». Mas não foram os únicos: dum modo geral, toda a crítica reagiu bastante bem e o público encheu a sala (oito meses ficou o filme em cartaz). Buñuel ganhou 8000 francos, o que à época não era brincadeira.
João Bénard da Costa, Ciclo Luis Buñuel, Cinemateca Portuguesa, 1982
A maldade é uma categoria do raciocínio. Não é uma invenção sobrenatural, nem cresce a partir de substâncias inscritas nos vegetais comestíveis. A maldade é uma categoria do instinto, sim, mas também do raciocínio, da inteligência. Como se fosse uma etapa do percurso que o cérebro matemático faz quando pretende resolver problemas numéricos. Dedução, indução e maldade.
Gonçalo M. Tavares - A máquina de Joseph Walser Caminho, Abril de 2004
Nem tudo é duro no crocodilo. Os pulmões são esponjosos e ele sonha à beira-rio.
posted by Henri on 18:40
monticola solitarius Já não me lembro em que estrada foi, distraí-me com o piano da Nina Simone e perdi o melro azul que esvoaçou mesmo à nossa frente.
a cisterna A cisterna do Castelo de Marvão é enorme, escura e belíssima. Misturou-se às imagens dos meus filmes.
as pedras Nas ruínas romanas de Torre de Palma as ervas e flores chegam aos joelhos. Havia um projecto para construir infra-estruturas de apoio mas a empresa que ganhou o concurso faliu e agora aquilo está quase abandonado. Um caminho mal sinalizado, construções feias e inacabadas; um senhor a remexer a terra, com um rádio portátil e um gato ao lado; e uma menina que faz de guia e vai apontando para as pedras escondidas pela vegetação. É tudo o que resta. Foi do vento nas ervas que mais gostei.
a estrada A estrada mais bonita de toda a viagem acabou sem aviso. Sai de Serpa, em direcção ao Sul e devia chegar ao Pulo do Lobo mas ao fim de onze quilómetros foi tomada pela água e obrigou-nos a regressar. É estreita e quase não tem movimento (no percurso de ida e volta só nos cruzamos com um jipe). Uma ou outra curva e algumas lombas, como é habitual nesta zona do Alentejo. É ladeada por campos, árvores e muitos, muitos pássaros. Cheira bem. Imaginei que seria o paraíso para um ornitólogo. E depois de ver aquele campo de espigas luminosas e macias ondeando acreditei ainda em outras coisas.
o silêncio Nas minas de São Domingos o silêncio parece uma ameaça. As paredes em ruínas, as cores metalizadas, a água contaminada. Só se ouvia um cão ao longe a ladrar. No entanto as cegonhas fazem ninhos e as flores voltam a crescer por ali.
os livros Vemos, ouvimos e lemos: em Serpa encontrei “Os discípulos em Saïs” de Novalis (Fenda, colecção Cão Vagabundo) e umas “Cenas” muito engraçadas de Jacques Prévert (& etc).
Fonte de letras: na Rua das Flores em Montemor-O-Novo não resisti à “Rilkeana” Ana Hatherly (Assírio & Alvim).
L’Arène, 1938. Musée National d’Art Moderne, Centre Georges Pompidou, Paris.
mon impréparation presque totale. Mon manque de savoir-faire, mon incapacité à peindre, préservée jusqu’à cet âge avancé, me permettent de me laisser aller, de laisse aller tout- et sans me forcer- dans le désordre, dans la discordance et le gâchis, le mal et le sens dessus dessous, sans malice, sans retour en arrière, sans reprise, innocemment
posted by Henri on 14:53
O Atiçador...
Para o meu amigo Macguffinho, ele sabe porquê... ";O)
Lembro-me de, após uma palestra particularmente fastidiosa no Clube de Ciências Morais, Wittgenstein ter exclamado: “este género de coisa tem de acabar. Os maus filósofos são como senhorios de pardieiro. A minha função é acabar-lhes com o negócio” Maurice O’Connor Drury
O cerne da crítica de Popper era o seguinte: se Wittgenstein pretende recusar-se a aceitar uma pergunta da forma “pode alguma coisa ser vermelha e verde em toda a sua extensão?”, ele terá então de explicar com que fundamento o faz. Para diferenciarmos as proposições que são aceitáveis daquelas que o não são, precisamos de uma qualquer teoria do sentido. E isto tem de ser um problema, não um enigma.
