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sexta-feira, julho 30, 2004  

Je vous ai apporté des bonbons

ou: Método para percorrer a "Biblioteca" de Gonçalo M. Tavares

Pego no livro e abro-o ao acaso: páginas cento e sessenta e quatro, cento e sessenta cinco. Os olhos escorregam para o canto inferior direito:
Thomas Bernhard
O cérebro quando toca nos objectos.
Como um alimento que se come, o que se pensa não é de imediato esquecido, tal como o que se come não é expulso de imediato. O Homem é 30 por cento de esquecimento. Depois há o lado dos alimentos e da curiosidade.
O cérebro quando pensa num objecto, agarra num objecto. Quando esquece, larga o objecto.


Largo o livro. Quando volto a ele procuro um nome, como na lista telefónica. Página setenta e quatro, não me decido pelo primeiro ou pelo segundo, Heinrich von Kleist ou Henri Michaux?
Almoço com Henri Michaux, disfarçado de Plume:
Era um homem que tinha um apetite de vencedor mas um número de moedas de vencido. Em frente ao restaurante caro sacou da imaginação e contou uma história ao empregado que lhe havia apresentado a conta obtusa. Era uma vez um homem que contava histórias para não pagar a conta de um restaurante rico, e o empregado encantado com a história deixou-o sair sem pagar. Era esta a história. Henri olhou para o empregado para verficar se ele tinha gostado, e mais que isso, compreendido. O empregado disse: em dólares, por favor.

E agora? Eu não pago! Sigo a ordem alfabética? Letra "a", de Adolfo Bioy Casares, Adorno, Alan Watts, Albert Camus, Aldous Huxley, Amiel, Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto, André Breton, Antoin Artaud, Apuleio, Aragon, Aristófanes, Aristóteles, Arquitas de Tarento, Arhur Adamov e Arthur Miller. Páro aqui:
Nenhum homem é feliz apenas com um frigorífico, um ordenado, uma mulher e duas cervejas. Nenhuma lâmpada tem tanta luz que baste uma lâmpada para permaneceres alegre por dentro.
Tenho que sair - disse ele, e bateu com a porta.


Saio. Levo o livro no saco, só pesa duzentas e noventa gramas. Entro no autocarro. A página noventa e oito é a cave de Lautréamont, somos bonzinhos até ao limite em que a bondade nos prejudica seriamente a nível muscular e financeiro, explica o Conde. O sangue desata a correr e a respiração acelera. Preciso de ar, na página cento e setenta subo ao terraço com o Tonino Guerra, para espreitar a cidade. Pela janela, sob sol de Itália toca um telefone, é Cesare Pavese.

Distraio-me e esqueço o livro no autocarro. Alguém o encontra, abre-o inesperadamente na página cento e setenta e sete e lê, pela primeira vez na vida, W. B. Yeats:
Nenhum poeta ficará contente se ficar só com a dança e o modo de tocar nos vivos, e se perder a maneira como o ouvido gosta que as palavras toquem umas nas outras.

Os itálicos são da "Biblioteca", de Gonçalo M. Tavares
Campo das Letras, colecção Campo da Literatura # 106, 2004

posted by cristina on 15:37


 
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