"Then they'll pile up the bodies/And I'll say,/'That'll learn ya!'"*
Era suposto falar sobre o "India Song" mas não posso (recomendamos aos interessados este excelente desvio). À tarde fui a Dogville e esta pequena e odiosa terra não me sai da cabeça. Deixou um lastro que impede qualquer outro post, qualquer outro filme.
Ainda tenho a voz John Hurt nos ouvidos e nos olhos a cena mais bela: Grace deitada na camioneta, no meio das caixas de maçãs, por baixo do pano de lona. Se isto não é poesia?
Foi um suicídio longamente premeditado, pensei, e não um acto espontâneo de desespero.
O Glenn Gould, o nosso amigo e o mais importante virtuoso do piano do século, também só fez 51 anos, pensava eu ao entrar na estalagem. Só que esse não se matou como o Wertheimer mas morreu, como se costuma dizer, de morte natural. Quatro meses e meio em Nova Iorque e sempre, sempre as Variações de Goldberg e A Arte da Fuga, quatro meses e meio de «Klavierexerzitien» como o Glenn Gould dizia repetidamente e sempre só em alemão, pensava eu.
…
Traduzido (a partir do alemão) por Leopoldina Almeida, editado pela Relógio d’Água (sim, a editora que gosta de blogs) e emprestado pela Lídia... Do you want a schnapps, Lídia?
Para a Deda, que nos levou a Chaumont, até André Kertész e ao íntimo prazer de ler:
Os Prazeres da Leitura
No seu leito de moribundo o meu pai lê
As memórias de Casanova.
Eu vejo a noite cair,
Algumas janelas que se iluminam na rua.
Numa delas uma jovem lê
Junto ao vidro.
Há muito tempo que não ergue os olhos,
Mesmo com a escuridão a chegar.
Enquanto ainda há um resto de luz,
Desejo que ela levante a cabeça,
E eu consiga ver-lhe a cara
Que já consigo imaginar,
Mas o livro deve ser intrigante.
Além disso, que silêncio,
Cada vez que volta uma página,
Consigo ouvir o meu pai, que também volta uma,
Como se eles lessem o mesmo livro.
Deleuze por Paul Klee. (é pena o texto "estragar" a fotografia. a real não está assim, como é óbvio.)
posted by Lídia on 18:25
Ondas curtas
1. Este fim de semana há sessão extra de Requiem for a Dreamno Cine-Estúdio 222 em Lisboa. Ontem cheirava a sol mas hoje avolumam-se os sinais de mau tempo, e essa recente e fatídica regularidade estatística que é a chuva ao fim de semana irá, tudo indica, observar-se mais uma vez, no que aparenta ser uma conspiração global contra a felicidade dos trabalhadores.
2. Se não perceberam o que tem o Requiem for a Dream a ver com o estado do tempo, eu também não vos sei responder: o parágrafo escapou-me e ficou assim, e lá terá as suas razões.
3. Porque é que eu sabia que quando voltasse do almoço a Cristina já teria falado do India Song? :)
4. Hoje também é dia de comprar o Tintin com o PÚBLICO. Já tinha saudades destes pequenos hábitos. No álbum da passada sexta-feira o Capitão Haddock esteve hilariante. Mas que grande e sequiosa personagem!
Estou a citar, com abundância, o "Livro Sexto" (1962), o livro que lhe deu o primeiro prémio (Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores). E eu estive nesse almoço (1964) em que ela disse que "a poesia é uma moral" e falou da "maçã enorme e vermelha", "a coisa mais antiga de que me lembro".
O "Livro Sexto" como "Os Contos Exemplares" (1962) são os livros da nudez mais frontal e da insegurança mais forte. Muitos anos mais tarde, uma amiga dela, com posições contrárias, contou-me como se zangou quando leu o último livro. E disse-lhe que não percebia como ela atacava assim pessoas e um meio que "tu conheces por dentro". Resposta de Sophia: "Esqueces-te que essas pessoas não têm dentro. Só têm fora."
