A vitalidade eléctrica do norte-americano Keith Haring numa exposição para ver na Culturgest do Porto.
William Burroughs assinalou um dia a "tremenda vitalidade eléctrica" das ilustrações de Keith Haring (4 de Maio de 1958, Reading, Pensilvânia - 16 de Fevereiro de 1990, Nova Iorque). O artista conheceu o escritor de "Festim Nu" - livro reeditado recentemente com uma notável tradução de José Luís Luna - no apartamento nova-iorquino de Victor Bockris, em 1983. Contudo, o interesse de Haring pelas técnicas de representação utilizadas por Burroughs e Brion Gysin vinha de finais dos anos 70, quando, enquanto estudante, participou na Nova Convention, organizada por John Giorno, James Grauerholz e Sylvère Lotringer. Segundo o pintor, os símbolos não-verbais criados por si podiam ter diferentes significados em diferentes épocas: "E tudo fazia referência a tudo; foi isto que aprendi a partir dos 'cut-up' de Burroughs."
A exposição do Porto é formada por 25 trabalhos realizados entre 1980 e 1982 - e o início dos anos 80 são marcantes para a carreira de Haring, pois é nessa altura que não só começa a ganhar consistência o seu estilo, mas também acontece quer a célebre exposição individual na galeria nova- iorquina Tony Shafrazi, quer as pinturas dos corpos de Bill T. Jones e de Grace Jones. Nesse tempo em que a festa, as drogas e o sexo eram sem limites e o mercado da arte crescia com a entrada de dinheiro fresco, o artista torna-se uma figura incontornável dos acontecimentos sociais, entrando as suas obras nas colecções de Andy Warhol, Elton John e David Bowie.
A chegada a Nova Iorque, em 1978, com apenas 20 anos, vai transformar definitivamente a vida de Haring, que na adolescência era um hippie fã dos Grateful Dead. Na "grande maçã", o artista habita um apartamento em Greenwich Village, em Nova Iorque, e frequenta a School of Visual Arts, onde tem como professores Keith Sonnier, Joseph Kosuth e Barbara Kruger, entre outros. Ali, conhece Kenny Scharf e Jean-Michel Basquiat, Madonna e Roy Lichtenstein, entre outros, e vai aos concertos punk do CBCG, por onde passam os Ramones, Patti Smith, Blondie ou os Talking Heads. E, para completar a vertigem, passava as noites no Anvil, um bar sado-masoquista, no Mudd Club, no Paradise Garage ou no Club 57, onde chega a fazer "performances" que envolviam declamação de poemas e projecção de vídeos.
O metro e as ruas de Nova Iorque forneceram também a inspiração para os primeiros trabalhos que Haring realiza, ilegalmente, nas estações subterrâneas - as centenas de "graffitis" espalhados pelo Lower East Side, Bronx e Manhattan eram sobretudo influenciados pelos murais que os The Fabulous 5ive, colectivo fundado nos anos 70, pintavam nas carruagens do metro. Outras heranças que podem ser observadas no trabalho do artista vão da arte primitiva à caligrafia chinesa, das culturas azteca e maia aos nomes de Alechinsky, Dubuffet e Mark Tobey, passando ainda pelas criações dos aborígenes australianos e pelos mandalas budistas. É na pista de dança, porém, que nascem as ideias para uma série de obras maiores do artista, como a série Os Dez Mandamentos, pintada por ocasião da sua primeira retrospectiva, realizada no CAPC de Bordéus, França, em 1985.
É ainda nos anos de aprendizagem que Haring define a sua assinatura ("tag"), formada por um animal, "The Dog", e uma pessoa de gatas, "The Baby". De resto, as figuras estilizadas - pirâmides, discos voadores, figuras humanas, anjos, ecrãs de televisão, animais, bebés, etc. - vão nascendo e dando corpo a preocupações relacionadas com diversos temas: meios de comunicação electrónicos, computadores, televisão, filmes, drogas, doenças, desastres ambientais, ovnis ou explosão demográfica. A urgência em denunciar o domínio do humano pela sociedade do espectáculo era uma das intenções de Haring, um anti-republicano que, um dia, pinta Ronald Reagan associado ao número do diabo, 666. O activismo político era mesmo uma das facetas do artista, que realizou trabalhos relacionados com campanhas de informação e combate à sida, ao "crack" ou à iliteracia.
"Tudo era muito sexual", notou Bill T. Jones quando Haring lhe pintou o corpo com traços brancos. Na exposição da Culturgest, essa é uma das dimensões mais evidentes, quer através de imagens explícitas de sexo anal e oral, quer pela sedução febril com que as obras tentam o espectador. Em 1982, a exposição na Tony Shafrazi, no Soho, era composta por desenhos, esculturas e uma instalação "site specific" - na mostra era visível o espírito do tempo ("breakdance", rap, "graffiti", liberdade sexual e multiculturalismo). No Porto, passados cerca de 20 anos, as obras revelam um passado vivido sem regras e que terminou com a proliferação da sida - Haring foi uma das vítimas - e com a guerra do Golfo. Pouco antes de morrer, em entrevista à revista "Rolling Stone", o artista, então mundialmente consagrado e com o trabalho transformado em produto de "marketing" por conselho de Warhol, dizia: "Não importa quanto tempo se trabalha, algum dia as coisas acabam. E haverá sempre coisas por finalizar. Não importa se se vive até aos 75 anos, existirão sempre novas ideias. Haverá sempre coisas que se desejava ter concluído. Pode trabalhar-se por várias vidas... Parte da razão pela qual a realidade da morte não me perturba é que ela não é uma limitação, é uma via. Podia ter acontecido a qualquer momento e vai acontecer algum dia. Se se vive a vida de acordo com este princípio, a morte é irrelevante. Tudo o que faço agora é exactamente aquilo que queria fazer."
Keith Haring
PORTO
Culturgest.
Edifício Sede da Caixa Geral de Depósitos - Avenida dos Aliados 104.
De 2ª a sáb., das 10h às 18h. Tel. 22 2098116. Até 17 de Abril.