what is important is not what one accomplished after all but that one entered the path to accomplish it in the first place. Why doesn't it matter where he arrived? Because the path is infinite. And the journey has no end. Because of that it is of absolutely no consequence whether you are standing near the beginning or near the end already — before you there is a journey that will never end. And if you didn't enter the path — the most important thing is to enter it. Here lies the problem. That's why for me what's important is not so much the path but the moment at which a man enters it, enters any path.
Não sei se nesta altura Tonino Guera já saberia falar russo, desconfio que não, ainda não. Havia um tradutor? Talvez. Mas podemos imaginar que conversaram sozinhos, Tonino falando italiano misturado com o dialecto Romagnol e Tarkovski ora em russo ora em nostálgico italiano. Era nessas línguas que gostava de publicar esta conversa...
Tonino Guerra Would you be willing to tell me the end of the film, shot by shot, as if I were a blind man?
Andrei Tarkovski It's a very interesting question. Probably it would be nice not to make films, but only recount them to the blind. A beautiful idea! One only needs to acquire a tape-recorder. "Thought expressed is a lie," as the poet said.
Tonino Guerra Alright, I can't see any thing. Tell me.
Andrei Tarkovski A close-up: an ill little girl, the daughter of the Stalker, is holding a large book in front of her. She is wrapped in a scarf. We see her in profile in front of an illuminated window. The camera slowly tracks back and frames a portion of the table. A table in close-up, covered with dirty dishes: two glasses and a jar. The girl puts the book down on her knees, and we hear her voice repeating what she has read. She looks at one of the glasses. And under the power of her gaze, the glass begins to move towards the camera. Then the little girl shifts her gaze towards the other glass and the other glass also begins to move. Then the girl looks at the glass in the middle of the table and we see that it too begins to move under the power of her gaze. It moves and falls to the ground, but it does not break. We hear a train passing near the house, it makes a strange noise, the walls shake, they tremble increasingly. The camera returns to the close-up of the little girl, and with this sound, with this noise, the film ends.
Não, Jorge, não há nenhuma traição no Stalker. Se fores ver a ficha técnica, encontras lá o nome de Arkady Strugatsky, um dos escritores de “Piknik na obotchine”. E se continuares, descobres mais:
…
"What should Stalker be like in the new screenplay?"
"I don't know, you're the author, not I."
I see. Actually, I could see nothing, but that was the usual thing now. But even before the work started it became clear to my brother and me: if Tarkovsky makes mistakes, they are brilliant mistakes and worth a dozen correct decision by ordinary directors.
On a sudden urge I asked:
"Listen, Andrei, what do you need the science fiction in the film for? Let's throw it out."
He smirked: just like a cat that has eaten its owner's parrot.
"There! You suggested it, not I! I've wanted it for a long time, only was afraid of suggesting it, so you wouldn't take offense."
To make a long story short, next morning I was flying to Leningrad. I won't tell you how it was with Boris, because I'm writing not about us but about Andrei Tarkovsky. We wrote not a science fiction screenplay but a parable (if we understand a parable as a certain anecdote whose personae are typical of the age and carriers of typical ideas and behaviour). A fashionable Writer and a prominent Scientist go into the Zone where their most cherished dreams might come true, and they are led by the Apostle of the new faith, a kind of ideologist.
I returned to Tallinn ten days later. Andrei met me at the airport. We embraced. He asked: "Have you brought it?" I nodded, trying not to shake. At home he took the manuscript, retreated into the next room in silence and shut the door firmly behind him. The wives began to look after me, offered brandy (it was my birthday). Naturally, we couldn't eat anything.
Some time passed, perhaps an hour.
The door opened and Andrei came in. His face expressed nothing, only his moustache bristled as it always did when he was immersed in his thoughts.
He looked at us absent-mindedly, came up to the table, caught a piece of food with a fork, put it in his mouth and chewed on it. Then he said staring above our heads:
"The first time in my life I have my own screenplay."
Aqui [na Zona] os caminhos mais directos não são os mais curtos.
Que tudo se realize, que eles acreditem, que riam das suas próprias paixões. Aquilo a que chamam paixão não é a energia da alma, mas apenas uma fricção entre a alma e o mundo exterior. Mas acima de tudo, que acreditem em si próprios, que se tornem indefesos como crianças, pois a doçura é grandiosa e a força inútil. Quando um homem nasce, é suave e maleável. Quando morre, é forte e duro. Quando uma árvore nasce, é suave e maleável. Mas quando está seca e dura, morre. A dureza e a força são companheiros da morte. A flexibilidade e a doçura são o que dá forma à vida. O que se torna duro não pode triunfar.