A pretensão de Wittgenstein de que apenas existem enigmas é em si mesma uma pretensão filosófica, reivindica Popper. Esta pretensão poderá estar correcta, mas Wittgenstein tem de provar o seu ponto de vista, e não reclamá-lo. E, ao esforçar-se por o provar, ele será necessariamente arrastado para um debate em torno de um problema real— o problema da justificação da exacta posição ocupada pela sua fronteira entre o sentido e o não-sentido. Por isso, mesmo que a maior parte da filosofia trate de enigmas e não de problemas, tem de existir pelo menos um problema, ainda que todos os outros aparentes problemas não sejam mais do que enigmas.
Wittgenstein havia previsto esta objecção, mas a sua resposta foi ficar calado. Do mesmo modo que no Tractatus, a relação imagética entre a linguagem e o mundo não podia se exposta numa imagem, também tentar assinalar o limite entre o sentido e o não-sentido equivaleria a transgredir esse mesmo limite. “Acerca daquilo de que não se pode falar, tem de se ficar em silêncio.”
David Edmonds e John Eidinow, O Atiçador de Wittgenstein, Temas e Debates, Lisboa, 2003.
posted by zazie on 14:46
"Como su ritmo no hay dos"
Dizem. Conheço mal, conheço pouco, situação que penso alterar o mais rapidamente possível, mesmo muito rapidamente, porque sei que o que dizem é muito justo. É disto que eu mais gosto na música. De vez em quando, um continente, e eu mudar-me para lá como se nunca tivesse vivido antes. Este cheira a hortelã, rum e charutos.
página 61:
Caminhar. Pernoitar à beira do leito dos rios do Inverno, onde flui o tempo. Acordar com a chuva no rosto. Ouvir ao longe o ladrar dos cães nos pequenos povoados ou, do alto das serras, o comboio a percorrer as terras baixas, no crepúsculo. Olhar os campos de cereais, sentir o cheiro do pão. Beber a água das fontes esparsas. Seguir os trilhos indeléveis da paisagem. Atravessar cidades e os olhares diferentes do nosso. Viver a exaustão de um cansaço extremo, o desalento, o imenso calor, o gelo e o medo. Sentir a solidão. Perder o Norte. Oferecer a dignidade de uma face despojada à força de uma estranha vitalidade avassaladora. Renascer, reinventar a nossa condição humana, sentir uma energia renovada e misteriosa que nos toma os passos.
Quando estava a escrever esta música (para Le Pas Du Chat Noir) olhava muito pela janela para uma árvore que se movia com o vento e isso ajudou-me a encontrar o ritmo, esta espécie de elasticidade para o ritmo e para toda a música.
Je lance l’eau à L’assaut des pigments, qui défont, se contredisent, s’intensifient, ou tournent en leur contraire, bafouant les formes et les lignes esquissées, et cette destruction, moquerie de toute fixité, de tout dessin, est sœur et frère de mon état qui ne voit plus rien tenir debout.
Je ne délibère pas. Jamais de retouches, de correction.
Je ne cherche pas à faire ceci ou cela : je pars au hasard dans la feuille de papier, et ne sais ce qui viendra. Seulement après en avoir faut ces quatre ou cinq à la suite, parfois je m’attends à voir venir par exemple des visages dans l’air. De quel genre ? Aucune idée.
– Veja esta fábrica: estamos perante o espanto sobrenatural. Tudo é tão estupidamente previsível nestas máquinas que se torna surpreendente; é o grande espanto do século, a grande surpresa: conseguimos fazer acontecer exactamente aquilo que queremos que aconteça. Tornámos redundante o futuro, e aqui reside o perigo.
Se a felicidade individual depende destes mecanismos e se torna também previsível, a existência será redundante e desnecessária: não haverá expectativas, luta ou pressentimentos.
Fala-se em máquinas de guerra, mas nenhuma máquina é pacífica, Walser.
