O carro não anda, “é um problema qualquer no motor de arranque”, explicou-me o senhor da garagem. Altero os planos, vou passear a pé. Primeira paragem: Papélia, na Rua de Santa Catarina, para comprar uma prenda muito especial e espreitar as montras mais bonitas que conheço, feitas de lápis e blocos em combinações geométricas perfeitas. O Majestic está cheio de turistas, passo. Vou à Latina, encontro o livro do José Mário Silva e aproveito para o comprar. Na esquina um rapaz oferece-me um marcador de livros, do Círculo de Leitores, ele é simpático mas o marcador é feio. Desço 31 de Janeiro, a Bertrand está fechada, será que vai reabrir? Mais abaixo, na Bertrand dos saldos, fico admirada porque ainda lá estão o Kleist, o Blake e o Ramón Gómez de la Serna, entre cinco e sete euros.
Continuo. Vou à Brasileira, escolho um canto que me permite uma panorâmica pelo interior e pela rua. Há cinco ou seis mesas ocupadas. Uma rapariga com a mãe a combinar compras, um rapaz a ler um livro de bolso do Hemingway em inglês. Leio o Nuvens & Labirintos: Fazer do verso / um arco tenso / e das palavras / flechas.
Passo os olhos pelo Público de papel, que é oferta da casa, e, já que não posso ir a Mértola, vou até Sevilha: A partir daqui há várias vielas, muitas delas não se encontram no mapa, em direcção à Giralda. A calle de Los Besos é particularmente conhecida devido ao facto de ser a mais estreita da Judiaria. O nome deriva precisamente da proximidade das varandas das casas de cada lado da via, que convergem apaixonadamente, quase se tocando, no segundo andar. Outra rua da Judiaria a visitar é a Guzmán el Bueno, com os seus pátios interiores com claustros mudéjares e laranjeiras. Muito bonito é um palácio de cor almagre (cor taurina) com a base dos balcões forrada de azulejos multicolores. Saio e passo pela zona do Bolhão, é dia de bolo lêvedo, compro 2 para acompanhar o queijo de São Jorge que tenho em casa. Encontro marcado na estação da Trindade. Num quiosque em Sá da Bandeira compro um maço de SG Ventil que não reconheço, trata-se de uma edição histórica que recria o grafismo de 1964: fundo amarelo claro, letras vermelhas e azul e umas risquinhas que lembram as barracas de praia.
Excelente almoço no restaurante Irmãos Unidos: carapauzinhos com salada de feijão frade, ou ciclistas como me explica o empregado. A sala parece saída dos anos setenta e os empregados dos anos vinte.
Regresso a casa a pé.