We are acquainted with on of the basic assertions of Eisenstein already for a long time : a shot, put next to other shots through editing, is a generator of meaning, of appreciation, of conclusion. Theories of editing in the years 1920 put all of their attention to the reciprocal relationship to the juxtaposed scenes, which Eisenstein called "the point of junction in editing" (montynjstyk) and Vertov an "interval".
It was while working on my film We that I became certain that my interest was pulled towards somewhere else, that the essence and the principal emphasis of editing lied not so much in the assembling of the scenes, but rather in the possibility to separate them, not in their juxtaposition but in their separation. It was clear to me that my greatest interest was not to reassemble two elements of editing but rather to separate them by inserting the third, the fifth or the tenth element between them.
When confronted with two important shots, the carriers of meaning, I don't try to bring them together, nor to confront them, but rather to create a distance between them. It is not through juxtaposition of two shots but through their interaction with numerous links that I get to express an idea in the most optimal way. The process of expressing a meaning, then, acquires a much stronger and much more profound range then by direct pasting.
In such a way the expression becomes more intense and the capacity of a film to give information acquires huge proportions.
That is a type of editing that I call "contrapuntal editing".
Artavazd Pelechian An excerpt of My Cinema, republished in Traffic N°2, 1992
Translated from Russian by Barbara Balmer-Stutz
As Estações, de Artavazd Pelechian e Nosferatu, de G. W. Murnau, amanhã no Auditório de Serralves às 16h00.
Cheguei cedo e fui recebido por uma névoa fresca e salgada, senti-me em casa. Depois apareceram ale e nebia. Traziam um divã de veludo azul muito escuro, quase preto; uma cadeira de espaldar alto; uma garrafa de vinho (tinto, do Douro), três copos de cristal; e um gira-discos.
Invertemos as posições habituais, eu sentei-me na cadeira e elas estenderam-se no divã, um palmo acima dele, para ser preciso. Pediram para não ligar o gravador, “preferimos confiar na sua memória e na livre associação de ideias”, disseram, com um desfazamento de três segundos, enquanto estendiam o braço do gira-discos sobre “Sports et divertissements”, de Erik Satie.
Elogiaram a minha camisa azul marinho, senti-me alegre vi a objectividade a fugir. Rápida, ale apanhou-a antes que ela fugisse pela janela. Meteu-a num envelope e remeteu-a para a redacção, “pois ela aqui não sobreviviría mais do que sete minutos”. Sinto-me confuso, enebriado, que posso fazer? As perguntas, claro (“não te estendas, apenas três perguntas: curtas, incisivas e, acima de tudo, bombásticas”, exclamou o chefe da redacção em caixa alta). Três serão, em discurso directo e com travessão, ei-las:
Narração em 3 partes: 1/3
REPÓRTER LÍRICO – Qual é a importância de nadar na psicanálise?
NEBIA – Sobre esse assunto eu gostaria de chamar o nosso consultor para as questões aquáticas, o professor Henry Michaux…
HENRY MICHAUX (ele próprio, que acaba de entrar pela porta com umas barbatanas XXL) – Meus amigos, a alma adora nadar.
Para nadar deitamo-nos de barriga. A alma desencaixa-se, e lá vai. Lá vai a nadar. (Se a sua alma partir quando você estiver de pé, ou sentado, ou de joelhos dobrados, ou de cotovelos dobrados, em cada posição diferente do corpo a alma partirá num andamento e numa forma diferentes; explicarei isso mais tarde.)
Fala-se muita vez em voar. Não é isso. O que é preciso é nadar. E a alma nada como as serpentes e as enguias, nunca de outra forma.
Uma data de pessoas têm, assim, uma alma que adora nadar. Chamam-lhes vulgarmente preguiçosas. Quando a alma sai do corpo pela barriga, para nadar, opera-se uma tal libertação de não sei quê, um abandono, um prazer, uma descontracção tão íntima.
A alma vai nadar para o vão da escada, ou para a rua consoante a timidez ou a audácia do homem, pois mantém sempre um fio entre ele e ela, e se esse fio se rompesse (às vezes é muito frágil, mas seria precisa uma força terrível para romper o fio), seria um desastre para ambos (para ela e para ele).