Já passava da uma quando fui para a cama nu, religuei a tevê, e a mesma mulher da meia-noite, uma loura com maquilhagem pesada, apresentava uma reprise do jornal anterior. Percebi que era uma reprise porque já tinha reparado na camponesa de rosto largo que encarava a câmera com os olhos saltados, empunhando um repolho do tamanho da sua cabeça. Balançava ao mesmo tempo a cabeça e o repolho para cima e para baixo, e falava sem dar trégua ao repórter. E espetava os dedos no repolho, e chorava, e esganiçava a voz, e tinha o rosto cada vez mais vermelho e inflado, e enterrava os dez dedos no repolho, e agora meus ombros se retesavam não pelo que eu via, mas no afã de captar ao menos uma palavra.
E ainda bem! Descobri na Ampola que Tom Waits prepara novo álbum.
Ver um concerto de Tom Waits é talvez o meu maior sonho melómano. Já não digo numa adega de Pias, combinação estrondosa e arrepiante que a Cristina (que aliás deve andar nesta altura por aquelas bandas) uma vez sugeriu. Qualquer sítio serviria. Na impossibilidade aparente de tal se concretizar, vai-se matando saudades de Alice.
posted by António Rebelo on 20:36
David Mourão-Fereira, porque não?
Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.
The intellect of man is forced to choose
perfection of the life, or of the work,
And if it take the second must refuse
A heavenly mansion, raging in the dark.
When all that story's finished, what's the news?
In luck or out the toil has left its mark:
That old perplexity an empty purse,
Or the day's vanity, the night's remorse.
É um texto já muito conhecido, e muitas vezes citado, mas não será mais uma citação que o vai gastar; e há palavras que nos comovem invariavelmente a partir do momento em que as descobrimos, que nos dão vontade de as isolar do fluxo incessante e confuso dos dias e de as guardar, tê-las à mão, partilhá-las, recordá-las, pensá-las. Todo este texto, mas em particular o extracto seguinte, é feito de palavras assim. ( e prometo não pensar mais no porquê de citar).
Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar ...
posted by António Rebelo on 19:03
Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo
Há tanto tempo…
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas,
Como das pernas ou de um braço ?
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir…
Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
(Uma) outra espécie de fim,
Ou uma grande razão –
Qualquer coisa assim
Como um perdão ?
De sobte se senten uns sorolls, alhora que s'obre
la porta de la sala. Una vella ve a fer-nos saber
que Jim és un gat. Això passa a les onze de la nit,
i a las dotze torna a passar el mateix, aquesta vegada
per sol fet d'agafar un paraigua.
Diuen que es desconeixen els papers que juguen
els camps magnètics en la formació d’ estels
i que tampoc no coneixem prou les característiques
de la pols i el gás interestel.lars dels quals
neix la nova generación d’estels.
Fim da Segunda Grande Guerra foi afinal um milagre do Dr. Sousa Martins!
Acho que vou voltar a ver televisão. As coisas que eu perco. Contaram-me ontem que num interrogatório violentíssimo de cultura geral a que são submetidas as candidatas a Miss Portugal, e que terá passado na Sic, se soube que, afinal, o desembarque das tropas aliadas no Dia-D teve lugar no Desterro (D de Desterro, pois). Sim, no Desterro. E eu sem saber que as fotografias do Capa tinham sido tiradas tão perto! Mas agora compreendo eu porque é que correu tudo tão bem: o Dr. Sousa Martins não dorme em serviço, ainda que aparente toda aquela quietude, e os fluídos milagrosos terão, certamente, banhado os aliados, além, é claro, das águas da agora extinta praia lusitana. Pergunto: para quando uma placa de agradecimento pelo fim da guerra aos pés do santo? Para quando uma retrospectiva do Capa no local, por exemplo e sem ser por acaso, no Göethe Institut?
Mas não é bem assim, pois não? Há muitas coisas que eu tenho pena que tenham acontecido antes do meu nascimento. Tenho pena, por exemplo, de não ter vivido quando Jelly Roll Morton viveu e em redor dos sítios onde ele viveu. Tenho pena que a Florença do Renascimento tenha passado sem eu estar no mundo e de poder, quanto muito, imaginá-la... também não é mau e talvez seja mais seguro, mas não é a mesma coisa. Mas do que eu tenho mesmo pena é de ter perdido o Festival da Canção que Eduardo Nascimento ganhou nos Anos 60. Ouçaaam, ouçaaam! O vento mudou e ela não voltou... Ouçaaam... ! Isto sim parte-me o coração.
posted by camponesa pragmática on 14:27
...
