They are not words or letters, yet they give a clear sense of what the people are saying, their tone and their manner. Wonderfully original, descriptive and humorous, Steinberg is speaking to our universal knowledge or intuition of signs. As graphologist, it is fun to analyse his graphic signs and parallel them to graphological movements. Faced with no words or letters, it is a good test of our ability to interpret the symbolism of space
Amanhã, às 18:30 h, no canal Hollywood
The Last Picture Show de Peter Bogdanovich.
I would recommend that you see this film first when you are about seventeen years old, again at about twenty-five, and then at intervals of about a decade for the rest of your life. On each occasion you will see a different film, an even better one than you saw the time before.
Grande gênero de plantas herbáceas, arbustos e arvoretas da família das malváceas, dotadas de folhas denteadas ou lobadas e grandes folhas exuberantes.
Recebemos flores. Belos Hibiscos, enviados pela Teresa.
E não é que eles trouxeram o sol de novo? Muito obrigada.
Hoje o jornal diz que as crianças conseguem distinguir um filme de um noticiário. E que isso é objecto de estudo. Sim, qualquer coisa neste mundo pode ser objecto de estudo. O que não compreendo é que se estudem as crianças como se estudam as alforrecas, das quais não se possui memória. Nunca fui alforreca, mas já fui miúda e conseguia distinguir um filme de um noticiário. Bem como a maioria dos outros miúdos. Aliás, seria de estranhar que assim não fosse - isso sim, mereceria um estudo. Talvez porque a selecção dos conteúdos permitidos ou proibidos em televisão, até certa idade, estava a cargo dos pais e não de escolhas dos editores baseadas em estudos bizarros que parecem partir do princípio de que as crianças são seres indecifráveis e tendencialmente idiotas.
posted by camponesa pragmática on 11:01
s. f.,
faculdade de conservar e reproduzir as ideias, imagens ou conhecimentos anteriormente adquiridos;
a lembrança de qualquer coisa ou alguém;
reminiscência;
aptidão para recordar especialmente certas coisas;
apontamento para lembrança;
Psic.,
conjunto de funções psíquicas pelas quais temos consciência do passado como tal, que inclui a fixação, a conservação, a lembrança e o reconhecimento dos acontecimentos;
- colectiva: conjunto dos elementos culturais, sociais e históricos que constituem as referências colectivas de um povo;
- de elefante: grande capacidade de memorização;
- de grilo: memória fraca;
- visual: faculdade de reter e lembrar posteriormente pessoas, coisas ou factos vistos;
de -: de cor;
refrescar a -: recordar ou fazer recordar algo caído no esquecimento;
varrer da -: esquecer.
Quinta-feira, Outubro 02, 2003
Chuva, por Francis Ponge
A chuva, no pátio em que a olho cair, desce em andamentos muito diversos. No centro, é uma fina cortina (ou rede) descontínua, uma queda implacável mas relativamente lenta de gotas provavelmente bastante leves, uma precipitação sempiterna sem vigor, uma fração intensa do meteoro puro. A pouca distância das paredes da direita e da esquerda caem com mais ruído gotas mais pesadas, individuadas. Aqui parecem do tamanho de um grão de trigo, lá de uma ervilha, adiante quase de uma bola de gude. Sobre o rebordo, sobre o parapeito da janela a chuva corre horizontalmente ao passo que na face inferior dos mesmos obstáculos ela se suspende em balas convexas. Seguindo toda a superfície de um pequeno teto de zinco abarcado pelo olhar, ela corre em camada muito fina, ondeada por causa de correntes muito variadas devido a imperceptíveis ondulações e bossas da cobertura. Da calha contígua onde escoa com a contenção de um riacho fundo sem grande declive, cai de repente em um filete perfeitamente vertical, grosseiramente entrançado, até o solo, onde se rompe e espirra em agulhetas brilhantes.
Cada uma de suas formas tem um andamento particular; a cada uma corresponde um ruído particular. O todo vive com intensidade, como um mecanismo complicado, tão preciso quanto casual, como uma relojoaria cuja mola é o peso de uma dada massa de vapor em precipitação.
O repique no solo dos filetes verticais, o gluglu das calhas, as minúsculas batidas de gongo se multiplicam e ressoam ao mesmo tempo em um concerto sem monotonia, não sem delicadeza.