Quando portanto, se encontra ocupada a nadar ao longe, por esse fio que liga o homem à alma escoam-se volumes e volumes duma espécie de matéria espiritual, uma espécie de lama, assim como o mercúrio, ou como um gás – prazer sem fim. E agora desculpem mas tenho de ir tratar das minhas propriedades…
ALE – Bom, o que é que podemos dizer depois de tão bela exposição? No entanto gostaria de sublinhar a importância de duas actividades adjacentes e essenciais à natação: boiar, que é nadar sem nadar, é a preguiça em êxtase e a preguiça, como todos nós sabemos, é a alma em estado de pausa, que é o estado mais difícil de alcançar. E ainda: andar de bicicleta sob a água. Aqui o difícil é avançar com os olhos fechados mantendo o equilíbrio. Recomendamos que comecem a treinar lendo livros de poesia nas salas de espera dos consultórios, com os olhos abertos, é claro.
N – Deixa-me acrescentar, querida ale que também se pode praticar ciclismo aquático em certas salas de cinema, nas mais obscuras e húmidas, com os olhos semi-cerrados.
2/3 RL – Constou-me que vocês têm em mãos um caso terrivelmente patológico.
A – Sim, é um caso de dessincronia traumática, isto é, um indivíduo que sofre do mesmo trauma que o vizinho do blog do 3º direito mas com duas horas de atraso. No diagrama de Wsaecshërt situa-se a 45° norte-este-este e a 23º na escala CSI (o Consciente e Sobretudo o Inconsciente) e ocorre apenas uma vez em dez milhões de anos. Se o solucionarmos (e estamos perto disso), fechamos logo as torneiras, quer dizer, o blog…
N – … compramos uma casinha com piscininha e um helicóptero (ver Herberto Helder Photomaton & Vox, a páginas tantas) e contratamos um poeta para o conduzir…
A – … e um jardineiro obtuso para aparar a relva do tecto, convém não esquecer!
3/3 RL – Vocês consideram que é mesmo necessário um gabinete de psicanálise-barra-canalizações na blogosfera?
A – De todo.
N – , concordo… de todo! é mesmo necessário?
«[...] Há cerca de trinta anos, um amigo recomendou-me um volumoso romance histórico do argentino Manuel Mujica Láinez, sobre o enigmático Pier Francesco Orsini, duque de Bomarzo, que se deu ao trabalho de mandar lavrar na pedra da sua propriedade uma fantástica galeria de figuras colossais, monstruosas e inverosímeis. Previsivelmente, o romance chamava-se Bomarzo, e, também previsivelmente, não estava publicado em Portugal.
Não me esqueci da referência, mas não procurei o livro. Achei, isso sim, num dos primeiros números da magnífica revista FMR [nº 12], que o editor Franco Maria Ricci começou a publicar em finais dos anos setenta uma sumptuosa reportagem fotográfica sobre os monstros dos jardins de Bomarzo. Na primeira ocasião, comprei a edição espanhola de Bomarzo, setecentas páginas em letra cerradíssima, a pedir um tempo longo de espera antes que eu tivesse tempo (ou tempo de maturação) para o abordar. O romance ficou assim, letras azuis sobre fundo branco na lombada, à espera de melhores dias, durante os últimos vinte e dois anos.
Há cerca de três semanas, ao sabor de um zapping distraído, caíram-me os olhos numa figura que imediatamente identifiquei como um dos monstros de Bomarzo. Era um documentário da BBC; fiquei a vê-lo até ao fim. Depois, com fria determinação, levantei-me e fui à estante. Senti que tinha chegado o momento: ia finalmente ler Bomarzo.
[…]
Bomarzo é um romance de leitura compulsiva (unputdownable, dizem os ingleses), que conta a lenta, decantada, inexorável progressão do duque corcunda e aleijado para o coração das trevas, para a absoluta indiferenciação entre o Bem e o Mal, nele sublimada, segundo Mujica Láinez (de quem temos, em português, O Unicórnio, publicado em 1990 pela Cotovia), pelo seu magnum opus, as esculturas monumentais e fantásticas do jardim de Bomarzo. Neste livro, não há um único momento de tédio ou trivialidade. […]»
Considerando a frio, imparcialmente,
que o homem é triste, tosse e, no entanto,
se compraz em seu peito avermelhado;
que a única coisa que faz é compor-se
de dias;
que é lúgubre mamífero e se penteia...
Considerando
que o homem procede suavemente do trabalho
e repercute chefe, soa subordinado;
que o diagrama do tempo
é constante diorama em suas medalhas
e, mal abertos, seus olhos estudaram,
desde distantes tempos,
sua fórmula famélica de massa...
