«[...] Há cerca de trinta anos, um amigo recomendou-me um volumoso romance histórico do argentino Manuel Mujica Láinez, sobre o enigmático Pier Francesco Orsini, duque de Bomarzo, que se deu ao trabalho de mandar lavrar na pedra da sua propriedade uma fantástica galeria de figuras colossais, monstruosas e inverosímeis. Previsivelmente, o romance chamava-se Bomarzo, e, também previsivelmente, não estava publicado em Portugal.
Não me esqueci da referência, mas não procurei o livro. Achei, isso sim, num dos primeiros números da magnífica revista FMR [nº 12], que o editor Franco Maria Ricci começou a publicar em finais dos anos setenta uma sumptuosa reportagem fotográfica sobre os monstros dos jardins de Bomarzo. Na primeira ocasião, comprei a edição espanhola de Bomarzo, setecentas páginas em letra cerradíssima, a pedir um tempo longo de espera antes que eu tivesse tempo (ou tempo de maturação) para o abordar. O romance ficou assim, letras azuis sobre fundo branco na lombada, à espera de melhores dias, durante os últimos vinte e dois anos.
Há cerca de três semanas, ao sabor de um zapping distraído, caíram-me os olhos numa figura que imediatamente identifiquei como um dos monstros de Bomarzo. Era um documentário da BBC; fiquei a vê-lo até ao fim. Depois, com fria determinação, levantei-me e fui à estante. Senti que tinha chegado o momento: ia finalmente ler Bomarzo.
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Bomarzo é um romance de leitura compulsiva (unputdownable, dizem os ingleses), que conta a lenta, decantada, inexorável progressão do duque corcunda e aleijado para o coração das trevas, para a absoluta indiferenciação entre o Bem e o Mal, nele sublimada, segundo Mujica Láinez (de quem temos, em português, O Unicórnio, publicado em 1990 pela Cotovia), pelo seu magnum opus, as esculturas monumentais e fantásticas do jardim de Bomarzo. Neste livro, não há um único momento de tédio ou trivialidade. […]»