sábado, outubro 25, 2003
Troveja em Lisboa e das alturas celestes São Pedro exercita flashadas com um gigantesco Metz. A constipação recente trouxe para a salinha do computador o aquecedor, fechou as portas, depositou um cobertor no braço da cadeira. Espalhou-se pela casa o cheiro do café acabado de fazer, do saco do Expresso saíram velhas e novas doenças do mundo, Jacinta cantou o seu tributo a Bessie Smith, a compilação indiscreta de Primavera recriou os dias do sol crescente, Nietzsche jorrou a sua implacável lucidez, sempre necessária.
Abrimos o livro do Bosch, folheámo-lo devagar e por fim observámos o Jardim das Delícias que, dentro de dias, será um pouco mais nosso. Desarrumámos mais cds. O leitor aquieta-se aqui:
a. O Miguel leva-nos a Coimbra.
Agora que Coimbra se enche novamente de festas de estudantes e latadas de vária ordem, lembrei-me de vos mandar um soneto belíssimo do Fernando Assis Pacheco, que nos mostra um lado indiscutivelmente mais bonito desta minha cidade.
O poema (das “Variações em Sousa”) intitula-se:
LOUVOR DO BAIRRO DOS OLIVAIS
Não tive nunca nada a ver com as
guitarras estudantes: eu vivia
num lento bairro da periferia
onde a chuva apagava os passos das
pessoas de regresso a suas casas
fazia compras na mercearia
e algum livro mais forte que então lia
já era para mim como um par d'asas
amigos vinham ver-me que eu servia
de ponche ou de Madeira malvasia
para soltar as línguas livremente
um que bramava um outro que dormia
eu abria as janelas e só dizia
ao menos estas ruas têm gente
b. Como é que se trabalha em Portugal? As respostas estão aqui.
Mais uma exposição a não perder, no CAV. Enquanto os Encontros não regressam.
É uma evidência: há muitos poemas (e também poetas) na blogosfera. Talvez por isso resolvemos fazer uma pequena antologia. Não tem objectivos pedagógicos nem pretende ser mais do que isto: alguns poemas de que gostamos, sem qualquer justificação.
Pedimos a alguns blogers "amigos" que nos mostrassem os seus poemas preferidos e eles responderam com entusiasmo. Demos-lhes forma de livro, virtualidade electrónica e assim surgiu "a poesia vai acabar".
Na blogosfera gosta-se de poesia, o que é bom. Este livro reflete apenas isso: o gosto e a partilha.
A Cinemateca vai fazer uma retrospectiva de Kubrick. Diz-se na página:
Eis, finalmente, uma integral de Stanley Kubrick na Cinemateca. Apesar de faltar um dos filmes, nem por isso o deixa de ser, pois o filme que falta é FEAR AND DESIRE, a primeira longa-metragem de Kubrick, realizada em 1952, não incluída por ter sido renegada pelo realizador. Mas inclui, para além das duas curtas-metragens iniciais, DAY OF THE FIGHT e THE FLYING PADRE, um recente documentário sobre a sua vida e obra, dirigido por Jan Harlan, que nos honra com a sua presença na abertura e dirigirá um debate sobre a obra de Kubrick. Será publicada uma edição portuguesa do livro Stanley Kubrick de Enrico Ghezzi. Início 30 de Outubro, prossegue em Novembro.
O mesmo nos diz Mário Jorge Torres, no Y, que além dessa informação dispersa por segmentos de frase - retrospectiva integral, Cinemateca, a partir de dia 30 -, nos alerta para aquela que deve ser a nossa orientada visão de Kubrick – desapaixonada, colocando-o num lugar que começa por não ser aquele em que comummente se sobrevaloriza a sua obra e que acaba por ser aquele em que de olhos bem abertos se lhe dá o lugar que lhe pertence. Nem mais, nem menos.
Portanto, atenção. De olhos bem abertos aos desdobráveis cor de cartão espalhados por Lisboa, onde saberemos em que dias e a que horas poderemos tomar a liberdade de formar uma opinião pessoal sobre Kubrick.
Qualquer coisa que não faça sentido, dêem-me um desconto, sff. Ainda não a vi, mas estou com febre. O resto é absolutamente verdade.
posted by camponesa pragmática on 12:20
quinta-feira, outubro 23, 2003
“…Ontem ao percorrer o flanco do vale, vi duas raparigas sentadas numa pedra: uma penteava-se, a outra ajudava-a; os cabelos de ouro pendiam, um rosto pálido e grave, apesar de tão jovem, e o vestido negro, e a outra aplicando-se com tanto cuidado. Dificilmente os mais belos e intimistas quadros dos velhos mestres alemães nos podem dar uma ideia desta cena. Por vezes gostaríamos de ter uma cabeça de Medusa para poder transformar em pedra um grupo como aquele e mostrá-lo às pessoas. Elas levantaram-se e a bela composição foi destruída; mas já quando desciam entre os rochedoss um novo quadro se formava.