Eu só citei um bocadinho o que escreveu João Bénard de Costa sobre o dia de anos de Sophia. Não escapar à memória de Bénard sobre Sophia. ir por aqui
O Regresso de India Song "Todo o cinema de Duras opera uma ruptura com a representação quotidiana e institui um território irrepreensível de puro desejo. Ninguém caminha para chegar a um lugar porque todos os lugares são os lugares do amor - amor do outro, amor da vida, amor da beleza do mundo. O que o vice-cônsul irá proclamar com a inconveniência dos seu berros desesperados é que a paixão ultrapassa todos os códigos das histórias e aceita a degradação como forma de se intensificar até ao absoluto: "As histórias de amor é com outros que as vive, nós não precisamos disso."
1. O João Lopes regressou à antena 1. Pela manhã ouvi-o falar sobre “India Song”, que estreia hoje em Lisboa. A obra mítica de Marguerite Duras é uma preciosidade, “um objecto fora de tudo, de todas as regras”, diz ele.
Entre objecto bizarro (extravagante, provocador e por aí fora) ou obra-prima, João Lopes escolhe obra-prima. Nós também e vamos provar. Marguerite Duras é a nossa convidada para o fim-de-semana. Aceitamos colaborações.
3. Pour ce qui est d'India Song, la musique de Carlos d'Alessio est encore avec moi, elle m'entoure, m'habite comme à la première minute où j'ai entendu la musique de cet homme, musique du désir qui est l'essence même du film. Je m'en fiche que Sollers trouve ça imbuvable et puis tant mieux en fait qu'il n'aime pas ça, puisqu'India Song n'est pas un film pour être regardé ni aimé, c'est l'envers du cinéma, India Song, c'est tout, sauf du cinéma. Marguerite Duras
Francisco, não podes pôr a india song no ar? Amanhã, como se fosse na rádio?
1.
A sala estava cheia, como já é hábito às quartas-feiras. Distraí-me e não ouvi tudo o que o arquitecto Luís Tavares Pereira disse mas creio que ele não chegou a explicar muito bem porque é que tinha escolhido aqueles dois filmes, o que é que o “one + one” tem a ver com o Peter Eisenman? Hei-de lá chegar…
2.
Seguiu-se o documentário. Apesar de não gostar muito dos edifícios do Eisenman fiquei fascinada com este arquitecto bem humorado e irónico. Logo ao princípio ele pergunta se a função simbólica da arquitectura já passou, se há meios que veiculam melhor a informação, então, o que resta à arquitectura? “Não sei”, disse ele, “não sei, respondam vocês”.
3.
Depois do intervalo, ouvem-se os primeiros acordes de “Sympathy for the devil”. O filme é desconcertante. Por um lado os Rolling Stones a construirem a música, aproximando-se de ritmos cada vez mais corporais, as percusões cada vez melhores, o diabo à solta? Talvez. Do outro, a rua ou melhor, a revolução na rua, ou melhor ainda, a impossibilidade da revolução. Pelo meio, Godard diz-nos que um mais um faz dois e vai adicionando: freudemocracy, cinemarx, sovietcong. A jovem bucólica entrevistada na floresta responde apenas sim ou não, porque o jornalista já diz tudo (a minha cena preferida, tão godardiana). Uma rapariga pinta palavras com um spray onde pode e não deve. O que é que nos resta? O futuro da arte? Da cultura? Uma destrói a outra? A supremacia do poder e da violência?
São muitas perguntas e a sala não está para isto, vai-se esvaziando. Perdem a melhor versão de “sympathy” e a cena na praia com a inocente massacrada a ser içada por uma grua de cinema entre duas bandeiras (uma vermelha e outra preta) e a câmara. Cinema de guerrilha, claro. Ao modo de Godard, sem luz ao fundo da revolução.
Francis Bacon: Because I think it's one of the greatest portraits that has ever been made, and because I became obsessed by it. I buy book after book with this illustration in it of the Velazquez's Pope, because it just haunts me, and it opens up all sorts of feelings and areas of - I was going to say - imagination, even, in me.
Francis Bacon - Study after Velazquez's Portrait of Pope Innocent X (1953) | Velazquez - Pope Innocent X (1650)
"Any poem, novel, play, painting, musical composition worth meeting says to us: "change your life." The voice of intelligible form, of the needs of direct address from which such forms springs, asks:
"What do you feel, what do you think of the possibilities of life, of the alternative shapes of being which are implicit in your experience of me, in our encounter?"
The indiscretion of serious art and literature and music is total.