Quando a mola se distende, certas engrenagens por algum tempo continuam a funcionar, cada vez mais lentamente, depois toda a maquinaria pára. Então, se o sol reaparece, tudo logo se desfaz, o brilhante aparelho evapora: choveu.
1. A propósito da exposição de Jean Gaumy que a Ana publicou no Boogie, resolvi fazer uma visita guiada ao Centro Português de Fotografia. Um post em construção. A entrada é gratuita.
A não perder sob qualquer pretexto: o belíssimo “L’innocente” de Luchino Visconti. Logo às 21h00 no canal Hollywood.
Há informações preciosas aqui ao lado.
A Leitura Partilhada está a partilhar mais um livro. Trata-se, desta vez, de "Os Papéis de K." de Manuel António Pina. Quem já leu o livro, pode passar por lá e deixar o seu comentário. Ainda não o li. Mas acredito que merece bem uma leitura, em breve. Quando li o título deste livro, na vitrine da Latina, lembrei-me doutros papéis de K. de Raul Brandão.
O livro que se segue é As Ondas de Virginia Woolf. No dia de 13 de Outubro começa então a partilha de opiniões, de percepções sobre o livro.
Entretanto, recebi há pouco um mail que me avisava que haverá um encontro pra se falar sobre o livro no dia 15 de Outubro, às 21.30 na Biblioteca Almeida Garrett.
"Quis fazer de maneira a ter-se a ideia de que esta gente humilde que, à luz do seu candeeiro come as batatas tirando-as ao mesmo tempo da travessa, foi quem cavou a terra em que as batatas foram cultivadas; este quadro evoca, pois, o trabalho manual e sugere que estes camponeses mereceram honestamente aquilo que comem."
"(...) não se devem filmar acontecimentos cujas características essenciais não possam ser captadas pela vista. Um tiro de revólver pode aparecer como o ponto central num filme mudo; um realizador inteligente poderia dispensar o ruído real do disparo. Para o espectador, bastaria ver o revólver a disparar e, possivelmente, a queda do homem ferido. O filme As Docas de Nova Iorque, de Joseph Von Sternberg, sugere um tiro de uma maneira possível: um bando de pássaros que se levanta, subitamente, assustado."
breves notas sobre a batata doce (especial para suavizar melindres gastronómicos nortenhos)
1. A batata doce não é uma batata normal com açúcar em cima.
2. Veja-se a diferença entre os exemplares: à esquerda, batatas desenxabidas; à direita, batatas doces.
3. A batata doce é mais escura, a casca é avermelhada, a forma retorcida e sinuosa e, frequentemente, tem barbas.
4. Aparece nos supermercados e nas mercearias mais ou menos nesta altura.
5. Então compram-se umas vinte, levam-se para casa, lavam-se, limpam-se, não se descascam, dá-se-lhes uns cortes pequeninos (uns furinhos com uma faca), metem-se num tabuleiro e levam-se a um forno bem quente.
6. Se o vento estiver a preceito, daí a 1 hora estão prontas; se não estiverem é chegada a altura de saltitar de 10 em 10 minutos em redor do forno espetando-lhes palitos amiúde até estarem macias.
7. Retiradas do tabuleiro, abrem-se exactamente como se abrem os figos maduros, pressionando a parte de baixo enquanto os polegares afastam a parte de cima da casca.
8. Desse maravilhoso rasgão deverá emergir um puré amarelo intenso e escuro ainda mais maravilhoso e que é quase tão doce como os figos, embora não tenha o sabor dos figos, nem de batatas normais assadas com açúcar, mel ou caramelo por cima.
9. O puré amarelo sabe a batata doce.
posted by camponesa pragmática on 17:25
Algumas coisas a fazer no Dia Mundial da Música
- Não esquecer de arranjar bilhetes para o ciclo de cinco Concertos que começa hoje e termina dia 31 de Outubro no Teatro São Luiz em Lisboa, e preenchido - entre outras obras - com os cinco concertos para piano e orquestra de Beethoven. No último dia toca-se o Concerto nº 5, que desnecessariamente passou à história como "O concerto do Imperador" (quando a música é suficientemente grandiosa e empolgante para dispensar qualificativos de qualquer espécie ). Este é mesmo a não perder! Artur Pizarro, António Rosado, Miguel Borges Coelho, Jorge Moyano e Pedro Burmester serão, por esta ordem, os solistas nestes cinco concertos. Mais pormenores aqui.