El más memorable de los argumentos dados por Lucrecio es éste: Una persona se queja de que va a morir. Piensa que todo el porvenir le será negado. Como dijo Victor Hugo: «Iré solo en el medio de la fiesta/ nada faltará en el mundo radiante y feliz». En su gran poema, tan pretencioso como el de Donne – De rerum natura o De rerum dedala natura – (De la naturaza intrincada de las cosas) –, Lucrecio usa el siguiente argumento: «Ustedes se duelen porque les va a faltar todo el porvenir; piensen, sin embargo, que anteriormente a ustedes hay un tiempo infinito. Que cuando naciste – le dice al lector – ya había pasado el momento en que Cartago y Troya guerreaban pelo imperio del mundo. Sin embargo, ya no te importa, ¿entonces, cómo puede importarte lo que vendrá? Has perdido el infinito pasado, ¿qué te importa perder el infinito futuro?»
…
Jorge Luis Borges | La inmortalidad
Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.
Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o
Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário.
João Cabral de Melo Neto
(Ademir da Guia foi um dos maiores zagueiros do Brasil. Era também conhecido pelo seu jogo de "slow motion" de inquietar o adversário. Mais logo no jogo do F.C. Porto com o Deportivo da Corunha, espero ver de preferência óbvia os golos vitoriosos do clube do Dragão (em slow motion depois também). Com ou sem Ninja, o fogo do dragão até a final! vou estar a torcer!)
posted by Lídia on 12:59
O Museu de Serralves apresenta (até dia 4 de Julho) dois grandes artistas russos-Ilya Kabakov, artista conceptual (nascido 1933) e Boris Mikhailov, fotógrafo (nascido 1938). Trata-se de uma exposição histórica de uma arte alternativa russa, com uma forte ligação entre imagem e palavra, da década de 1970 e início da década de 1980 em Moscovo e em outras cidades russas de província. Há uma grande exibição de imagens fotográficas com comentários verbais a acompanhar, mas também há revistas, postais, jornais que são outros suportes da exposição Fotografia Verbal. "Eles escrevem ideias, não propriamente sobre a sua vida nem sobre o que sentem. As próprias fotografias sugerem coisas diferentes" explica a comissária da exposição em Serralves, Margarita Tupitsyn.
Numa das salas vê-se e lê-se a Dissertação Inacabada de Boris Mikhailov."Eu posso pintar uma lebre só porque tenho uma história para contar sobre ela". 3 de 106 folhas (com o texto das margens das fotos em inglês a secundar):
Cartier-Bresson: "Photography
is the perfect alignment of the head,
the eye and the heart."
S. Morozov: "The success of a photograph
often depends on technological progress."
For the photographer it is more necessary to
photograph at precisely the right moment,
while for culture this is not required any more.
The moment is unimportant.
A contribution to "knowledge"
is more important than a
contribution to photography.
With the appearance of automatic cameras the
"decisive moment" has become devalued by the
frequent use of film stills in film and television—it is
easily accessible, its duration is prolonged, and now
we want to play something different.
From Vernadski
Yes
The quantity of things not
done per square kilometer
still remains the main
characteristic of Russia
in time
To Kochetov
whose photographs show pioneers
marching in regular intervals.
In the tram.
When nothing hurts.
It is pleasant.
Even in the tram.
When nothing hurts.
To sit.
O Kronos Quartet tocou na passada sexta-feira na Culturgest, em Lisboa. E foi um concerto com tudo o que faz dos Kronos um dos mais interessantes e estimulantes projectos musicais da actualidade.
A noite começou com três temas de Nuevo, o mais recente álbum do agrupamento, dedicado à música mexicana. Seguiu-se o fantasmagórico Camposanto, uma composição de Felipe Perez Santiago cuja estreia mundial teve lugar duas semanas antes deste concerto em Lisboa. Refira-se que a peça nasceu no contexto do projecto Kronos Under 30, criado em 2003 para assinalar o 30º aniversário do quarteto, e que visa estimular a produção de obras originais de compositores com menos de 30 anos. Digam lá se não é uma ideia bonita.