It queries the last privacies of our existence."
George Steiner - Real Presences (sublinhados meus)
"Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida"
A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra», é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.
Nos meus vinte anos,
almoçar em casa de Sofia
era ouvir ferver em cachão,frigir
na cozinha,arfar a cafeteira da poesia.
Era ver a ama de Sofia,
e de todos os filhos,de muitos versos,
cuidar de muitas gerações de memórias,
no lar desses versos tão caseiros.
E era beber,ali,na mesa,uma água
que ,mais do que a da torneira,
concitou o mar para cada copo.
Era olhar um rosto de coral
(o que exorciza as Fúrias,na cozinha)
um rosto de mar novo,de geografia.
Era escutar as palavras da boca
do vocábulo grego para sabedoria,
o que me confirma o poder dos nomes,
ao serem Verbo,sobre os seres e as coisas.
Era sentar-me,lado a lado,
no espaço irradiante da volúvel lareira,
no Outono apagada,na Primavera acesa,
e com o fogaréu alimentado
por papéis venais de outra política
(que não a da sua humanidade),
que a prudência mandava destruir no fogo.
Era entrar e sair pela porta das Mónicas,
a das mulheres congregadas
sob invocação da mãe de Agostinho,
o que para mim celebrava também
o amor de mãe,da velha ama,da Poesia.
A minha vida tinha tomado a forma da pequena praça
Naquele outono em que a tua morte se organizava meticulosamente
Eu agarrava-me à praça porque tu amavas
A humanidade humilde e nostálgica dos pequenas lojas
Onde os caixeiros dobram e desdobram fitos e fazendas
Eu procurava tornar-me tu porque tu ias morrer
E a vida toda deixava ali de ser a minha
Eu procurava sorrir como tu sorrias
Ao vendedor de jornais ao vendedor de tabaco
E à mulher sem pernas que vendia violetas
Eu pedia à mulher sem pernas que rezasse por ti
Eu acendia velas em todos os altares
Das igrejas que ficam no canto desta praça
Pois mal abri os olhos e vi foi para ler
A vocação do eterno escrita no teu rosto
Eu convocava as ruas os lugares as gentes
Que foram as testemunhas do teu rosto
Para que eles te chamassem para que eles desfizessem
O tecido que a morte entrelaçava em ti
Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.
E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.
Rafael Alberti pintava, desenhava, escrevia poemas e desenhava para esses poemas. Com o tempo, o alfabeto de Alberti mudou, as letras cresceram, nutriram-se de cores, e poemas e desenhos passaram a habitar uma única realidade indissolúvel.
Foi sempre um homem bonito, mesmo quando envelheceu, e nele a Língua tinha o timbre das guitarras. O que me arrepia sempre em alguma poesia castelhana e muito nesta é o som que certas palavras fazem ao cair. Caem quando as lemos, como se as lançássemos, cada vez que as lemos, sempre que as lemos. Oídos. Ojos. Sangre. Hombres. Ecoam e esse eco é o mundo do poema.
Cantad alto. Oireis que oyen otros oidos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabreis que palpita otra sangre.
No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo.
encerrado. su canto asciende a más profundo
cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres.
Se clicarem nas imagens podem vê-las num formato maior e descobrir, por exemplo,
que monsieur Hulot está em Coimbra...
Sex. 07 Nov. Lançamento do Livro 18h30
Ao vivo_Rhyme’n’blues Paulo Furtado e António Olaio
Sex. 07 a Dom. 16 Nov Exposição_Pavilhão Centro de Portugal_Coimbra_Todos os dias 11h00_20h00
RAASG-ANÇ-O
SMS:SOS é um conjunto cheio de “contra-imagens”, para utilizar abusivamente a expressão de Eduardo Lourenço.
Temos agora o sabor do nylon rasgado nas nossas bocas, mas para cada um de nós a vida recomeçou.