Compreendendo sem esforço
que o homem fica, às vezes, pensando,
como querendo chorar,
e, sujeito a se estender como objeto,
se faz bom carpinteiro, sua, mata
e depois canta, almoça, se abotoa...
Considerando também
que o homem é em verdade um animal
e, apesar disso, ao se voltar, me dá com sua tristeza na cara...
Examinando, enfim,
as suas peças encontradas, sua latrina,
sua desesperação, ao terminar seu dia atroz, borrando-o...
Compreendendo
que ele sabe que o amo,
que o odeio com afeto e me é, em suma, indiferente...
Considerando seus documentos gerais
e olhando com lentes aquele certificado
que prova que nasceu muito pequenino...
lhe faço um sinal,
vem,
e lhe dou um abraço, emocionado.
Que importa! Emocionado... Emocionado...
César Vallejo, traduzido por Vicente Cecim
Encontrei o poema neste excelente site.
"Roubei" a tradução de Cecim mas deixei lá o original e ainda uma outra tradução, de Jorge Henrique Bastos, e muitos outros poemas de Vallejo, por isso avancem (direcção Perú, via Brasil).
posted by cristina on 13:28
Fear of seeing a police car pull into the drive.
Fear of falling asleep at night.
Fear of not falling asleep.
Fear of the past rising up.
Fear of the present taking flight.
Fear of the telephone that rings in the dead of night.
Fear of electrical storms.
Fear of the cleaning woman who has a spot on her cheek!
Fear of dogs I've been told won't bite.
Fear of anxiety!
Fear of having to identify the body of a dead friend.
Fear of running out of money.
Fear of having too much, though people will not believe this.
Fear of psychological profiles.
Fear of being late and fear of arriving before anyone else.
Fear of my children's handwriting on envelopes.
Fear they'll die before I do, and I'll feel guilty.
Fear of having to live with my mother in her old age, and mine.
Fear of confusion.
Fear this day will end on an unhappy note.
Fear of waking up to find you gone.
Fear of not loving and fear of not loving enough.
Fear that what I love will prove lethal to those I love.
Fear of death.
Fear of living too long.
Fear of death.
I've said that.
Copiado de: folha de papel encontrada hoje de manhã na rua (características particulares: amachucada, desbotada, letra infantil e irregular, tinta azul, legível)
posted by Escrivão on 13:12
"Em Stalker, faço uma espécie de afirmação cabal: isto é, a de que basta o amor pela humanidade-milagrosamente-para provar que é falsa a suposição grosseira de que não há esperança para o mundo. Este sentimento é o nosso valor comum e indiscutivelmente positivo. Apesar de já quase não sabermos amar..."
Como amo os teus olhos, minha amiga,
E a chama radiante que neles dança,
Quando por um instante fugaz eles se erguem
E o teu olhar voa célere
Como o relâmpago no céu.
Mas há um encanto mais poderoso ainda
Nos olhos voltados para o chão
No momento de um beijo apaixonado,
Quando brilha por entre as pálpebras baixas
A sombria, obscura chama do desejo.
Fyodor Tyuchev
Quatro exibições apenas. Hoje e na segunda-feira, no Cine-Estudio 222, às 18h45h e às 21h45h: Stalker, de Andrei Tarkovski.
Acabei de o rever aqui em casa e o espanto e sobressalto continuam – é o meu filme, desde há anos. Durante estes dias vamos viajar até à Zona, "o lugar mais calmo do mundo", diz o Stalker.
A Zona é um complexo de armadilhas. Armadilhas mortais. Não sei o que acontece aqui sem a presença humana mas assim que aparece alguém, começa tudo a mexer-se. As antigas armadilhas desaparecem e aparecem novas. Deixa de haver caminhos seguros. O caminho ora é fácil ora extremamente confuso. É isto a Zona. Pode parecer caprichosa mas é apenas, a cada momento que passa, aquilo que dela fazemos mentalmente.
posted by cristina on 00:11
Está quase. Hoje o mundo vai mudar. Às 3 da manhã.
Conto de Inverno
termino agosto na casa-mãe
voltarei depois do verão
quando outubro for outono
e o outono outubro já
e o teu coração setembro ainda
desejar (já)o Natal.