Os mais belos quadros, as mais inspiradas composições formam-se e desfazem-se. Uma única coisa permanece: uma beleza infinita que passa de uma forma para outra, eternamente imperfeita, sempre em mudança. Mas nem sempre a podemos agarrar, pô-la nos museus, pô-la em música, e chamar então novos e velhos e deixar as crianças e os adultos alegrarem-se e conversar perante ela. É preciso amar a humanidade para penetrar na essência própria de cada um; ninguém, por muito insignificante,por muito feio que seja, deve ser desprezado. O rosto mais insignificante pode produzir uma impressão mais profunda do que a simples percepção da beleza abstracta e pode-se fazer emergir de dentro de si próprio as formas sem copiar nada de um modelo exterior em que não se sinta bater e pulsar nenhuma vida, nenhum músculo, nenhum pulso.”
Vai na letra “a” e é delicioso. O dicionário de O Mal é um programa linguístico que nos oferece seis palavras novas cada dia. Para guardar em fichas, utilizar em discursos sérios, cartas falsas e respostas preguiçosas. As consequências são imprevisíveis…
Epiderme. É um blog sobre arquitectura ou melhor, sobre as relações da arquitectura. A disciplina é apenas o ponto de partida.
Só acredito numa arquitectura permeável, com influências que não se limitem ao universo mais restrito da profissão. Não confio em arquitectos que só lêem vêem criam arquitectura. Tanto faz se o assunto é a prática ou a teoria da arquitectura. Ou existe uma vontade de cruzar as mais diversas áreas, ou não há grande futuro. Eu, por mim, hei-de continuar a bater nesta tecla. Daí, por exemplo, o último post... O que é que tem a ver com arquitectura? Tudo! A PERMEABILIDADE# posted by Pedro Jordão @ 21.10.03 > 02:50
Fins de outubro. As uvas ainda estão
nas ramadas.
É preciso perder o rosto mais próximo
vencê-lo como se fisgam pássaros novos
e ficar preso a esse movimento.
Deixar nos campos crescer a flor do
aloés.
These are the personal pictures of a busy working photojournalist, travelling all the time; home briefly in between. Although much of his assigned work was in color, he was never without a camera loaded with black and white film and a small box of extra rolls, which he used to capture what intrigued and fascinate him always; life in progress, people in their environments, enigmatic, unfinished, ambiguous. His devotion to photography was lifelong and intense; he saw pictures everywhere.
Já não se lembrava quando tinha adquirido esse hábito, nem sequer de quando se tinha tornado obsessão. A verdade é que tudo na sua vida se vinha organizando por ordem alfabética, quase sempre até naturalmente, sem exigir de si um verdadeiro esforço. De vez em quando, é certo, precisava de dar um pequenino jeito, nada de realmente invulgar, como o facto de ter conhecido Berlim depois de Amsterdão e Paris depois de Londres. Fez o primeiro ano de arquitectura, dois de design e só então se decidiu pela filosofia, mas também isso lhe pareceu natural. Ouvir Bach de domingo a quarta, Mahler às quintas e Schubert no resto da semana era um hábito tão antigo que nem pensava nele como fazendo parte dessa ordem. Organizar uma biblioteca por ordem alfabética é também muito simples e eficaz, porque se sabe sempre que os Budenbrook estão antes da Montanha Mágica e o Sidharta depois do Jogo das Contas de Vidro. Um dia porém conheceu o Álvaro e amou-o e resistiu a esse amor porque não podia consumá-lo. Não depois de ter namorado o Carlos, o João e o Miguel. Álvaro, Alv, Al, por mais voltas que desse ao nome não conseguia integrá-lo na clara ordem da sua existência. Durante uns meses andou um pouco perplexa, meditando sobre o que lhe tinha acontecido, questionando-se até sobre o destino, a verdade e o acaso, como se fosse possível regressar à ignorância. Quando começava a esquecer o problema, era Dezembro, recebeu em casa uma encomenda registada: ABC do amor, para principiantes, por Zeferino Zorba. Na contracapa lia-se «Zeferino Zorba, pseudónimo adoptado pelo escritor Álvaro Amado que nesta primeira obra revela já toda a mestria de um grande autor». Na página três uma dedicatória em forma de pergunta: agora que entrei no teu abecedário não te importas de inventar um novo para nós?
quarta-feira, outubro 22, 2003 Brazil Builds' 1943
É o tema de hoje do Ciclo de Arquitectura e Cinema.
Ricardo Bak Gordon vai apresentar um pequeno documentário intitulado "Vacancy Brasilia" e o filme "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles.
