Bartleby é um dos escritos «proféticos» da passagem, no século XIX, à modernidade. O abandono do protagonista responde ao desassossego de Wall Street, a quietude gera a lúcida exasperação de quem irá contar a história, de quem pode, desvendando-se sem o saber, contá-la, na medida em que o consentem a verdade e a «hipocrisia» das relações humanas, a sua arte.
Melville inicia esta curta novela como começara Moby Dick: com o balanço de um verso, talvez interrompido, que se torna épica moderna. Uma réplica, ou a resposta ao anonimato, tantas vezes feliz, de uma situação nascente — que desencadeará a maior quantidade possível de diferença individual — faz com que Melville convoque nomes: Typee, Benito Cereno, Moby Dick, Bartleby, John Marr, Billy Budd, que elucidam uma busca insana, um movimento imparável. Este retrato interposto do homem sozinho, acompanhado pelas nossas cidades, podendo optar por uma espécie de acção negativa, mortal, pela meditação ou reclusão junto ao muro, ou pela sua exclusão, é uma via — a não exaltante — do nosso tempo prefigurada. Quer a vejamos à maneira extremo-oriental, quer num misticismo invertido, cristológico, quer como denúncia do farisaísmo social e do próprio lugar de escrivão.
Pelo desespero activo e veloz, pelo humor (e pela ironia que talvez Melville use contra o refúgio optimista do Transcendentalismo), por ser contado por outro, pelo que um tal desespero possa ter de transfigurador — que é o curso da modernidade — pela mistura mesma de uma semelhante música que é poema e romance, conforme clareia ou não, Bartleby mostra-nos como se entrega à aniquiliação que uma voz ordenada e comiserante ressuscita.
Convocar outros paralelos, ressonâncias, a parábola legal da escrita, será interessante somente como confronto entre verificação e metamorfose — e as suas transformações. Linhas que se cruzam: Gogol, Dostoievski (Memórias do Subterrâneo), Poe (O Homem da Multidão), Hawthorne (Wakefield), tipos de alpergatas em Conrad, balcões e bancos de Henry James (e também A Fera na Selva), a tranquilidade atroz, em abismo, de Kafka, Musil, os homenzinhos de Eliot, os heterónimos de palha viva em Pessoa (e os amanuenses da Baixa), o anonimato nomeado de Beckett, talvez que de certo modo «Mr. Bleaney» de Larkin, «as pequenas estatuetas de sal» dos poetas de Leste, certas figuras de Lu Xun.
Acaso no andar de tanta poesia deste século (sobretudo americana) pela urbe, na recusa do protagonista, na trivialidade ofuscante de um quotidiano que brilha, se possa ver um arco que vem de Emily Dickinson, ao mais recente da arte nos EUA (quer dizer, em quase todo o lado).
Mas, e o desamparo bíblico de Bartleby, o seu desconcerto?