Luís Filipe Borges, Angra do Heroísmo, 21.03.2000
Publicado na revista [:ilhas] Out/Nov 2002
10 GRANDES FUTEBOLISTAS QUE NUNCA FORAM CAMPEÕES DO MUNDO:
Leônidas da Silva (Brasil)
Stanley Matthews (Inglaterra)
Valentino Mazzola (Itália)
Ferenc Puskas (Hungria)
Lev Yashin (URSS)
Alfredo Di Stèfano (Argentina/Espanha)
Eusébio Ferreira (Portugal)
Johann Cruyff (Holanda)
Karl-Heinz Rummenigge (Alemanha Federal)
Michel Platini (França)
Niektorzy -
czyli nie wszyscy.
Nawet nie wiekszosc wszystkich ale mniejszosc.
Nie liczac szkol, gdzie sie musi,
i samych poetow,
bedzie tych osob chyba dwie na tysiac.
Lubia -
ale lubi sie takze rosol z makaronem,
lubi sie komplementy i kolor niebieski,
lubi sie stary szalik,
lubi sie stawiac na swoim,
lubi sie glaskach psa.
Poezje -
tylko co to takiego poezja.
Niejedna chwiejna odpowiedz
na to pytanie juz padla.
A ja nie wiem i nie wiem i trzymam sie tego
jak zbawiennej poreczy.
A Terra gira desde há cerca 3500 milhões de anos. A humanidade vive desde há 1 milhão de anos. A história das civilizações humanas dura desde há 10 000 anos sem que seja contínua nem evolutiva. A parte civilizada, artística, poética, literária, não constitui mais que uma fracção imperceptível da existência da espécie. Homo. Imperceptível pela própria espécie em geral. Houve apenas algumas obras, alguns objectos, alguns sons, alguns livros, alguns muros vislumbrados por alguns homens que se inclinam por vezes, da frente para trás.
Houve um tempo, um longo tempo, em que os homens e as mulheres apenas deixavam sobre a terra excrementos, gás carbónico, um pouco de água, algumas imagens e a marca dos seus pés.
No decurso dos últimos seiscentos milhões de anos a Terra conheceu sete extinções maciças de espécies. A primeira data do início do Câmbrico, há 540 milhões de anos. Somos os contemporâneos da última dessas extinções. No final do século XXI metade das plantas e dos animais que ainda existem estarão extintos.
Terão desaparecido 4327 espécies de mamíferos;
9672 espécies de aves;
98 749 espécies de moluscos;
401 015 espécies de coleópteros;
6224 espécies de répteis;
23 007 espécies de peixes.
O Éden retira-se pouco a pouco do Jardim.
A National Geographic deste mês traz um trabalho de Steve Winter (texto e fotografias) sobre Cuba: Cuba ao Natural. Vi pouco da revista pois comprei-a hoje antes do almoço. A reportagem anda à volta da fauna da ilha. Vi uma fotografia de dois exemplares embalsamados de uma espécie extinta de pica-pau. Acabou. Não há repetição possível, qualquer possibilidade de regresso. Não acredito em deus e acredito que deus morre em cada espécie extinta.
Cuba, naturally. Fico a olhar para o título disto em inglês e a pensar nas traduções. Cuba é um país altamente contraditório. A natureza é idílica e muito concreta. Tirei fotografias e quando as vi pensei que fosse a minha inexperiência. Mas desde então vejo sempre as dos outros. A quase totalidade das tonalidades de verde existentes nas florestas cubanas foge simplesmente às máquinas fotográficas. Um bom pintor, sensível às cores, que as visse e que as trabalhasse, talvez conseguisse. Mas não há fotografias que deixem adivinhar a riqueza do verde da floresta cubana. Do céu, porém, conseguem os fotógrafos trazer a incrível proximidade das nuvens. O peso esmagador e sublime das nuvens.
Frailecillo, (Fratercula arctica): Esta pequeña ave es muy sensible a la contaminación por hidrocarburos. El petróleo impregna su plumaje y muere de frío o de hambre. Se han recogido 3.854 frailecillos afectados cuando se dirigían a criar en el norte de Europa.
Alca común, (Alca torda): La segunda especie con mayor mortalidad: 3.877 aves recogidas en centros de recuperación. Se manchan de fuel cuando bucean en busca de alimento.
Gaviota patiamarilla, (Larus cachinnans): La colonia en la zona afectada es muy numerosa, más de 50.000 parejas. Es la especie de gaviota que más ha acusado el vertido (748 ejemplares recogidos) hasta hoy.
Halcón peregrino, (Falco peregrinus): Los ejemplares de esta formidable ave que viven en la costa anidan en los acantilados, áreas de difícil acceso donde no ha sido posible la limpieza. El fuel sólo puede ser retirado por el oleaje.