A primeira parte terminou com o Quarteto nº 3 de Alfred Schnittke, cuja música influenciou a escrita da peça que encerraria o concerto, o Triple Quartet de Steve Reich (mais uma prova de que isto anda tudo ligado). Antes houve tempo para viajar até à India (Rahul Dev Burman), a África (Gétatchèw Mèkurya) e à Islândia (através de Flugufrelsarinn, dos Sigur Rós).
E veio o apoteótico final. Lê-se no site dos Kronos que Steve Reich terá de facto descoberto a música de A. Schnittke durante a composição do Triple Quartet, o que parcialmente explica o carácter "dissonante e expressionista" desta peça. O "triplo" a que se refere o título alude ao facto de a peça ser efectivamente composta por três quartetos, dois dos quais são pré-gravados, sendo o quarteto restante tocado ao vivo sobre esta gravação. O efeito é empolgante, a música é hipnótica e obsessiva, e a sucessão dos seus três movimentos (rápido-lento-rápido) produziu, no magnífico cenário do Grande Auditório, um final de concerto arrebatador.
Seguiram-se dois encores: no primeiro, Verdes Anos, de Carlos Paredes; a encerrar, a versão alucinada do Star Spangled Banner de Jimi Hendrix, e que os Kronos já haviam usado para encerrar a sua actuação no Festival Músicas do Mundo de Sines no ano passado (e quantos agrupamentos conseguem mover-se com esta facilidade entre um Festival de Verão e uma sala de concertos?)
Em suma: um repertório de uma vastidão avassaladora, geografica e musicalmente, ausência de concessões ou facilitismos (grande parte da música que se ouviu tinha um cariz fortemente dissonante e experimental), um cenário lindíssimo, um público rendido no final. Grande concerto!
Sharon Isbin, uma das grandes guitarristas da actualidade, toca em Lisboa nos próximos dias 6 e 7 de Maio, na Fundação Calouste Gulbenkian. Juntamente com a Orquestra Gulbenkian, Isbin interpretará dois dos mais famosos concertos para guitarra: o Concerto de Aranjuez , de Joaquin Rodrigo, e o Concerto em Ré Maior para guitarra e orquestra de cordas de Antonio Vivaldi.
Para além destas duas peças, o programa da noite inclui ainda a Sinfonia nº 8 "Incompleta" de F. Schubert, a Abertura da ópera Guilherme Tell de G. Rossini e o Don Juan de R. Strauss. Parece-me muito bem. Para além de tudo o resto, a perspectiva de ver finalmente o Concerto de Aranjuez tocado ao vivo é mais do que suficiente para justificar a ida.
De referir ainda que, como é dito no site da Fundação Gulbenkian, Sharon Isbin colaborou já com a Orquestra desta instituição, na gravação dos concertos para guitarra de Tan Dun e Christopher Rouse. Esta edição conquistou um Grammy (para Rouse, na categoria Best Classical Contemporary Composition) e um prémio Echo Klassic, para a própria Sharon Isbin, na categoria Best Concert Recording.
Christopher Rouse - Concert de Gaudi para guitarra e orquestra
Dun Tan - Concerto para guitarra e orquestra
Sharon Isbin e Orquestra Gulbenkian, dirigida por Muhai Tang
Não há provavelmente melhor maneira de sensibilizar alguém para a importância da preservação dos rios do que fazer canoagem. Quem experimentou já a incrível sensação de liberdade, o calor tórrido, a frescura da água, o silêncio feito de sussurros líquidos, o prazer do movimento físico, o delicioso cansaço no final e, last but not least, beber uma imperial a seguir (um dos grandes prazeres da vida), quem já tenha experimentado tudo isto dificilmente deixará de se indignar com a maneira como por vezes os rios são tratados.
Dias 22 e 23 de Maio, em Mogadouro, decorrerá uma actividade de canoagem no Rio Sabor. Esta actividade destina-se a chamar a atenção para as consequências da possível construção de uma barragem no Sabor, o último grande rio sem barragens em Portugal. Para além de almoços e jantares, sempre louváveis, o programa inclui passeios guiados pelo vale e descidas em canoa/kayak no rio. Bute lá?
