“Circunstâncias atenuantes” é o mais recente trabalho de Jorge Molder, e a inauguração da exposição marca a abertura, hoje, do primeiro espaço próprio da Galeria Lisboa 20, em Campo de Ourique, que até agora expusera em espaços avulsos.
O ponto de partida da série, onde Molder se reitera como modelo, é um filme realizado no ano em que nasceu, 1947, e que origina a primeira das duas séries que poderemos ver, a partir de amanhã. São imagens em zinco, derivadas de fragmentos de composição que Molder encontrou nesse filme e que descobriu pertencerem ao seu universo de imagens. Nos retratos, a sua figura encena-se em contiguidade com essas imagens, num processo de representação onde o sentimento de estranheza do Eu, a relação aos outros e o trabalho sobre a (des)figura tomam novos caminhos.
Público – Continua a perseguir a sua imagem?... Jorge Molder – Sim, não nas imagens de zinco que se filiam no filme, mas nas outras que fiz a partir destas.
Há anos que trabalha com a sua imagem. Como parte para cada nova série? Não há uma regra, porque estamos a falar de criação de imagens, que no meu caso não obedece a um plano cerebral. São circunstâncias completamente insignificantes. Uma pessoa está num restaurante, e há alguém que faz um gesto, e esse gesto para mim tem significado. E também não há uma hierarquia de importância nas vivências, não há umas mais importantes do que outras. Os sonhos são muito importantes no meu trabalho, inspiram-me muitas ideias.
Porque lhe permitem trabalhar a fronteira entre o interior e o exterior? Sim, o sonho é importante mas também a insónia. Há muitos anos que tenho grandes insónias, e às vezes, durante as insónias, a mente vai divagando e de repente surgem coisas. Até é vulgar eu levantar-me e ir tirar pequenas notas.
O Francis Bacon falava de “acidentes”. Esta palavra diz-lhe alguma coisa? Muito. E os desvios. As coisas que uma pessoa começa e a certa altura há um certo número de ocorrências que me levam num sentido que eu não estava à espera. Eu ontem estava a pensar na obra de Pistoletto e a reparar como ele – que era um grande admirador de Bacon – começou aqueles homens negros, muito brilhantes, cheios de reflexo, e começou a usar vidro; depois salta daí para o espelho, e constrói toda a carreira dele em torno deste último. São relações de contiguidade que tornam possível esta deriva... Para mim, o acidente é uma questão técnica; ao princípio não, mas agora é como se uma pessoa já estivesse atenta a qualquer coisa que possa acontecer, mesmo ao nível da impressão, e que nos leva para um sítio diferente.
Em várias entrevistas, sublinha que não são bem auto-retratos. São o quê? Eu reconheço algumas coisas, por exemplo a passagem do tempo sobre mim, mas não são um trabalho de pesquisa interior, de auto-conhecimento. Tenho pensado muito sobre essa questão, e chego à conclusão é de que são retratos... Embora eu já tenha feito auto-retratos “tout cour”, muitos, sobretudo nos anos 80.
Mas com esses “retratos”, de que é o único modelo, pretende refletir problemáticas de identidade? Não. Mas de certa forma reflete a ambiguidade interna, uma certa duplicidade que faz parte de nós. Mas a questão da relação aos outros, do modo como nos colocamos no meio dos outros, é muito importante. Aliás, o título desta exposição chama-se precisamente “Circunstâncias atenuantes”, tem a ver com isso.
Identifica-se com o tema do duplo? A questão da duplicação, da multiplicação, a mim interessa-se imenso, porque a fotografia tem desde logo a ver com isso. Há sempre uma duplicidade entre aquilo que a nossa cabeça está a pensar fazer e aquilo que os nossos olhos vêem.
Tem consciência do sentido dessa multiplicação, de onde quer chegar? O sentido disso tudo é sempre em aberto... Não gostaria de responder a essa pergunta, acho que não posso. Mas lembra-me o romance do Gombrovitz, o “Cosmos”, no qual o centro de tudo é aquela investigação sobre o pardal enforcado, embora aí o final seja um bocado perigoso, mas é o acento na demarque, no processo de perseguição da ideia, que me interessa.
Um interesse pela forma? De forma alguma. Não consigo compreender essa distinção, e às vezes há formalismos que me irritam mesmo. Eu por exemplo, gosto muito do Mondrian, mas depois há outros que tenho dificuldade em entender.
Sente alguma influência no seu trabalho? Muita coisa, mas nada que tenha a ver necessariamente com fotografia nem com artes. Gosto dos campos de Zurique.