Delfín mular, (Tursiops truncatus): En aguas gallegas viven unos 500 ejemplares, divididos en cinco manadas. El fuel mató directamente al 2% de la población. Las manadas de Arousa y de Noya-Muros fueron las más perjudicadas. A este tipo de delfín se le puede ver dentro de las rías.
Colimbo grande, (Gavia immer): Quizá de las especies más interesantes. Voló desde sus cuarteles en Islandia y Norteamérica para toparse con el fuel. Se han encontrado 65 ejemplares afectados. El hidrocarburo se deposita en su hábitat, los fondos arenosos.
Alcatraz, (Morus bassanus): Cuando se hundió el 'Prestige', los alcatraces se encontraban en pleno paso migratorio. Fueron las aves más afectadas en las primeras semanas (798 ejemplares recogidos). Afortunadamente, son muy abundantes. Provienen en su mayoría de Gran Bretaña.
A superfície das águas que estagnam desde as primeiras migrações para as aldeias palafitas nos lagos etruscos cinzentos.
Os charcos provocados pela chuva, na margem dos quais minúsculas rãs pretas como o ébano saltam de repente.
A grande onda branca na praia de Carnac às dez horas.
A sordidez das sombras no caixote do lixo de Paris quando se levanta a tampa para deitar lá uma lata vazia de atum em conserva.
A baba dos caracóis nas folhas ou na terra seca entre as espigas.
Os dedos ao mesmo tempo pegajosos de açúcar e sujos de lama das crianças em Sens.
A manga do casaco de seda azul-escura usado.
O monte de pó que cresce inexplicavelmente e que a vassoura empurra à sua frente seja em que lugar for do mundo.
A pêra sorvada e húmida do seu sumo e as suas cascas largas e grossas no tampo de madeira redondo da cadeira alta encostada à parede da cozinha de Verneuil.
O cheiro de bosta velha e de feno quando entrávamos de repente no escuro e na frescura do estábulo em Garet no Périgord há trinta anos.
Uma criança que abre a boca e quar mostar-nos uma cárie num dente de leite que, uma vez caído, vai ser colocado no escuro do buraco do rato.
O cabelo negro perdido no pente de corno que a mulher que ainda desejamos deixou pousado na mesa-de-cabeceira.
1. Ubiquidade, precisa-se.
Para não faltar ao encontro na biblioteca logo à noite e ao mesmo tempo ir a Serralves (re)ver “Stranger than paradise”, do Jim Jarmush. Se não conseguir... alguém que vá por mim.
2. Várias razões para uma viagem a Guimarães: Guianluigi Trovesi, quinta-feira dia 13 às 22h00, no auditório da Universidade do Minho; aproveitar para espreitar a oliveira que dá nome ao Largo, a árvore que o arquitecto teimou em fazer crescer para iluminar de novo a igreja; passar pelo Museu à noite; procurar o restaurante que fica tão bem escondido naquele beco; subir à Penha no teleférico.
3. Temos mais um colaborador de estimação. Apareceu aqui e aqui ficou, dia e noite, comendo apenas umas bolachas. “Copio documentos”, diz ele, “e nada mais quero fazer”.
Nem discutímos nem acrescentámos claúsulas ao contrato, aceitámos. É o nosso copista até desejar não o ser mais. O nome dele? Bartleby.
A psicanálise já não se faz no divã, pelo menos na blogosfera. Há dias que Freud corre solto pelas torneiras. Este consultório inovador é gerido pelas doutoras ale e nebia, formadas algures em Itália em “Altos Estudos da Mente Humana – subsídios para aprender a nadar”, “O Consciente e Sobretudo o Inconsciente (CSI) – filmados a 48 fotogramas por segundo por Jean-Luc Godard” e “Canalizações e Vozes Subterrâneas – estudos sobre a alma russa (em 10 volumes)”.
Elas não prometem sanar traumas nem outros problemas do género mas garantem abanar a nossa cabeça e enchê-la de nevoeiro, o que é muito mais interessante.
Vamos enviar o Repórter ao local para averiguar o que lá se passa mas meninas, por favor, devolvam o rapaz em condições. E claro, cumprimentos ao sobrinho.
posted by cristina on 13:04
Terça-feira, Novembro 11, 2003
the turn of the screw
E esta noite? Será que vou sonhar com a Deborah Kerr?