Concepção e coordenação: Jorge Figueira Colaboração editorial: Patrícia Ferreira Contribuições: Pedro Ganho_Paulo Varela Gomes_Paulo Freire de Almeida_Alberto Martins_António Olaio_Victor Diniz_Catarina Fortuna_Patrícia Almeida_Carlos Antunes_Désirée Pedro_Paulo Furtado_Pedro Dias da Silva_Luis Urbano Arquitectura da Exposição: Atelier do Corvo Grafismo: Ana Menezes e Né Santelmo
Exposição de Fernanda Fragateiro a partir do universo literário de Sophia de Mello Breyner Andresen | 2003-11-07 a 2004-02-01 | Todos os dias das 10h00 às 19h00. Última Entrada às 18h15 | Grande Hall do Centro de Exposições do CCB.
Sob as criptas do Santo Ofício de Saragoça, ao cair de uma noite antiga, o venerando Pedro Arbuez de Espila - sexto prior dos dominicanos de Segóvia, terceiro Grande Inquisidor de Espanha -, seguido de um frade redentor (mestre torturador) e precedido de dois familiares da Inquisição, os quais seguravam duas candeias, descia para um calabouço perdido. Rangeu a fechadura de uma porta maciça; penetraram num mefítico in pace, no qual a janela tapada lá em cima deixava entrever, entre os anéis chumbados à parede, um cavalete negro de sangue, um fogareiro, uma bilha. Sobre uma cama de estrume, tolhido por umas manilhas, de canga de ferro ao pescoço, sentava-se, esgazeado, um homem andrajoso, de idade que se tornara indistinta.
…
posted by cristina on 13:49
Sim, confesso, tenho simpatia pelo diabo. Como não ter? Um anjo que caiu em desgraça, um pé em falso, uma pergunta indevida, uma insurreição. Tão pouco e tudo se transforma: caem as asas, cresce uma cauda, muda-se o olhar. Claro que sim, simpatia.
simpatias.f. outrora, afinidade que se supunha existir entre certos corpos; facto de participar nos estados afectivos dos outros, nos seus desgostos ou alegrias; compaixão; acordo ou fusão dos sentimentos; comunhão; atracção natural de uma pessoa por outra, ou por alguma coisa; inclinação; começo do amor (Do gr. sympátheia, «id.», pelo lat. sympathïa-, «id.»)
E o Godard? O que é que ele faz aqui? Não sei mas logo vou descobrir. Em 1968 os Rolling Stones ensaiavam “Sympathy for the devil” num estúdio enquanto a câmara do Godard saía à rua. A música é uma arma? E o cinema? Pode ser político? E o diabo? É um tipo simpático? Do anjo que foi, já nada resta? Um mais um, quanto dá?
> Making Architecture Moving (1998), documentário sobre Peter Eisenman > One + One, de Jean-Luc Godard > apresentados pelo arquitecto Luís Tavares Pereira > em Serralves, às 21h30
Continuamos sem caixas de comentários. Primeiro pensei (com um espírito um bocado cínico, reconheço), será mais ou menos como uma esplanada à beira do mar, sem música?
Depois percebi. É triste como se nessa esplanada não se ouvisse o mar. Sento-me aqui e tenho saudades do regresso das ondas.
A Montanha Mágica tem um novo colaborador que escreve em itálico. Inclinado para coisas tão belas como esta:
Uma Canção Malgaxe
A terra é um palácio que olha para cima
o céu é um palácio que olha para baixo
– Passarei por cima de todas as águas,
em busca da mulher sete vezes tão bela.
E se o rei se diverte com as suas terras todas,
eu divirto-me feliz com as filhas dos homens.
Verso modificado para Português por Herberto Helder
Uma mãe está em casa doente ao lado do filho. Diz que quer ir passear. O filho leva-a a passear nos braços. Voltam a casa. O filho vai ele próprio dar uma volta. Quando regressa a casa descobre que a mãe está morta.
Uma mãe está em casa doente ao lado do filho. O filho diz que teve um sonho, que a mãe já conhecia. Penteia-a, vai buscar água, pergunta à mãe se quer comer antes de ir passear. A mãe diz que queria ir já passear e ver o sol. O filho leva-a a passear nos braços. Interrompe o passeio para ir buscar um velho álbum de fotografias, deixando a mãe deitada num banco. Retomam o passeio. Voltam a casa. O filho vai ele próprio dar uma volta. Quando regressa a casa descobre que a mãe está morta.
