No século XIX, dois portugueses decidiram escrever um guia da língua inglesa. Um problema: eles não sabiam falar inglês. O resultado, "English as she is spoke", é uma hilariante colecção de disparates que poderia ter sido escrita por Lauro Dérmio. Uma reedição recente nos EUA esgotou-se num ápice.
José da Fonseca e Pedro Carolino são ilustres exemplos da criatividade portuguesa. Em meados do século XIX, estes dois lusitanos decidiram escrever um guia de conversação da língua inglesa, uma espécie manual de frases úteis em inglês para viajantes. Fonseca e Carolino não sabiam falar inglês, mas isso não os deteve.
A intrépida dupla também não se deixou abater pelo facto de não terem uma gramática ou um dicionário de inglês-português. Munidos apenas de um dicionário de inglês-francês e outro de francês-português, Fonseca e Carolino lançaram-se à empreitada. Em 1855, o fruto do seu labor foi editado - um tomo com o impagável nome "English as she is spoke".
O nome já diz tudo. "English as she is spoke" é um manual de inglês de uma incompetência verdadeiramente milagrosa, repleta de pérolas como "we are in the canicule". O livro parece ter sido escrito por um Lauro Dérmio "avant la lettre".
"English as she is spoke" teve uma edição muito limitada, mas os poucos que o leram ficaram fascinados. Por algum feliz acaso, uma cópia chegou às mãos de um dos grandes artistas da língua inglesa do século XIX, Mark Twain, que escreveu sobre a obra: "Ninguém pode melhorar o absurdo deste livro, ninguém o conseguiria imitar com sucesso, ninguém pode produzir algo que se lhe compare. É perfeito na sua absoluta estupidez."
"English as she is spoke" angariou mais adeptos deste lado do Atlântico. No final do ano passado, a revista literária "McSweeney's" decidiu reeditá-lo, prestando a devida homenagem a um sério candidato ao título de pior livro de todos os tempos. Esta edição foi um sucesso tal que se esgotou quase de imediato.
Não é preciso um grande conhecimento de inglês para apreciar "English as she is spoke". Os seus maus tratos à língua de Shakespeare vêm nos sabores mais variados. Há calinadas ortográficas que, noutro contexto, podiam ser entendidas como meras "gralhas" - "You interompt me", "Do you know they?".
Mas o uso dos tempos verbais não deixa dúvidas quanto à sapiência de Fonseca e Carolino: "Have you understanded?"; "Don't you are awaken yet?"; "I am catched cold"; "Since you not go out, I shall go out nor I neither"; "He was wanting to be killed".
A secção mais divertida do livro é a de provérbios e expressões comuns, na qual os autores parecem ter simplesmente pegado em expressões portuguesas e presumido que, traduzindo as palavras, a frase continuaria a fazer sentido. Por exemplo, Fonseca e Carolino devem ter começado com "que eu morra se estou a mentir", e acabaram com "that may dead if I lie to you".
Há ainda exemplos de puro surrealismo, em que é difícil perceber o que é que os autores estariam a tentar dizer. "The ears are too length"; "Take attention to cut you self" "Will you fat or slight?"; "Nothing some money, nothing of Swiss."
Como diriam os autores, dá para acreditar? ("One's can to believe you?") A única questão que fica por responder é se Fonseca e Carolino julgavam estar a escrever um livro sério, ou se eram apenas dois brincalhões com um sentido de humor bizarro.
É duvidoso. Que imaginação conseguiria aconselhar um turista em Inglaterra a num restaurante pedir bebidas ("drinkings") e um prato de "hedge-hog" (ouriço-cacheiro em inglês normal, mas um marisco em "English as she is spoke"), e se a refeição corresse mal avisar os outros convivas de que "I have mind to vomit"?
Só a mesma que, no capítulo destinado a expressões idiomáticas ("idiotisms"), cita o seguinte provérbio inglês: "Few, few the bird make her nest."