Já me habituei a ler os anúncios que surgem no topo dos blogs, até já me passou pela cabeça fazer um itinerário pelos hotéis recomendados, começando aqui mesmo pelo Porto seguindo para Aveiro, Coimbra (apesar do Bragança não ter o charme do belo Astória ou das pensões esburadas que lá conheço) e terminando em cheio nas Pousadas.
Mas hoje fiquei contente quando abri a Janela e vi um link para o livro "Proust", de Samuel Beckett, editado pela Cosac & Naify.
Já tinha falado desta excelente editora aqui no blog mas é um bom motivo para voltar a ela e ao livro, por isso transformo o anúncio em post.
Proust é um dos primeiros textos de Beckett onde ele estabelece um profundo diálogo com o escritor francês Marcel Proust. Aqui fica um excerto, uma ilustração e a capa.
(...) As criaturas de Proust são, portanto, vítimas desta circunstância e condição predominante: o Tempo. Vítimas como também o são os organismos inferiores que, conscientes apenas de duas dimensões, subitamente confrontam-se com o mistério da altura - vítimas e prisioneiros. Não há como fugir das horas e dos dias. Nem de amanhã nem de ontem. Não há como fugir de ontem porque ontem nos deformou, ou foi por nós deformado. O estado emocional é irrelevante. Sobreveio uma deformação. Ontem não é um marco de estrada ultrapassado, mas um diamante na estrada batida dos anos e irremediavelmente parte de nós, dentro de nós, pesado e perigoso. Não estamos meramente mais cansados por causa de ontem, somos outros, não mais do que éramos antes da calamidade de ontem. Calamitoso dia, mas calamitoso não necessariamente por seu conteúdo. (...)
(Pág. 11 da edição Cosac & Naify)