sábado, maio 17, 2003
livros e o luar contra a cultura
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Já tinha estado com ele na mão mas foi uma abordagem rápida e superficial, só para ver o tamanho das letras e das crónicas, passar a mão pelo verniz da capa, sem me querer prender a nenhuma frase porque esses deslizes são fatais para um plano de restrições. Ontem, porém, voltei a encontrá-lo na mesa dos destaques e cometi o erro de o ler. Pousei-o, dei uma volta, disfarcei e fui espreitar os discos mas a vontade do livro continuava e no fundo, o que são 7 euros?
Trouxe-o para casa e depois de jantar resolvi esquecer o blog e atirar-me às Crónicas para se ler na escola, de Luis Fernando Verissimo. Como diz na contracapa, são textos curtos e cheios de humor que se agrupam em seis temas: Equívocos, Outros tempos, De olho na linguagem, Fábulas, Falando sério e Exercícios de estilo.
O capítulo dedicado à linguagem é um mimo, tive que o ler em voz alta para explicar porque que me ria tanto. Recomendo e como prova deixo aqui o princípio de uma das minhas crónicas preferidas:
Defenestração
Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra…
Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Aonde eles chegassem, tudo se complicaria.
– Os hermeneutas estão chegando!
– lh, agora é que ninguém vai entender mais nada…
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a populaçao prostada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
– Alô…
– O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem devia ser uma peça mecânica.
– Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.
Plúmbeo devia ser o barulho que um corpo faz ao cair na água.
Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração …