Oh, se as aves cantassem e as nuvens suspirassem de afecto
e o olho, acentuando o seu azul ao perseguir a coloratura,
pudesse distinguir as chaves na porta e, por cima, um tecto,
e aqueles que agora já estão em parte nenhuma.
Caso contrário, tudo não passa duma mudança de cadeiras
e de sofás. E de flores encaixilhadas nas paredes e em vasos.
E se houver no mundo uma abelha sem colmeia
e com excesso de pólen nas patas, essa abelha és tu.
Oh, se um dia lá no azul profundo as coisas transparentes
conseguissem separar a rédea à sua invisibilidade
e se condensassem numa estrela ou lágrima neste
lado da estratosfera, e depois, em todo o lado.
Mas, visivelmente, o ar parece ser apenas o fio com que se fez
a renda no bastidor, no parque onde o czar se dava ao pastoreio.
E as estátuas gelaram como se no pátio das alunas nobres
houvesse um decembrista, posteriormente executado, e chegou Janeiro.
Joseph Brodsky, "Paisagem com inundação" (tradução de Carlos Leite, edição da Cotovia)