Às 21h30 em Serralves. O bilhete custa 2,5 euros e o café é bom.
Antes da última sessão, ainda há tempo para: ver o retrato feito por Leonardo da Jovem com um Ramo de Zimbro, e encontrar nele simultaneamente o encanto e a repugnância; descobrir que "O Espelho" é o filme da vida de Kleist; e prometer ao António que guardamos segredo.
every time the day
darkens down and goes away
pictures come
into my head of me and you
silent and cliched
all the things we did
and didn`t say covered up
by what we did and didn`t do
i thought you knew
now i take it from the top
and make the repetition stop
it never ever went away
now i`m scared to leave my zone
we`re both alone
i`m coming home
i wish i`d never seen your face
1. Um Olhar Sobre a Obra de Siza Vieira - fotografias de Ana Luzia Raposo
Até 8 de Novembro, no Espaço à p'Arte (piso 01 do Edifício de Pós-Graduação, Instituto Superior Técnico). De 2a a 6a, das 8h às 18h.
2. As Máquinas de Leonardo da Vinci Até 6 de Novembro, no Palácio Nacional de Sintra. Todos os dias excepto 4a, das 10h às 17h.
3. World Press Photo Até 2 de Novembro, no CCB. De 3a a Domingo, das 10h às 19h.
4. A Luz, a Imagem e os Sentidos - colectiva de fotografia
Até 6 de Novembro, no Palácio de Sintra. Todos os dias excepto 4a, das 10h às 17h.
5. Júlio Pomar - Desenhos para a Guerra e Paz Até 26 de Outubro, no Ministério das Finanças. De 2a a 6a, das 8h às 19h.
posted by picatostes on 18:00
Manobras de Outono
Pôr o edredão de penas na cama, comprar chá perfumado a bergamota, tirar as camisolas das gavetas, fazer (ainda mais) festas ao gato, comprar castanhas assadas, escolher um cachecol novo, cozinhar as lentilhas, tomar conta das esplanadas que resistirem, comer gelados fora da época, catalogar as cores das árvores, comprar umas botas novas, levar doce de abóbora com nozes aos amigos, gravar o som do vento para o Francisco.
Arrefece. De manhã a temperatura é de apenas 7°. Às nove horas o nevoeiro, já muito fino, dissolve-se à nossa volta. Ao fundo, o céu azul parece prometer uma dia solarengo mas à hora de almoço chove miudinho.
Ouvir Gonçalo Ribeiro Telles dizer que “o período de ouro da arquitectura paisagista ainda está por vir”. Foi por volta das nove horas, na antena 1, a propósito da exposição sobre arquitectura paisagista portuguesa, que inaugura amanhã na Fundação Gulbenkian.
Segundo o arquitecto este período 1940-1970 é (deve ser) uma espécie de “prefácio para uma abertura à necessidade de criação de uma paisagem global de que fazem parte a cidade e o campo”.
Quero acreditar nele.
A música electrónica parece-me oferecer possibilidades infinitamente valiosas ao cinema. Artemiev e eu a utilizamos em algumas cenas de “O Espelho”.
Queríamos que o som se assemelhase ao de um eco terrestre, cheio de sugestões poéticas – que fizesse lembrar sussurros, suspiros. As notas deveriam transmitir o facto de que a realidade é condicional, e, ao mesmo tempo, deveriam reproduzir com exactidão estados de espírito específicos, os sons do mundo interior de uma pessoa. No momento em que a ouvimos como ela é, e percebemos que está sendo construída, a música electrónica morre, e Artemiev precisou recorrer a artifícios muito complexos para obter os sons que desejávamos. A música electrónica deve ser depurada de suas origens “químicas”, para que, ao ouvi-la, possamos descobrir nela as notas primordiais do mundo.
A música instrumental é artisticamente tão autónoma que é muito mais difícil dissolvê-la no filme ao ponto de torná-la uma parte orgânica dele. Sua utilização, portanto, sempre implicará certa medida de concessão, pois ela é sempre ilustrativa. Além do mais, a música electrónica tem a capacidade exacta de se dissolver na atmosfera sonora geral. Pode ocultar-se por trás de outros sons e permanecer indistinta, como a voz da natureza, cheia de misteriosas alusões… Ela pode ser como a respiração de uma pessoa.
Andrei Tarkovsky, “Esculpir o tempo”
“O Espelho”, de Andrei Tarkovsky continua em exibição no CINE-ESTUDIO 222 até quarta-feira. E o realizador russo continua a falar aqui.