Camille : - Tu vois mes pieds dans la glace ?
Paul : - Oui.
Camille : - Tu les trouves jolis ?
Paul : - Oui, très.
Camille : - Et me chevilles, tu les aimes ?
Paul : - Oui.
Camille : - Tu les aimes mes genoux, aussi ?
Paul : - Oui, j'aime beaucoup tes genoux.
Camille : - Et mes cuisses ?
Paul : - Aussi.
Camille : - Tu vois mon derrière dans la glace ?
Paul : - Oui.
Camille : - Tu les trouves jolies mes fesses ?
Paul : - Oui... très.
Camille : - Et mes seins, tu les aimes ?
Paul : - Oui, énormément.
Camille : Qu'est-ce que tu préfères : mes seins, ou la pointe de mes seins ?
Paul : - J'sais pas. C'est pareil.
Camille : - Et mes épaules, tu les aimes ?
Paul : - Oui.
Camille : - Moi j'trouve qu'elles sont pas assez rondes... Et mes bras ?
Paul : - Oui.
Camille : - Et mon visage ?
Paul : - Aussi.
Camille : - Tout ? Ma bouche, mes yeux, mon nez, mes oreilles ?
Paul : - Oui, tout.
Camille : - Donc tu m'aimes totalement !
Paul : - Oui. Je t'aime totalement, tendrement, tragiquement.
Camille : - Moi aussi, Paul.
Le cinéma substitue à notre regard un monde qui s'accorde à nos désirs.
There were kings here...
When I hear the word "culture", I bring out my cheque
Montez dans votre Alpha, Roméo !
"O meine Brüder wenn ihr nach hundert tausend
Gefahren die Grenzen des Occidentes habt erreicht...
Zögert nicht den Weg der Sonne folgend
Die unbewohnten Welten zu ergründen."
O mes frères, qui à travers cent mille dangers
Etes venus aux confins de l'Occident,
Ne vous refusez pas à faire connaissance
En suivant le soleil du monde inhabité."
"Déjà la nuit contemplait les étoiles
Et notre joie se métamorphose en pleurs"
"Furchtlos bleibt, aber, so muss der Mann,
Einsam vor Gott es Schütze die Einfalt ihn,
Und Keiner Waffen braucht's und Keiner
Listen, so lange, bis Gottes Fehlt hilft"
Mais l'homme, quand il le faut, peut demeurer sans peur devant Dieu. Sa candeur le protège et il n'a besoin ni d'armes ni de ruses, jusqu'à l'heure où l'absence de Dieu vient à son aide."
"So lange der Gott nicht da ist"
"Tant que Dieu n'est pas là"
"So lange der Gott nahe ist"
"Tant que Dieu nous demeure proche"
Ce n'est plus la présence de Dieu, mais l'absence de Dieu, qui rassure l'homme.
"Hollywood, un extrait d'une ballade du pauvre B.B.",
J'avais souvent pensé depuis quelque temps que Camille pouvait me quitter, j'y pensais comme à une catastrophe possible ; maintenant j'étais en pleine catastrophe.
"Autrefois tout s'accomplissait avec une inadvertance rapide, folle, enchantée, et je me retrouvais dans les bras de Paul sans presque me souvenir de ce qui s'était passé."
Je te mépris !
Et maintenant, cette inadvertance était totalement absente de la conduite de Camille et par conséquent de la mienne. Pourrais-je même sous l'empire de l'excitation des sens, observer ses gestes d'un regard froid comme elle, sans doute, pourrait à son tour regarder les miens ?...
No map traces the street
Where those two sleepers are.
We have lost track of it.
They lie as if under water
In a blue, unchanging light,
The French window ajar
Curtained with yellow lace.
Through the narrow crack
Odors of wet earth rise.
The snail leaves a silver track;
Dark thickets hedge the house.
We take a backward look.
Among petals pale as death
And leaves steadfast in shape
They sleep on, mouth to mouth.
A white mist is going up.
The small green nostrils breathe,
And they turn in their sleep.
Ousted from that warm bed
We are a dream they dream.
Their eyelids keep up the shade.
No harm can come to them.
We cast our skins and slide
Into another time.