- Perguntar angustiadamente se ainda haverá bilhetes para o concerto da Orquestra Gulbenkian onde serão tocadas as três últimas sinfonias de Mozart. Dia 9 e 10 de Outubro...
- Lembrar-me de arranjar um dia destes o último disco dos Broadcast (entretanto matam-se as saudades da voz de Trish Keenan com o saudoso, tremeluzente e hipnótico The Noise Made by People.
- Escrever na agenda os Encontros de Músicas do Mundo no Bar Agito que as Crónicas da Terra vão organizar este Sábado
- E a propósito, já sabem do estrondoso SONS EM TRÂNSITO II? Um cartaz fenomenal faz antever nova excursão musical, desta vez a Aveiro.
1. Gosto do artigo/opinião do arquitecto Jorge Figueira sobre a Casa da Música. Está nas páginas de cultura do Público. Apesar de não estar on line digitalizei-o e já pode ser lido aqui.
2. Não perder a exposição que está em Serralves . Os cartazes que andam por aí são muito bonitos.
ENVISIONING ARCHITECTURE: COLECÇÃO MOMA Trata-se de uma grande exposição que reúne cerca de 100 anos de arquitectura, apresentando a extraordinária colecção de desenhos de arquitectura pertencente ao acervo do Museum of Modern Art (Nova Iorque), do projecto de Otto Wagner Ferdinandsbrücke (1896) até ao projecto de Lauretta Vinciarelli Orange Sound (1999). Esta exposição surge num momento importante da História do Desenho em Arquitectura, quando este meio e processo passa por uma enorme transformação, do esboço rápido à intrincada realização de desenhos por computador. Dentre os numerosos nomes de arquitectos relevantes do século XX com projectos incluídos na Colecção, destacam-se os de Tadao Ando, Mario Botta, Peter Eisenman, Norman Foster, Buckminster Fuller, Frank Gehry, Zaha Hadid, Louis Kahn, Rem Koolhaas, Le Corbusier, Daniel Libeskind, Richard Meier, Oscar Niemeyer, Mies van der Rohe, Frank Lloyd Wright.
Comissariado: Matilda McQuaid
Produção: The Museum of Modern Art, New York
19 de Setembro a 31 de Dezembro de 2003
3. A acompanhar a exposição haverá outras actividades. Recebi ontem a programação de cinema. É um primor! Mais logo completo o post.
O Outono já chegou. Chove, o tempo arrefece, veste-se uma camisola, arrumam-se as sandálias, apanham-se as uvas, compram-se cadernos novos, fazem-se mil planos,… escolhem-se as músicas que nos confortam… sim é aí que quero chegar: vamos escolher as canções perfeitas para este Outono!
Era para ser diferente, a ideia surgiu em Agosto: na estação seguinte iriamos fazer uma emissão especial da Íntima Fracção! O Outono é a estação perfeita da IF, nas cores, nos recolhimentos, na nostalgia. A colectânea seria preparada aqui nos blogs (na Janela e na Íntima Fracção ) e depois seria transmitida pela rádio.
Mas as coisas mudaram, neste momento a IF está silenciada na rádio.
Porém aqui não, aqui continua-se a ouvir.
O que é que é o Outono? É o fim ou o princípio? São as saudades do Verão passado ou as promessas de um outro? O que é que é para vocês? E quais são as canções de Outono? Enviem-nos sugestões.
O Francisco Amaralé o nosso convidado especial, será ele a fazer o alinhamento da colectânea, será ele a encontrar a Íntima Fracção do Outono, o traço azul do futuro incandescente.
É uma das palavras mais antigas que conheço. A primeira e a última perspectiva. A perspectiva viciada. A guerra e a paz. No ano os meses dispõem-se num círculo. De Outubro olham-se todos os outros meses e em todos os outros meses Outubro está presente. O ano que passou. O ano novo.
Os anos sucedem-se em espiral. Este sobrepõe-se ao último, consagra o último, fecha e conclui o último, apaga o último, devolve-o ao tempo que o consome, corrompe e arruma. Segue-se em frente, segundo o arbítrio da memória, racional e irracional, segundo o capricho dos dias, da memória tirana do vento que sobrepõe as horas, o sol, o som das tardes, o cheiro da lenha, o frio, a chuva, os recantos sombrios da casa, o calor áspero da lã.
Chegam as romãs, as nozes, as avelãs. E os tabuleiros de batata doce, iguaria que os meus amigos do Norte dizem, com um esgar aterrorizado, ser uma coisa do Sul, uma coisa do paladar bizarro e da tradição incompreensível dos mouros.
