mascara da Mesopotâmia Os carnavais, época de inversão da ordem e festas de mundos às avessas em que se dava livre curso aos instintos, já existiam na Babilónia. No século III aC. Beroso, sacerdote babilónico de Baal, redigiu as Babyloniaka onde descreve as festas que decorriam no mês da Lua (possivelmente em Julho). Durante cinco dias o poder era invertido. O rei escolhia um condenado à morte e permitia que ele vivesse no seu palácio, usasse o seu trono bem como todas as suas concubinas. Mascaravam-se e embebedavam-se em conjunto e no último dia o condenado era chicoteado e no fim acabava empalado ou enforcado. Depois da ocupação da Babilónia pelos Persas, os judeus da diáspora passam a celebrar a festa do Pourim em memória da libertação do cativeiro da Babilónia. Pourim significava sorte, destino—recordando o dia em que Aman, conselheiro do rei, inimigo feroz dos judeus, tirou à sorte a data para exterminar da comunidade. O Pourim correspondia ao período que precede a Páscoa, reeditando o primitivo milagre de Ester, jovem judia que o rei havia tomado por esposa sem saber da sua origem hebraica. No dia da festa, quando todos se vestiam de loucos, bebiam e gritavam os nomes de Aman e Marduk até os confundirem, Ester teve a coragem de interceder pelos judeus junto do rei Ahashverosh, conseguindo a libertação do seu povo.
No mundo romano as festas das bacanais, saturnais e Lupercais têm função catártica idêntica, permitindo a crítica e sátira aos próprios governantes. As saturnais decorriam por altura do solstício de Inverno, em honra do deus do tempo, Saturno, instituídas, segundo a lenda, por Janus, seu companheiro que com ele aprendera a arte da agricultura. Invocava-se o poder mortífero do deus, para o superar, permitindo a continuação do ciclo da vida. Janus, o deus das duas caras: uma virada para o passado e outra para o futuro; representava a geração sujeita ao esforço e ao trabalho e o sonho mítico do regresso a uma primordial Idade de Ouro. Durante este período festivo os escravos tomavam igualmente o lugar dos senhores, jogando todos em conjunto as sortes em grandes folias e mascaradas. Os tribunais e escolas fechavam e o caos e desordem colectiva terminava num “corso” em que se oferecia um carro à protectora dos navegantes, o carrum navalis. Em Fevereiro ocorria a festa dos luperques (luperalia) em honra de Pã e dos faunos. Os sacerdotes banhavam-se em sangue de cabra e perseguiam as pessoas vestidos com peles de bode. As raparigas virgens acreditavam que seriam bafejadas pela fertilidade ao serem alcançadas pelos luperques. O festejo parece ter origem na lenda etrusca dos gémeos alimentados pela loba, o que explicaria o uso de máscaras de lobo bem como posterior associação aos lobisomens. da esquerda para a direita: mosaico de Pompeia, festejo carnavalesco; Pompeia, Casa dos Mistérios, cena de flagelação
Janus bifronte,cadeiral francês, séc.XVI A memória destes festejos pagãos não desaparece no mundo cristão, acabando por se entrosar com os festejos da Igreja. O uso das máscaras com figuras de animal tem igualmente origem nas antigas religiões primitivas, como é o caso dos festejos ao deus Cernunnos (veado) nos países celtas. A própria palavra máscara aparece referida pela primeira vez num texto lombardo da Alta Idade Média (643), relacionando-se com strige e também com o termo indo europeu mask significando fantasma negro; aparição demoníaca. No século XIII passa a designar falsa cara. O cristianismo vai associá-la ao diabo, mestre da máscara e da ilusão. O homem não deve modificar a sua imagem, já que foi feito à semelhança de Deus. Os festejos pagãos e carnavais vão ser criticados e mesmo proibidos pela Igreja mas, tal como acontecera com as interdições dos imperadores romanos, vão continuar a ser feitos, ainda que Savonarola instigue as procissões dos penitenciais, as vanitas Nestas “fogueiras de vaidades”queimaram-se publicamente jogos de cartas, músicas profanas, livros de poesia, máscaras; pinturas e escritos e no final entronizava-se o príncipe da vanglória. Mal saberia o inflamado pregador que viria a ter o mesmo fim...
O carnaval, cuja origem etimológica parece estar associada a carne levale colocar de parte a carne; no sentido do período que antecede a Quaresma, tem também uma remota ligação ao triunfo da Morte e às Danças Macabras. Na tradição germânica representava-se a vitória da Morte a cavalo, acompanhada de fantasmas que se penitenciavam em lamúrias de voz de falsete. Noutros casos triunfavam os mortos vingadores, como aparecem no Romance de Fauvel (1330) ou os festejos em torno de Santo Antão abade, patrono dos animais, em particular dos porcos, cujos pés se penduravam nos portais das igrejas de modo a esconjurar as almas penadas. Ordoric Vital, historiador normando do século XI, descreveu umadessas visões místicas, que teria ocorrido no 1º de Janeiro de 1091 (ver Mikail BAKHTIN, François Rabelais et la culture populaire au MoyenAge et sous la Renaissance, Gallimard, Paris, 1970, p. 388). " Regressando da cabeceira de um doente a uma hora avançada da noite viu "Armada de Arlequim" a desfilar na estrada deserta. Arlequim figurava armado de uma maça monumental, assemelhando-se a Hércules. À cabeça vêm homens vestidos com peles de animais que transportam uma utensilagem de culinária doméstica. Depois, outros homens transportando caixões sobre os quais estão encavalitados homens com cabeça enorme com várias canastras na mão. Seguiam-se dois etíopes com um cavalete de tortura, em cima do qual um diabo supliciava um homem, enterrando-lhe esporas de fogo no corpo. Depois vinha uma multidão de mulheres a cavalo, saltitando sem parar nas selas guarnecidas de pregos incandescentes. Entre elas destacam-se virtuosas damas que iam mais mortas que vivas. Seguiam-nas o clero. Para fechar o cortejo vinham guerreiros empunhando espadas de chamas... Era a procissão das almas errantes do purgatório que procuravam redimir-se".
