segunda-feira, maio 12, 2003
A propósito de Nunzio
Cada vez que vou ao teatro tenho medo. De não gostar, de não me comover. Na sala de cinema consigo ver filmes apenas interessantes, aqueles de três estrelas, que vemos e esquecemos e saio da sala sem remorsos. Mas ao teatro exijo sempre mais, tem de ser mesmo bom, tem de me comover, tenho de sair de lá diferente. É talvez um erro exigir assim tanto mas não consigo evitar. Quando as peças são enfadonhas, quando a encenação é triste e deslocada, quando os actores são fracos vou ficando cada vez mais pequena na minha cadeira, cheia de vergonha e apetece-me desaparecer sem ninguém dar conta.
Mas quando gosto é um prazer tão grande e luminoso. E é de luz que se trata, é algo que irradia dos actores e se pega à nossa cara.
Ainda estou sob o efeito do Nunzio.
Costumo gostar do trabalho dos Artistas Unidos e digo trabalho porque não me refiro apenas à representação das peças, é de tudo que gosto, do modo como eles leiem os textos e os traduzem, do modo como se atiram aos autores preferidos, do modo como contornam os orçamentos. Há no grupo uma energia que me fascina.
As melhores peças que vi o ano passado foram as deles, "O Primeiro Amor", do Miguel Borges e a maratona do Harold Pinter. Mas lembro-me de todas as anteriores que vi. É a minha colecção preferida.
No sábado fui completamente conquistada pelo Nunzio. O texto é perfeito, como se o Harold Pinter tivesse nascido no Sul. Aquela cozinha amarelada é verdadeira, com o oleado na mesa e a botija de gás, e o Nunzio é uma espécie de anjo que existe de verdade, não apenas no papel mas com a forma do Miguel Borges, com os cabelos despenteados, o casaco demasiado comprido e uns olhos tão crentes e doces como nunca vi. O Nunzio existe! É isto o teatro.