Só arranjava forças para prosseguir tomando a «natureza» do meu partido e tomando a minha monstruosa provação como uma guinada numa direcção que era evidentemente invulgar e desagradável, mas que afinal, apenas precisava de ser defrontada com uma volta mais apertada no parafuso da virtude humana.
posted by cristina on 23:29
"Risquei Viena da minha vida, tornei-a definitivamente impossível. Pensei, já não mereço esta cidade. E foi em Viena que ouvi pela primeira vez uma peça de Mendelssohn Bartholdy"
Continuando, com assinalável sentido de oportunidade, a falar de filmes que já não estão em cartaz, umas breves notas sobre Requiem for a Dream, que me atropelou no Domingo passado; história de quatro personagens em três estações (começa no Verão, acaba no Inverno, não veremos a Primavera): uma mãe que sonha aparecer na televisão, o seu filho, a namorada, e um amigo do filho, os três viciados em drogas. Mas pouco importa o vício. O que o filme conta é o fim de um instante efémero em que a felicidade parecia ao alcance de todos, descreve a queda final no abismo que a cada personagem vai incumbir. Pouco importam os detalhes.
Vemos, literalmente, esse instante efémero começar a esboroar-se no rosto de Ellen Burstyn quando a sua personagem, mais ou menos a meio do filme, fala com o filho: conta-lhe que foi seleccionada para aparecer na televisão, fala no marido desaparecido, na sua solidão, no vestido vermelho que usou aquando do graduation day do filho, nos sonhos que tinha para ele, como toma comprimidos para perder peso e poder voltar a usar o tal vestido quando for à televisão... e enquanto fala, a câmara está fixa no seu rosto, e algo espantoso acontece: vemos a alegria, a saudade, a tristeza, os sonhos perdidos, surgindo à desfilada no seu rosto. Vê-mo-los. E na sucessão de emoções que se vai escrevendo neste rosto pressentimos o instante final antes da queda, a exacta beira do precipício.
A partir daqui (pouco importam os detalhes) tudo acontece a uma velocidade vertiginosa, culminando na arrasadora sequência final (quanto tempo dura? 10 minutos? 15? 20? dura quase certamente menos do que parece). Começa o verdadeiro requiem pelo sonho, um contraponto infernal de quatro histórias, um pesadelo que parece interminável. As imagens sucedem-se a um tal ritmo que as histórias são mais sugeridas do que propriamente mostradas, sem que tal atenue minimamente o horror que delas se desprende. Uma cacofonia feita de gritos, choques eléctricos, choro, vómitos e lágrimas cerca-nos por todos os lados. A montagem vertiginosa e a banda sonora hipnótica obriga-nos a assistir a tudo, até ao fim que parece nunca mais chegar.
As 4 personagens acabam deitadas (em posição fetal, talvez para poderem sonhar de novo) na ressaca dos sonhos que acabaram, separadas e abandonadas ao seu destino. E quem assistiu a tudo sai exausto, contaminado pela extraordinária banda sonora, e a pensar que quem pela primeira vez descreveu um filme como um "murro no estômago" deve ter vivido uma experiência semelhante a esta.
William Blake The Ancient of Days 1794
Relief etching with watercolor | 23.3 x 16.8 cm | British Museum, London
O que há em mim é sobretudo cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
esta longa e fina linha. esta corda bamba feita de som
Tenho uma óptima memória para os sonhos. É curioso porque, para o último filme de Wim Wenders, “Faraway so close”, escrevi duas canções que se enquadram bem nessa categoria de imagens oníricas. Não tinha visto nada do filme e, como é costume, à última hora, mesmo antes da estreia em Cannes, ele telefona-me a dizer: “Preciso que me componhas fragmentos de anjos!…” Assim mesmo, “fragmentos de anjos”… Perguntei-lhe: “Quantos minutos?” Respondeu-me que eram vinte minutos de “fragmentos de anjos”. É o género de instruções que ele dá. Escrevi então “Tightrope” e “Speak my language
Desejei isto porque o título me seduziu: "Laughing in Rhythm". Haverá algo melhor que isto? Não é um título magnífico? Apostei nisso. Agora estou a ouvir os cds. E o título não é uma fraude, muito pelo contrário. São muito boa onda estes cds, muito boa onda.
You can dance. You can make me laugh. You've got x-ray eyes.
You know how to sing. You're a diplomat. You've got it all.
Everybody loves you.
You can charm the birds out of the sky. but I, I've got one thing.
You always know just what to say. And when to go.
But I've got one thing. You can see in the dark.