O Romance de Fauvel (manuscrito na BNF), teve adaptação musical, podendo considerar-se a mais antiga representação de um charivari em cacofonia e sátira carnavalesca. O herói é um cavalo, de nome Fauvel, que se amantizou e está prestes a consumar a noite de núpcias, quando um bando de espíritos malignos irrompe em corso junto à porta de casa, num charivari demoníaco, estragando-lhe a noite. A procissão é composta por jograis que tocam bombos e outros instrumentos ruidosos, acompanhados de danças e gestos obscenos. Vêem-se judeus que mostram o rabo e bêbados desregrados. Nas ilustrações que acompanharam o texto, pode ver-se um carro cheio de crianças, conduzido por um gigante com um toucado em forma de asas. É o antecessor do Arlequim da Comedie dell'Arte o gigante que transporta as almas dos mortos no carro naval.
Romance de Fauvel
Os fastos carnavalescos medievais prendem-se também com outras festas populares como as dos Loucos, dos Inocentes ou a Festa do Burro e da Garrafa. Como refere Jacques Heers (Festas de Loucos e Carnavais), nestas festas tudo parecia permitido. Os clérigos celebravam os ofícios mascarados de mulher ou de loucos, dançavam pelo igreja de garrafa na mão e grandes presuntos debaixo do braço, cantavam todo o tipo de cantigas indecentes e rezavam missas às avessas, em louvor de uma garrafa do precioso líquido ou de um burro entronizado e a festarola acabava ao ar livre em monumentais patuscadas e jogatinas licenciosas. Estava implícita uma complacência para com os mais desprotegidos (crianças e loucos) e, apesar das directivas de Concílios, as festas continuavam a realizar-se. Elegia-se o papa ou o bispo dos loucos; invertiam-se os papeis sociais com frades mascarados de reis e duques e desfilavam todos, acompanhados da população, num autêntico corso carnavalesco.
Mãe Louca, séc. XV, Dijon. O carnaval era também a festa da abundância; uma espécie de País da Cocanha incarnado na Terça Feira Gorda. Desde o século XIII que era hábito teatralizar-se a alegoria no combate entre o Entrudo- gordo e folião e a Quaresma-velha esquelética e sorumbática. A picaresca disputa decorria na praça da cidade, geralmente junto ao mercado como Brueghel tão bem documentou. O jejum está para breve-vêem-se já os peixes a serem amanhados junto ao poço. Do lado do Carnaval o povo folião ainda goza os últimos momentos do desvario. Do lado da Quaresma o clero parece retomar o status quo com três tristes e secos arenques por refeição. Há que manter as aparências, que num nada se desforravam no regresso ao convento... Tudo isto tenderia a ser integrado pelo poder político em triunfos que mais serviam para enaltecer o príncipe que o povo, como no caso dos Médicis, em Itália ou na festa cortesã do Carnaval de Veneza. Depois a Reforma dará a maior machadada na irreverência da tradição popular e a partir do século XVII as Festas de Loucos tendem a cair em desuso.
Brueghel,Luta entre Carnaval e Quaresma, 1559.
Na Origem da Tragédia, Nietzsche glorifica diagnostica o mal da sociedade contemporânea como a perca da festa, da capacidade de conciliar a Ordem com o Caos; o espírito apolíneo com o dionisíaco. A moral cristã parecia-lhe a responsável por este triste ressentimento de uma cultura que se deixara ancorar em excesso do logos e da razão. É capaz de ter sido injusto no que respeita ao passado medievo da Igreja, mas o que não sabia é que aquilo que a moral não mata, acaba por se dissolver no laicismo da "festa" permanente dos media e da sociedade de consumo... E o problema não está no consumo, está mais no enjoo... Por mim tenho pena e gosto muito da bagunça nocturna do Carnaval e Torres, já que nem sempre dá ir até Orense... ";O)
Bibliografia: Mikail BAKHTIN, François Rabelais et la culture populaire au MoyenAge et sous la Renaissance, Gallimard, Paris, 1970 ; GAIGNEBET, Claude, Lajoux, J. Dominique, Art Profane et Religion Populaire au Moyen Âge, P.U.F., Paris, 1985 ;Jacques HEERS, Festas de Loucos e Carnavaispublicações D. Quixote, Lisboa, 1987..
posted by zazie on 21:05