Gosto das coisas despidas. Do chão sem tapetes onde essenciais são os pés a sustentar o equilíbrio do corpo. Da água e do gesto de beber. Do carro que leva até à praia. Da roupa que aquece. Da janela que acolhe e recusa o vento, o som da rua, o calendário das árvores e que só existe porque há vento, rua, árvores. Da máquina fotográfica depois e só depois dos olhos. Faz-me impressão que um homem não se conceba, antes e além de tudo, nu no mundo.
Recebo uma mensagem: na quinta-feira devia ir a Ovar.
Por coincidência, trazem-me da fnac o disco da Jeanne Moreau.
India Song, outra vez…
Chanson,
Toi qui ne veux rien dire
Toi qui me parles d'elle
Et toi qui me dis tout
Ô, toi,
Que nous dansions ensemble
Toi qui me parlais d'elle
D'elle qui te chantait
Toi qui me parlais d'elle
De son nom oublié
De son corps, de mon corps
De cet amour là
De cet amour mort
Chanson,
De ma terre lointaine
Toi qui parleras d'elle
Maintenant disparue
Toi qui me parles d'elle
De son corps effacé
De ses nuits, de nos nuits
De ce désir là
De ce désir mort
Chanson,
Toi qui ne veux rien dire
Toi qui me parles d'elle
Et toi qui me dit tout
Et toi qui me dit tout
posted by Anónimo on 21:08
espirros e desenhos
O hábito ficou da infância: as constipações ultrapassam-se com lenços, chá, fruta e... livros de banda desenhada. (será um mal que afecta muita gente?)
No sábado diverti-me com "As Jóias de Castafiore”. É um album muito engraçado onde não se passa quase nada. A trama vive de mal entendidos e dos variadíssimos acidentes que vão acontecendo ao capitão Haddock. Talvez a peça chave de toda esta história seja aquele degrau partido, ou talvez não. Uma doce loucura, sem dúvida e um livro brilhante de Hergé.
Ontem foi a vez d’ “O Homem à Janela”, de Lorenzo Mattotti (editado pela Fenda). O desenho é a preto e branco, fluído, com excelentes encadeados. É a história de um escultor que procura… não, não é para contar, é para descobrir, começa assim:
Este livro queria-se um reflexo, um reflexo de luz. Apercebo-me, contudo, que o papel não reflete; absorve. Perdoem-me, então, se não vos ilumino. É a vós que cabe encontrar os indícios nesta superfície de papel branco.
1. Ontem levaram-me a ver os plátanos mais bonitos da cidade. Desce-se a Avenida da Boavista, vira-se na Antunes Guimarães e depois na segunda à direita, numa rua chamada dr. Vasco Valente. Do lado esquerdo sucedem-se plátanos com cor de fruto, aquele rosa corado das romãs.
Era a hora de almoço, quando ao domingo a cidade parece que pára. Percorremos as ruas em busca de mais plátanos mas nenhuns eram como aqueles. Voltei lá ao fim da tarde e pareceram-me ainda mais belos.
2. O jardim que eu queria para mim era o da Casa das Artes. O jardineiro deixa as árvores crescerem à vontade e elas aproveitam-se e têm ramos que sobem e que descem, em desordem. Ontem choveu e a terra estava macia, húmida e escorregadia e o ar cheirava a água. Os castanheiros deixam cair os ouriços, as tangerinas crescem. Tudo é perfeito neste jardim.
3. “Mãe e filho”. Não sei de onde vem este filme. É de fora do tempo, de certeza. As imagens chegam directamente dos sonhos, diáfanas e do coração, profundas. Cada plano é de uma beleza irreprensível. E não há quase nada. É tudo de uma austeridade e de uma pobreza extremas e tocantes.
Foi a primeira vez que vi o filme. Tenho-o numa cassete video lá em casa mas nunca me atrevi a vê-lo no pequeno écran da televisão. A primeira vez tinha de ser numa sala de cinema. Agora tenho vontade de voltar a ele, plano a plano. Mas antes disso quero ouvi-lo de novo. Ouvir o vento e as vozes, as doces vozes deles.
posted by Anónimo on 13:25
domingo, outubro 19, 2003
sob escuta
Ouço muitas coisas e muito diferentes, mas há cds incomparáveis, como este, e eu regresso sempre a este cd. Um saxofone tomou conta da minha casa. Os espaços capitularam quase imediatamente. As paredes estão reunidas no meio de um corredor, com cartazes. Dizem que não querem ser paredes. Que é muito pesado, muito estático. Que querem seguir o saxofone. E os calendários ofenderam-se. Então não era Outono? Adoro este cd. Confesso que dou prioridade às partes do Getz, que anseio pelos solos do Getz, que as ideias que tenho de alegria e brilhantismo são perfeitamente celebradas nesses solos. Felizmente são enormes. O cd está em repeat há uma hora e continuará até momento incerto. Até enjoar, o que neste caso é difícil.