Os pinheiros não perdem as folhas mas o cheiro da resina é ausente. Calam-se as cigarras ao meio-dia e os jardins estão desertos. Depois da chuva, a cidade amanhecerá quieta e luminosa e não conseguirei dormir com medo de perder o sol.
Dizem-me que é necessário viver cada estação, gostar dos contrastes, desejar o frio depois do calor. Gosto do mar agreste de Outubro, das praias desertas, do trânsito bloqueado e ruidoso, de invadir o espaço das gaivotas e que me gritem, que me inquietem, que o vento sopre frio e que a lua surja entre os ramos nus das árvores. E mais não sei.
Outubro é o mês das melhores esplanadas; por alguma razão, talvez porque os donos ainda esperam o Verão de São Martinho, permanecem armadas e desertas, as cadeiras vazias sob a ameaça da chuva, a luz cinzenta muito clara à espera de um livro. Um livro em que seja Verão outra vez. Um livro em que um filósofo angustiado vingue o fim do Verão e, só por isso, esmigalhe o mundo.
Até ao solstício de Inverno o tempo parecerá estagnado. Procuro o Spleen de Paris como as chaves de casa, em frente à estante desarrumada, em frente à porta. Não sei se gosto deste mês e do tempo que consagra. Sinto-me bem. É habitual, simples, luxuoso. Enrolo-me num cobertor. Hiberno. Esqueço-me dos dias que faltam até à longa noite após a qual o sol reconquista os dias e tudo principia a renascer; e anoto-os nas margens dos livros, distraída.
posted by camponesa pragmática on 02:54
"É meu desejo que, ao ver as imagens deste filme, os espectadores compreendam o que vão perder se não impedirem a destruição dos recifes de coral". Foi com esta frase que Leni Riefenstahl assinou no ano 2000 o seu último grande filme.
A impressão profunda que o mar e em particular a vida marinha dos corais lhe causavam ficou ali ilustrada nas imagens captadas por Horst Kettner, operador de câmara e seu assistente permanente durante mais de trinta anos.
O mar foi de resto a última grande paixão da vida da controversa realizadora alemã, e justificou a sua quinta carreira profissional, talvez a menos conhecida do grande público.
"Tirar da alma os bocados precisos – nem mais nem menos" (Álvaro de Campos, Apostila)
(colagem/técnica mista 53 x 48 cm)
"Hup-la, hup-la – Pessoa visual" é a primeira exposição individual de Sara Huete (n. Santander, 1962) em Portugal. Para esta mostra a artista espanhola realizou um conjunto de trabalhos baseados na obra poética de Fernando Pessoa.
Durante a exposição é possivel comprar as edições da Assírio & Alvim das obras de Fernando Pessoa a preços especiais.
Galeria ARTFIT | Arte Contemporânea
Lisboa, Rua Teixeira Pascoaes,11B. De 3ª a sáb. das 15h às 19h30. Até 25 de Outubro.
It's four in the morning, the end of December
I'm writing you now just to see if you're better
New York is cold, but I like where I'm living
There's music on Clinton Street all through the evening.
I hear that you're building your little house deep in the desert
You're living for nothing now, I hope you're keeping some kind of record.
Yes, and Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Did you ever go clear?
Ah, the last time we saw you you looked so much older
Your famous blue raincoat was torn at the shoulder
You'd been to the station to meet every train
And you came home without Lili Marlene
And you treated my woman to a flake of your life
And when she came back she was nobody's wife.
Well I see you there with the rose in your teeth
One more thin gypsy thief
Well I see Jane's awake --
She sends her regards.
And what can I tell you my brother, my killer
What can I possibly say?
I guess that I miss you, I guess I forgive you
I'm glad you stood in my way.
If you ever come by here, for Jane or for me
Your enemy is sleeping, and his woman is free.
Yes, and thanks, for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried.
And Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
E para combater a depressão pós-Verão (para quem a ela é atreito) nada melhor do que um anti-depressivo feito de nostalgia de Verão. Aconselha-se esta infusão galesa chamada How I Long to Feel that Summer in my Heart, fabricada pelos Gorky's Zygotic Mynci. Os efeitos não são garantidos e a melancolia de algumas canções pode mesmo agravar os sintomas da chegada do Outono (vontade de mudar de hemisfério, vontade de chamar Estúpido Macaco Reprodutor* a alguma das pessoas que têm a infelicidade de cruzar o nosso caminho nesta altura complicada do ano), mas vale a pena correr o risco.
