De que falamos
quando falamos das palavras
senão do tempo
que corre-escorre
por entre as malhas da voz?
Faladas
as palavras
são um combate encenado
uma insónia pessoal
Escritas
são reféns do olhar
No espaço da página
deslizam altivas como icebergues
ou então soçobram
desconhecidamente
no lado sombrio do funesto olvido
Ana Hatherly ,O Pavão Negro
Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros.
Não vejo nenhuma diferença de princípio entre
um aperto de mão e um poema (p. 66)
A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se
O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita
O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende
E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta
Ana Hatherly ,O Pavão Negro
(A citação referida em epígrafe no poema anterior (incluído no post-scriptum a Paul Celan, como uma espécie de diálogo imaginário com o Poeta) é retirada do volume de Paul CelanArte Poética- O Meridiano e outros textos, organizado e traduzido por João Barrento.)
"O Pavão Negro foi inicialmente o tema de uma exposição de trabalhos meus, apresentada no Porto, em 1999, na Galeria Presença, inserindo-se no caminho que tenho percorrido desde os anos 60, em que o tema da escrita, na sua dupla vertente de representação oral e visual, tem dominado o meu trabalho de escritora/pintora, caracterizado por uma incessante pesquisa do acto de criar. […] O que neste volume se oferece ao leitor é uma colectânea de poemas inéditos […] escritos entre 2001 e 2002, em que se prolonga a fulcral atitude de inquirição emotivamente reflexiva que subjaz a toda a minha produção poética e pictórica. "