posted by António Rebelo on 02:18
Mãe e Filho III
Uma mãe está em casa doente ao lado do filho. O filho diz que teve um sonho, que a mãe já conhecia. Quer dizer que têm os mesmos sonhos. Penteia-a, vai buscar água, pergunta à mãe se quer comer antes de ir passear. A mãe diz que quer ir já passear e ver o sol. O filho leva-a a passear nos braços. Interrompe o passeio para ir buscar um velho álbum de fotografias. Regressa, a mãe continua deitada no banco. O filho coloca-lhe cuidadosamente um braço debaixo da cabeça, deixando a mão livre para folhear o álbum. Nesse álbum há um postal, um texto, que descreve um lugar, e remata com qualquer coisa como: "Se estivesses aqui dançaria contigo. Alexander". "Quem é este Alexander?" pergunta o filho. Há um outro postal que nos revela ter sido a mãe professora. A Mãe sente-se mal. Retomam o passeio. O filho carrega a mãe ao colo, por vezes pára para descansar e retoma a marcha. Numa das paragens o filho recorda como pensava, quando criança, que a mãe vivia na escola, só indo a casa de vez em quando. Noutra paragem, o filho pergunta à mãe como é viver aqui. Ainda noutra paragem, o mau tempo ameaça desabar sobre eles. Voltam a casa. Aí têm um diálogo sobre razões para viver e razões para morrer. O filho diz que nada obriga a mãe a morrer "vive e goza a vida", e diz que "sim, sou muito racional, senão já teria enlouquecido". A mãe diz que tem pena, uma pena de partir o coração, porque o filho terá que passar o mesmo que ela. O filho vai ele próprio dar uma volta, deixando a mãe na cama com uma borboleta nas mãos. Nesse passeio que empreende, há um momento em que, ao fundo, passa um comboio. O filho vê-o atravessar todo o horizonte, vira-se para ele, dá uns passos quando o comboio já desapareceu, abre os braços e baixa a cabeça. Mais tarde, chegando a um cenário no meio de árvores iluminadas por uma luz que tanto pode ser crepuscular como matinal, vê um navio no mar. Encosta-se a uma árvore e chora. Quando regressa a casa descobre que a mãe está morta.
Uma mãe está em casa doente ... Ok, Ok, já perceberam a ideia... Falta-me dizer que após o filho regressar a casa vemos a mão da mãe em grande plano, uma mão esquálida na qual ainda está a borboleta. O filho acaricia essa mão, repousa a mão e o rosto sobre ela, tenta com um sopro fazer fugir a borboleta que teima em permanecer, o filho sorri, deixamos de ver o seu rosto, vemos apenas o seu pescoço e ombro, e as mãos de ambos, iluminadas pela luz que entra pela janela. A mão dele pega na borboleta, que aparentemente está morta, ouvimos um grito e vemos as veias do pescoço retesadas sob a luz. De seguida vemos o filho falando com a mãe, dizendo qualquer coisa como "Mãe, sei que me ouves, vamos encontrar-nos no sítio que combinámos". Fim.
Falta dizer que Mãe e Filho é possivelmente o mais belo filme que já vi. (Isto nada quer dizer: pouco conheço de cinema russo, europeu, ou americano, pouco conheço de cinema, pouco conheço do que quer que seja). Pouco ou nada saberia dizer que não encontrem já escrito noutros lados, a influência dos quadros de Caspar David Friedrich, a forma como Sokurov filmou, o seu uso de espelhos e lentes que distorcem as figuras e por vezes nos lembram (como no plano em que o filho se afasta de casa iniciando o seu passeio) uma das esculturas de Giacometti. Sei sim que neste filme, que torna qualquer sinopse particularmente ridícula, somos preparados para uma morte, mas nada nos prepara para a sua revelação. Nada ou quase nada sabemos sobre as pessoas nele envolvidas (apenas duas). "Their love is almost physically palpable, it is the edge, the limit of love", disse Sokurov. E suponho que mesmo quem vos possa explicar o filme nada, mas mesmo nada, poderá dizer sobre ele que não seja apenas palpável experimentando-o. Não chorei do princípio ao fim, como Nick Cave conta no texto que a Cristina linkou, mas saí com um nó na garganta, e se me perguntassem porquê não saberia dizer.