* tradução mais ou menos livre de Gorky's Zygotic Mynci, se bem se lembram da nossa compilação primaveril.
O Pintainho, li no blog do Rui MCB, acabou. Fui lá. Acabou mesmo. Não sei porquê.
Eu gostava do Pintainho. Deveras. Havia pios linkados para outros blogs, mas não era à toa. Por exemplo, o Pintainho linkava o Abrupto em posts com muitos muitos muitos pios. Fazia sentido. E nos dias em que não linkava nada, o Pintainho escrevia um post simples com um ou dois ou três pios e assim retratava toda a blogosfera onde se pia todos os dias qualquer coisa, no matter what.
Havia pios em minúsculas, pios em maiúsculas, pios em minúsculas e maiúsculas, pios com as letras unidas, pios com as letras separadas por traços, pios com letras separadas por linhas, pios com pontos finais, pios com pontos de exclamação, pios sem pontuação.
Eu pensava no Pintainho como o último sentido do riso, o mais inteligente e o mais triste sentido do riso. Também fora da blogosfera se pia. Toda a humanidade pia. Com mais ou menos ênfase, mais ou menos conteúdo, tudo o que fazemos e dizemos é, literalmente, um pio.
Esta ideia resultava hilariante. E comovente porque, por outro lado, não menos importante, o melhor da humanidade é que pia sempre - apesar de, contra e com a pequenez, a fugacidade, o abandono, o absurdo, as contradições todas do mundo. Piamos e ainda bem. De qualquer forma falta ainda muito tempo para o Sol começar a crescer como uma barata tonta desesperada em busca de energia, engolir Vénus e nós entrarmos em pânico com a consciência de não sermos mais que um pio e de todos os nossos livros irem arder.
Dizia-se muito no Pintainho. Lamento que tenha acabado tão depressa.
Um post da Ana aqui há dias sobre memória de cheiro e algumas recentes viagens de comboio levaram-me a recuperar Yesterday was Dramatic, Today is OK, e a recordar como este lindíssimo disco dos Múm é uma perfeita banda sonora para viajar. Respirar a candura da música dos Múm em temas como Awake on a Train ou Asleep on a Train enquanto vemos a paisagem deslizar velozmente pelas janelas é uma experiência encantadora. Aliás todo este disco é encantador. Há um lado que nos toca imediatamente: o da atmosfera calorosa e quase infantil construída por esta conspiração de electrónica com instrumentos acústicos (ouçam-se as interjeições do acordeão, irrompendo e desvanecendo-se em Asleep on a Train como pequenos fogos de artifício); mas há igualmente todo o engenho, toda a quantidade enorme de pequenos e deliciosos pormenores sonoros que sucessivas audições vão desvendando. Descobrir este disco é uma viagem maravilhosa.
(E que tem a memória de cheiro a ver com isto? uma das mais engenhosas faixas deste CD chama-se justamente Smell Memory).
Há instantes estive no site da Fundação Beyeler em Basileia na Suíça e fiquei a saber que está a decorrer duas excelentes exposições, uma delas dedicadas ao pintor Mark Rothko que é uma celebração do seu centenário. A outra reúne uma centena de obras de Paul Klee produzidas entre 1933 e 1940, o ano da sua morte. Esta última decorrerá até 9 de Novembro de 2003, enquanto que a do Mark Rothko estará até 12 de Abril de 2004.
posted by Lídia on 15:47
Henri Cartier-Bresson
da esquerda para a direita: Santa Clara Mexico, 1934; Pierre Bonnard, 1944
De Barcelona chega-nos uma boa notícia. Foi o Alejandro Díaz, nosso estimado leitor, que nos alertou para uma belíssima exposição de fotografias de Henri Cartier-Bresson, inaugurada no dia 19 de Setembro e que se prolongará até 4 de Janeiro de 2004. Uma boa razão para preparar uma viagem à Catalunha.
Ésta es la primera gran retrospectiva de Henri Cartier-Bresson (Chanteloup, Francia, 1908), maestro de maestros de la fotografía y referente indiscutible de la mirada documental de todos los tiempos. Su amigo personal y gran conocedor de la historia de la fotografía, Robert Delpire, es el comisario de esta muestra producida por la Fundación Henri Cartier-Bresson y organizada por Magnum Photos y la Fundación "la Caixa".
