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Janela Indiscreta
 
terça-feira, outubro 19, 2004  

À atenção do Sr. primeiro-ministro

Este blog tomou conhecimento de que, através de um comunicado oficial, negou recentemente ter dormido uma sesta. Vislumbramos nesta negação uma concepção inquinada da sesta, eventualmente filha dos mesmos infundados preconceitos que, nas sociedades capitalistas tardias, vituperam o hedonismo, a preguiça e o ócio e exaltam as virtudes do trabalho, do esforço, da exigência e de outros grandes males do espírito.

Tomamos desta forma a liberdade de lhe aconselhar a leitura deste artigo, onde a sesta é objecto de um enquadramento rigoroso e cientifico. Sem prejuízo de uma leitura atenta do texto referido, aqui lhe deixamos alguns excertos especialmente relevantes:

Sesta Aumenta Criatividade

Trinta por cento das pessoas tem as suas ideias mais brilhantes na cama, ao contrário de apenas 11 por cento que constroem as suas melhores ideias no local de trabalho

Nos nossos sonhos produzimos combinações estranhas de ideias que de vez em quando provam ser soluções muito criativas para problemas que não conseguimos resolver acordados

São também conhecidos nomes de celebridades que não dispensavam uns minutos de sesta a meio das suas actividades. De Winston Churchill a J. F. Kennedy, passando por Thomas Edison, Leonardo da Vinci, Napoleão ou Albert Einstein, todos eles se renderam aos benefícios da sesta


Tomamos ainda a liberdade de aconselhar a leitura de A Arte da Sesta, de Thierry Paquot (ed. Campo das letras, 2002)*, onde encontra muitos outros argumentos eloquentes em defesa desta nobre e saudável prática.

Por tudo isto, Sr. primeiro-ministro, instamo-lo a praticar a sesta porfiadamente e sem falsos pudores. Poucas coisas, julgamos, poderiam contribuir tanto para o bem-estar e desenvolvimento social do nosso país como a disseminação da sesta. Por isso, Sr. primeiro-ministro, instamo-lo: não renegue as suas sestas!

____________________________________
* Esta edição é aliás dupla: além de A Arte da Sesta contém igualmente o muito recomendável O Direito à Preguiça, de Paul Lafargue. Note que Lafargue, ao contrário de Paquot, já faleceu há bastante tempo, pelo que não vale a pena escrever-lhe agradecendo eventuais epifanias.


posted by António Rebelo on 14:40


 
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