Carl De Keyzer, Bruce Gilden, Jim Goldberg, Nikos Economopoulos, Josef Koudelka, Constantine Manos, Miguel Rio Branco, Lise Sarfati, Alex Webb, Patrick Zachmann, Richard Kalvar e Mark Power.
MAGNUM IN MAY is a photographic and cultural event taking place throughout New York City in May 2004. Twenty-one museums, galleries and cultural institutions will be participating, mounting exhibitions of work by Magnum photographers.
Coinciding with the fiftieth anniversaries of the deaths of Magnum founder Robert Capa and early member Werner Bischof, the event serves not only to honor these great photographers’ work and that of other well-known Magnum members, but also to look forward at today’s creative talent, and to examine the evolution and breadth of the Magnum tradition.
De Karajan é costume a minha memória saltar quase imediatamente para outro maestro, o meu: Sir Georg Solti. Até aos dez anos eu ouvia música num gira-discos que pertenceu ao meu pai na adolescência e, além dos discos da minha colecção infantil, era-me permitido manusear apenas singles descartáveis cujo estrago seria indiferente. Quando fiz dez anos, os meus pais acharam que eu já era suficientemente responsável para poder passar a usar a aparelhagem deles e ouvir, sozinha, os discos deles. Começaram as descobertas. Um dia, aconteceu-me Beethoven, a 5ª Sinfonia. O mundo cresceu nesses minutos, tornou-se assombroso. Percebi que se podia viver e morrer na música, várias vezes, nenhuma delas definitiva. Sir Georg Solti dirigia a Orquestra Sinfónica de Chicago.
Este disco é tão grande, tão maior que tudo. Fico com pena dos meus entusiasmos, de não os refrear, de gastar as palavras - sublime, por exemplo, uso-a com coisas que não merecem, só porque me entusiasmo - com coisas que passam mais ou menos depressa, coisas não essenciais.
Ouço-o menos do que devia. Devia ouvi-lo pelo menos todas as semanas durante um dia inteiro. Como hoje. Para saber exactamente o que é que importa.
posted by camponesa pragmática on 18:58
sob escuta
Momus
"I Was A Maoist Intellectual"
I was a Maoist intellectual in the music industry
I always knew that I could seize the world's imagination
And show the possibilities for transformation
I saw a nation in decay, but also a solution: Permanent cultural revolution
Whenever I played my protest songs the press applauded me
Rolled out the red carpet, parted the Red Sea
But the petit bourgeois philistines stayed away
They preferred their artists to have nothing to say
How did I pass my time on earth? Now it can be revealed:
I was a Maoist intellectual in the entertainment field
I showed the people how they lived and told them it was bad
Showed them the insanity inside the bureaucrat
And the archetypes and stereotypes that were my stock in trade
Toppled all the ivory towers that privilege had made
Though I tried to change your mind I never tried your patience
All I tried to do was to point out your exploitation
But the powers that be took this to be a personal insult
And refused to help me build my personality cult
How did I pass my time an earth, what on earth got into me?
I was a Maoist intellectual in the music industry
I left the normal world behind and started living in
A hinterland between dissolution and self discipline
I burned the midnight oil to build my way of seeing
A miner at the coal face of meaning
The rich despised the songs I wrote which told the poor their worth
Told the shy to speak and told the meek to take the earth
But my downfall came from being three things the working classes hated:
Agitated, organised and over-educated
How did I pass my time on earth, how did I bear witness?
As a Maoist intellectual in the entertainment business
And how was I treated in this world and in this industry?
As a Maoist intellectual in a business would be
I became a hotel doorman, I stood there on the doormat
Clutching my forgotten discs in their forgotten format
Trying to hand them out to all the stars who sauntered in
The ones who hadn't been like me, who hadn't lived in vain
I gave up ideology the day I lost my looks
I never found a publisher for my little red books
When I died the energy released by my frustration
Was nearly enough for re-incarnation
But if I could live my life again the last thing that I'd be
Is a Maoist intellectual in the music industry
No, if I could live my life again I think I'd like to be
The man whose job is to stop the men who think like me
Yeah! If l could live my life again that'd be the thing to be
The man who plots the stumbling blocks
In the lives of the likes of me!