1. The Great Northern Hotel
2. White Tail Falls
3. Black Lake Dam
4. Packard Saw Mill
5. Blue Pine Lodge
6. Twin Peaks Town Hall
7. Owl Cave
8. Glastonberry Grove
9. Railroad Cemetery
10. Old Unguin's Field
Pouco me resta para dizer,
nesta praia onde vagueio, ao anoitecer,
e as lâmpadas se acendem ao longe,
no porto em frente,
como se procurassem desesperadamente
um crepúsculo de incenso queimado e
alecrim.
Mas uma pancada surda,
talvez um remo no casco dos navios,
leva-me a outras águas onde podia
ter sido feliz,
onde muito além, depois das chuvas,
talvez cantasse o doce pássaro azul.
A Sic Radical começa a repor a série "Twin Peaks" de David Lynch amanhã, às 21.00h
Quem matou a Laura Palmer? é a pergunta permanente.
posted by Lídia on 22:53
Explicação necessária
Há certos versos – às vezes poemas inteiros –
que eu próprio não sei o que querem dizer. O que ignoro
retém-me ainda. E tu, tu tens razão em interrogar. Não interrogues.
Já te disse que não sei.
Duas luas paralelas
vindo do mesmo centro. O ruído da água
que cai, no inverno, da goteira a transbordar
ou o ruído de uma gota de água caindo
de uma rosa no jardim, regado há pouco,
devagar, devagarinho, uma tarde de primavera,
como soluço de um pássaro. Não sei
que quer dizer este ruído: contudo, aceito-o
As coisas que sei explico-tas.
Sem negligência.
Mas as outras também acrescentam a nossa vida.
Eu olhava
o seu joelho dobrado, como ela dormia,
levantando o lençol –
não era apenas amor. Este ângulo
era o cume da ternura, e o cheiro
do lençol, a lavado e a primavera, completavam
este inexplicável, que eu procurei,
em vão ainda, explicar-te.
Tremia tanto que o vento a levou
tremia tanto como não a levaria o vento
lá longe
um mar
lá longe
uma ilha ao sol
e as mãos apertando os remos
morrendo no momento em que o porto apareceu
e os olhos fechados
em anémonas do mar.
Tremia tanto tanto
procurei-a tanto tanto
na cisterna com os eucaliptos
na primavera e no verão
em todas as nuas florestas
meu deus procurei-a.
pode o poema permanecer
em círculo água em movimento
e sempre insuficientes as pálpebras
susterem o silêncio?
Há dias abri a caixa do correio e encontrei este livro com poemas da Sandra Costa e fotografias de Paulo Gaspar Ferreira. Dizem-me que mede 6cm x 8cm. Não confirmei e não acredito. Num livro tão pequeno não caberiam quatro poemas tão bonitos e duas fotografias tão grandes...
Começamos por ver Lillian Gish contando histórias a crianças, alertando para os falsos profetas, para logo de seguida vermos Robert Mitchum numa conversa solitária com Deus:" Not that you mind the killings! There's plenty of killings in your book, Lord...But There are things you do hate, Lord. Perfume-smellin' things, lacy things, things with curly hair." No momento seguinte, há o fabuloso plano de Mitchum, rosto contorcido pelo ódio enquanto observa uma bailarina semi-despida; a mão que tem HATE tatuada procura a faca, mas Mitchum acaba por concluir "You can't kill the world. There's too many of them".
E neste registo ambíguo entre conto infantil, filme de terror e obsessões religiosas e sexuais decorre esta história assombrada e assombrosa - assombrosa, entre muitas outras coisas, porque a transição entre estes vários planos se faz de uma forma tão natural e escorreita como o deslizar do barco que transporta as duas crianças na sua fuga do alucinado Harry Powell ( fuga empreendida com a cumplicidade dos animais, da lua e das estrelas, num ambiente de sonho que é um dos momentos mais bonitos que me lembro de ter visto em cinema, oásis de frágil e infantil serenidade que contrasta de forma extraordinária com tudo o que o precede: os homicídios, a noite de núpcias de Powell, a histriónica conversão religiosa da mãe das crianças, o seu cadáver, mais tarde, amarrado debaixo de água).