Vinha pela avenida acima espreitando as mercearias. As romãs ainda não estão a ponto de serem comidas. É preciso esperar mais uns dias. Das romãs passei para as mil e uma noites (tenho de falar desta ligação à Ana, pensei)
E, levantando-se, foi buscar a travessa de porcelana cheia da famosa salada de romã, daquela deliciosa iguaria que tão bem sabia preparar e que havia ensinado em Baçora a Badredine, seu filho, sendo ele ainda criança. (na história do belo Hassan Bradredine)
São pequenas jóias literárias dos maiores autores, diz a editora. Uma das mais bonitas colecções de livros, digo eu. As capas são de Bernardo Marques e o formato é o apropriado para meter no bolso. Gostaria de ter mais mas os títulos que me interessam são difíceis de encontrar. Consegui estes seis. Aqui ficam, como objectos em extinção.
Gosto desta expressão. Ouço-a e imagino um frente a frente, uma contabilidade de prazeres, dores, angústias, tristezas, alegrias, … avaliada em línguas de gato e bolachas Maria, como o Vasco Santana fazia no filme. A preto & branco, também.
(eu não sei o que é que há em ti que fecha
e abre;apenas alguma coisa em mim entende
a voz dos teus olhos mais profunda que todas as rosas)
ninguém,nem mesmo a chuva,tem tão finas mãos
«O primeiro engarrafamento em São Paulo. Tempo para começar a ler minhas comprinhas numa pequena feira de livros no campus USP, dois sobre cinema -- um sobre Sokurov, uma nova moda por aqui -- e uma novela do Dostoievski em edição bastante atraente. Fico imaginando quanta literatura não se pode apreciar numa vida inteira de engarrafamentos como esse...» - Joseph Kern's Diary
posted by camponesa pragmática on 10:59
Domingo, Setembro 28, 2003
Ars Subtilior
Os faróis do automóvel iluminaram-lhe o corpo,
seguia em sentido contrário pela berma da
estrada. Afastado do mundo, meio-vazio de qualquer
idade. Parecia ter descido do nevoeiro da noite.
Recebê-lo em fino contorno assemelhava-se ao
subir de uma escada, às escuras, quando pousamos
um pé num degrau inexistente. Acompanha-nos uma
espécie de ruído metálico, rompante, como se
estivéssemos numa feira, na barraca dos tiros
e levássemos a espingarda ao ombro, premindo o
gatilho e atingíssemos o sino mais ruidoso da torre
da igreja à primeira tentativa. A voz
que nunca ouvimos, também ela, não vai passar de
uma recordação agradável que por segundos trago à
memória e os faróis do automóvel incendiaram de
um modo nítido e fugidio
que pertence há muito ao invisível, a um país
longínquo, por de mais privado.
João Miguel Fernandes Jorge, Não é certo este dizer, Editoral Presença, Lisboa, 1997.
The Part You Throw Away (Tom Waits/Kathleen Brennan 2000)
You dance real slow
You wreck it down
Then you walk away you turn around
What did that old blonde gal say?
That is the part you throw away
I want that beggar’s eyes
A winning horse
A tidy Mexican divorce
St. Mary’s prayers, Houdini’s hands
And a barman who always
Understands
Will you loose the flowers
Hold on to the vase?
Will you wipe all those teardrops away from your face?
I can’t help feeling as I close the door
I have done all of this
Many times before
But the bone must go
The wish can stay
The kiss don’t know what the lips will say
Forget I've hurt you
Put stones in our bed
And remember to never
Mind instead
But all of your letters burned up in the fire
And time is just memory mixed with desire
That’s not the road it is only the map, I say
Gone just like matches
From a closed down cabaret
In a Portuguese saloon
A fly is circling around the room
You’ll soon forget the tune that you play
Cause that is the part
You throw away
Oh that is the part
You throw away
" O mar estava calmo, o sol descia no horizonte, estendendo-se em raios amarelos, laranja, vermelhos. Ela colocou as sandálias no muro e sentou-se quase enconstada a ele, usava um perfume da mãe, um aroma a flores, que lembrava a primavera. E então ele deu-lhe o estojo de veludo com a pulseira, ajudou a fechá-la, ficaram em silêncio muito tempo, olhando para o brilho mutante das safiras. Ele disse que as safiras eram pedras do céu e ela disse que também queria esmeraldas, as pedras do inferno. Como se tivesse love escrito numa mão e hate na outra, como Robert Mitchum no filme que tinham visto juntos tantas vezes como o pregador no livro de Davis Grubb que ele encontrara nas profundezas da biblioteca, durante semanas, cantaram juntos ou para si mesmos, Leaning, leaning, safe and secure from all alarms/ Leaning, leaning, leaning on the everlasting arms. E ele disse(...)"
