Lamento informar que este blog acaba aqui. "Morte súbita", disseram. Desconheço as causas. Tentaram convencer-me que era uma inevitabilidade, - porquê? - perguntei, mas a resposta não fazia sentido. "Também não houve razões para começar...", hã?, pois, está bem.
Em nome dos indiscretos, agradeço a todos os leitores a fidelidade e a dedicação; sem vocês esta janela não teria sido assim. Foram quase dois anos de descobertas, cumplicidades e risos. Foi mesmo muito bom! Muito Obrigado.
Nós vamos embora, no entanto os arquivos ficam disponíveis, pelo menos até as cores desmaiarem, e o musgo tomar conta das palavras.
Estou a chegar ao fim (deixaram-me escrever o obituário com a promessa de ser breve e sóbrio mas estou triste). Creio que está já tudo dito, resta o último fotograma.
Um blog pode ser um filme? Não sei responder, eu sou apenas uma personagem... um, dois, três e esfumo-me no ar:
Enquanto os indiscretos não regressam da tournée aproveito para desejar uma alegre semana de trabalho e umas prósperas eleições americanas para todos.... e o que tiver de ser será ...
If hands could free you, heart,
Where would you fly?
Far, beyond every part
Of earth this running sky
Makes desolate? Would you cross
City and hill and sea,
If hands could set you free?
I would not lift the latch;
For I could run
Through fields, pit-valleys, catch
All beauty under the sun--
Still end in loss:
I should find no bent arm, no bed
To rest my head.
Muitas lendas se enredam à volta desta singela florzinha representada num herbário quinhentista. A chamada erva de S. Cristóvão, que tanto intrigou o nosso amigo Luís, não se destinava apenas a curar doenças venéreas femininas ou outras enfermidades oriundas das profundezas maternas. Era também ela a flor das festas do mata-cão, quando terminava a canícula e os campos se livravam das ervas impuras e dos cães vadios e sarnentos.
Associada ao velho mito de S. Cristóvão Cinocéfalo , a planta da morte da canícula é também a for mítica das lendas populares da renovação do tempo e das metamorfoses do corpo. O cão ou o lobo, é o ser gerado pelo parto dos homens mascarados das festividades carnavalescas dos ritos campestres ou o lobo da Obra maçónica que assimila estes rituais escatológicos.
Os velhos filmes de terror não vão esquecer a lenda. No Werewolf of London(que inicialmente deveria ser protagonizado pelo dueto Karloff e Lugosi) a fantástica maldição da lupina vai atrair um jovem botânico que parte para o Tibete em busca da rara planta que só floresce à luz da lua. Como seria de esperar, os lobisomens tibetanos são largados às urtigas e o cerebral botânico acaba por libertar o seu lobo em Londres, encontrando o antídoto na própria florinha e na ansiosa namorada.
Vestido de cavalo e fina seda
e coberto de escamas luminosas
é como se tivesse uma outra idade
(a verdadeira) e o jovem corpo
capaz de atravessar muros e medo.
Inclinarias sobre a minha boca
um nome arrevesado com sabor
a terras estrangeiras visitadas
secretamente, em noite toda escura,
envolto, nu, em glória impermeável.
Vais-me dobrar em dois como se dobra
um dia que passou sem nada dentro,
o velho ardor de nuvens encardidas;
sem ver na minha voz como cantava
ao telefone a sombra da memória
do desejo que dói como um veneno.