Ontem, uma amiga minha contou-me o quanto ficou emocionada a ler a última crónica semanal do António Lobo Antunes. Na altura, disse-lhe que não, não a tinha lido, assim da primeira a última palavra, mas assim por alto, fixando-me numa só consoante a acompanhar um ponto final. É impressionante como se pode colocar tanto silêncio numa só consoante acompanhada por um ponto final. Lá, no fundo, ainda tinha o eco da última frase, pois atravessa.
É muito complicado retirar um fragmento, porque é uma crónica do António Lobo Antunes que vale muito pelo seu todo. De qualquer modo, aqui fica.
"Ontem fui a casa do João. É engraçado como, ao olhá-lo, vejo as suas idades todas. Conhecemo-nos tão bem! E sem palavras inúteis, sem efusões, de longe, ceriminiosos, a pingarmos ternura. De todos os meus irmãos é o que mais me comove. Gostava tanto que fosse feliz. O meu pai, ao jantar, subitamente velho. Longe dele não é este o pai que lembro. Nem esta a mãe. Velhos ou disfarçados de velhos, é claro. Não morram. Vejam-me lá isso, como dizem os mecânicos, não morram. O sorriso do Miguel. Eu para ali parado, a olhar. Quase nunca falo. Para quê? Dizemos tanto, assim."