But I've got one thing: I loved you better.
Last night I woke up. Saw this angel. He flew in my window.
And he said: Girl, pretty proud of yourself, huh?
And I looked around and said: Who me?
And he said: The higher you fly, the faster you fall. He said:
Send it up. Watch it rise. See it fall. Gravity's rainbow.
Send it up. Watch it rise. See it fall. Gravity's angel.
Why these mountains? Why this sky? This long road. This ugly train.
Well he was an ugly guy. With an ugly face.
An also ran in the human race.
And even God got sad just looking at him. And at his funeral
all his friends stood around looking sad. But they were really
thinking of all the ham and cheese sandwiches in the next room.
And everybody used to hang around him. And I know why.
They said: There but for the grace of the angels go I.
Why these mountains? Why this sky?
Send it up. Watch it rise. See it fall. Gravity's rainbow.
Send it up. Watch it rise. See it fall. Gravity's angel.
Well, we were just laying there.
And this ghost of your other lover walked in.
And stood there. Made of thin air. Full of desire.
Look. Look. Look. You forgot to take your shirt.
And there's your book. And there's your pen, sitting on the table.
Why these mountains? Why this sky? This long road? This empty room?
Why these mountains? Why this sky? This long road? This empty room?
Last night I saw a host of angels And they were all singing different songs And it sounded like a lot of lawnmowers Mowing down my lawn And up above kerjillions of stars spangled all over the sky And they were spirals turning Turning in the deep blue night.
And suddenly for no reason The way that angels leave the ground They left in a kind of vortex Travelling at the speed of sound.
And just as I started to leave Just as I turned to go I saw a man who'd fallen He was lying on his back in the snow.
Some people walk on water Some people walk on broken glass Some just walk round and round in their dreams Some just keep falling down.
So when you see a man who's broken Pick him up and carry him And when you see a woman who's broken Put her all into your arms Cause we don't know where we come from We don't know what we are.
So when you see a man who's broken Pick him up and carry him And when you see a woman who's broken Put her all into your arms Cause we don't know where we come from. We don't know what we are.
And you? You're no one And you? You're falling And you? You're travelling Travelling at the speed of light.
And you? You're no one And you? You're falling And you? You're travelling Travelling at the speed of light.
And you? You're no one And you? You're falling And you? You're travelling Travelling at the speed of light.
Strange angels – singing just for me
Their spare change falls on top of me
Rain falling Falling all over me
All over me
Strange angels – singing just for me
Old Stories – they're haunting me
Big changes are coming
Here they come
Here they come
Domingo, Novembro 09, 2003 Digas o que disseres, não digas nada
I
Escrevo logo após um jornalista inglês
“sobre isto cá da Irlanda” pedir “pontos de vista”.
E nos quartéis de inverno eis-me outra vez
onde não é notícia notícia má que exista,
onde os homens dos media farejam e perguntam
e zooms, gravadores, cabos em rodopio
põem hotéis em desordem. Os tempos desconjuntam
mas das contas de um rosário me fio
tanto como de análises e frases
da gente dos jornais, da política élite
que da longa campanha escrevinhou, dos gases
e do protesto e de armas, gelinhite,
que em seu pulsar provou “escalada”, “reacção”,
“repressão”, e “braço militar”, e “tanto”
ódio de longa dura” e “polarização”.
Porém eu vivo aqui, eu também vivo aqui, eu canto,
falo hábil, civilmente, com vizinhos civis
no arame das primeiras transmissões sem fio,
sorvendo o gosto falso, o pedernal matriz
de estafada resposta com bafio:
“Oh concordo, decerto, é uma desgraça incrível”,
“Onde é que isto termina?” “Inda o pior provoca.”
“São assassinos.” “O internamento, compreensível…”
A “voz da sanidade” está a ficar rouca.
“O tédio é o pássaro de sonho que choca o ovo da experiência. O restolhar nas folhagens afugenta-o. Os seus ninhos - aquelas actividades intimamente ligadas ao tédio - já desapareceram nas cidades, na província desmoronam-se também. Deste modo se perde o dom de escutar, e se vai extinguindo a comunidade dos que escutam. Contar histórias é sempre a arte de as contar de novo, que se vai perdendo quando as histórias já não são retidas.”
i am apprehensive. it is like when
i played the piano. first i learned to
read music and then at one point i
no longer needed to translate the notes:
they went directly to my hands. After a
while i stopped playing and when i
started again i found i could not
play. i could not play by
instinct and i had forgotten how
to read music.