Diz a história que este filme foi um fracasso comercial; de facto, o filme tem tantas leituras possíveis, é um objecto de tal modo inclassificável, e representa de forma tão perturbadoramente certeira pulsões primordias e contraditórias do ser humano que não é muito surpreendente que público e crítica não tenham sabido o que fazer dele. É verdade que, no final, é a carinhosa, familiar e reconfortante personagem de Miss Cooper que prevalece. Mas provavelmente nem esta personagem caridosa foi suficiente para apagar dos espíritos o ambiente sombrio do filme, nem a assustadora visão das mãos de Powell, com as famosas tatuagens LOVE e HATE; nem a magnífica sequência em que Powell, esperando uma oportunidade para atacar, canta a ominosa canção "Leaning, leaning..." à porta de Miss Cooper, de tal forma que leva esta última a cantar com ele: caçador e presa em uníssono, na que é talvez a mais impressiva representação das estranhas contradições que povoam esta maravilhosa história.
É de ver que a contracapa de um livrinho como este não oferece espaço suficiente para que se aborde a mola real de toda a obra maupassantiana. Refiro-me ao problemo do duplo que, desde a adolescência atormentou o infeliz folgazão, desportista e garanhão que veio ao mundo como se fora uma alma penada («chamo-me Mauvais passant», dizia ele, misteriosamente aos 14 anos…), uma aventesma, uma dessas alucinações que, de tempos a tempos, «vemos sentada na nossa própria cadeira, como se fôssemos nós próprios»; e que, sobretudo, se reflete nos espelhos, sejam um verdadeiro vidro polido, um lago de jardim ou as águas pratedas do Sena… «Quem sou? De onde venho? Para onde vou? – interroga-se Maupassant, e como a imagem restituída pelo espelho não lhe responde (Jean Cocteau, seu admirador, tentará igualmente desvendar esse outro Mundo, anos mais tarde, por via cinematográfica, com Le Sang d’un Poète e Orphée…), evade-se, não apenas no sexo, mas num peregrinar, vagabundear, que o leve para longe de si próprio!… Debalde, – porque o outro não o larga, já que assentou arraiais dentro de si!
Antes de vir a ser quem foi, Maupassant escreveu poemas que, mercê da fama grangeada com Boule de Suif, encontraram – finalmente! – um editor em 1880. O volume tem por título Des Vers, que tanto podem ser versos como Vermes… Não sei. O que se é que, pelo menos dez anos antes de redigir LE HORLA ele escreveu (em boa poesia, claro, e não nesta tradução (?) mal-amanhada):
Passava da meia noite e, de repente, senti medo.
Medo de quê? Não sei, mas era um medo horrível.
Alanceado e trémulo de pavor, compreendi
que ia passar-se em breve uma coisa terrível…
Pareceu-me sentir que, nas minhas costas.
Estava alguém de pé, a rir, imóvel e nervoso!
Porém, eu nada ouvia…. Nada… Oh tortura!
Sentir que me ia passar a mão pela fronte
E apoiar-se-me no ombro… Saber que vou morrer
Se ele assim, friamente, o entender… (…)
O Horla é um trecho que ninguém tem o direito de desconhecer – e é com ansiedade que aguardo um estudo verdadeiramente científico de toda a obra de Maupassant que, no entanto, pode ser lida, saltando-se por cima dele, para conhecer melhor aquele a quem o seu fiel François Tassart, que viveu largos anos ao seu serviço, considerava «um homem supinamente bom, recto e fiel»… que teve apenas a desdita de ser um mau passante por este mundo de Cristo… e de ter Génio).
Jorge Reis, que traduziu “O Horla” (editado pela Difel em 1987)
"Le Horla", assim mesmo, em francês, pode ser lido aqui. É só carregar o documento em formato PDF.
Ainda sobre o duplo, encontrei este texto que compara “O Horla”, de Maupassant com a “Confissão de Lúcio”, de Mário de Sá-Carneiro (também disponível em PDF).
E não resisto a sugerir ainda outro livro. Não tem nada a ver com duplos, trata-se de “Leôncio e Lena”, uma comédia deliciosa de Georg Büchner.
Este link já devia estar há muito nos blogs cá de casa. Foi esquecimento, nós gostamos das Palavras da Tribo, das primeiras, das segundas e de todas as palavras...
posted by cristina on 15:28
The Ostriches couldn't have been done if I hadn't been the age I am. A younger woman wouldn't know what it was like; longing for things that are not gone, because they're inside one, but that are inaccessible.