Ana Teresa Pereira, A linguagem dos pássaros, Relógio d' Água, 2001
Há pessoas que nos assustam mais do que o escuro, do que as sombras na parede, do que o vento nas noites de tempestade. Nunca esqueci as suas mãos e as letras tatuadas nos dedos, em azul, "Love", "Hate". Como John compreendeu desde o princípio, a mão direita era uma mentira, ele tinha ódio escrito nas duas mãos e nos olhos que por vezes eram cinzentos, por vezes de um azul de aço: "Aw, have a heart, boy!" John e Pearl (como Miles e Flora em "The Turn of the Screw" e Anne e Nicholas em "The Others" de Alejandro Amenábar) são uma criança dividida em duas, num mundo demasiado grande, demasiado escuro, numa história que tem a realidade dos pesadelos, a mais íntima, aquela de que somos feitos.
Talvez seja só uma história que Lillian Gish conta às crianças numa véspera de Natal, numa noite gelada, enquanto a neve cai no telhado e no jardim e a caixa do correio continua vazia. A história de um pregador que tem algo de coruja, algo de Barba Azul, de um homem que assalta um banco e esconde o dinheiro numa boneca, de um menino atormentado pelo juramento que fez ao pai morto, de uma menina que conta histórias à sua boneca (no filme canta a história, num barco que desce o rio entre plantas e teias de aranha, e pequenos animais, e estrelas), de uma mulher que tem por única riqueza um corpo bonito debaixo das roupas velhas e a recordação do homem que lhe beijava os ombros quando iam nadar, e termina no fundo do rio com o cabelo como ervas dos prados espalhadas na água; e de uma mulher que é uma velha árvore com muitos ramos, que pode acolher muitos pássaros ou muitas crianças e sabe que o mundo é um lugar terrível para os seres pequenos.
O autor de "The Night of the Hunter", Davis Grubb, cresceu junto do rio Ohio (e que bem fala dos nevoeiros matinais, da neve que derrete nos telhados, dos barcos), escreveu livros com títulos como "Ancient Lights" ou "Titian Venom". A novela tem o ritmo de uma canção de embalar, está cheia de sonhos e de medos e de versos de hinos Gospel, é um mundo onde tudo está vivo, sentimos os cheiros das plantas e dos animais, dos objectos na casa de antiguidades, do leite e da amêndoa na loja de Icey, o grito de todos os pássaros, de todos os bichos ("By the river, under the fog, the green frogs chanted their unending litany of love"). "A Sombra do Caçador" foi o único filme realizado por Charles Laughton, Robert Mitchum representa o seu papel mais inquietante, durante anos procurei nos seus dedos as palavras "Love" e "Hate", era tão estranho que tivessem caído como tinta ao fim de algumas lavagens de mãos. Acho que ficou sempre nele um pouco de Harry Powell, fazendo nascer sombras nas paredes e assassinando mulheres, conversando com Deus, "Your Book is full of killings, Lord", lembro-me dele ao longe, a cavalo, cantando "Moses", leaning, leaning... (e a noite em que ele estava do outro lado da rua e Lillian Gish sentada no alpendre com a espingarda no colo, ele eterno caçador, bicho mau, ela com as suas mãos e as suas histórias, e cantavam o mesmo hino, numa quase cumplicidade, num dos momentos mais estranhos do filme, num dos momentos mais estranhos do cinema). Ele passa ao longe, ele que nunca dorme, e a sua voz ergue-se num canto ao Deus que, como John suspeita por vezes, talvez seja um deles, e a sua voz torna a noite mais funda e mais terrível, a noite cheia de caçadores e de presas, lembro-me de Ruby que quase corre ao seu encontro, só porque lhe deu uma revista de cinema e lhe disse que era bonita, e de Pearl que corre para os seus braços desde o princípio do filme. Lembro-me dele nos meus pesadelos, desde sempre, quando tinha a idade de Pearl, talvez. E ainda me lembro de como o amei.