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Janela Indiscreta
 
quarta-feira, agosto 04, 2004  

Seis indomáveis polacos, o descontrucionista radical e um casamento feliz

Nesta edição do FMM, registaram-se pelo menos três concertos memoráveis. Logo na primeira noite, o da Warsaw Village Band. Se já se dançava no final do concerto da Ronda dos Quatro Caminhos (que este ano abriu o Festival), foi a chegada dos seis indomáveis polacos (três rapazes e três raparigas) que pôs o Castelo em polvorosa. As belíssimas vozes das três cantoras/instrumentistas produziu um efeito cumulativo que chegou a ser arrepiante, e a música do grupo tem uma pulsão rítmica selvagem e hipnótica que convida à dança e ao movimento sem nunca obscurecer a limpidez das melodias tradicionais. Junte-se a isto a carismática presença em palco dos seis músicos, e o resultado foi um concerto empolgante. Fiquei fã.

Na segunda noite tivemos um concerto que, mais do que memorável, foi inclassificável: Tom Zé, o desconstrucionista radical. Já no fim da noite, ouvimos uma canção do genial disco Estudando o Samba cuja letra é uma boa súmula da música desta criança grande de 67 anos: Tô te explicando / Pra te confundir / Tô te confundindo / Prá te esclarecer / Tô iluminando / Prá poder cegar / Tô ficando cego / Prá poder guiar. Assim é a música de Tom Zé: uma acumulação de paradoxos e contradições que desafiam qualquer classificação. Tão depressa aparenta ser um implacável e mordaz observador da realidade, como logo a seguir evidencia uma quase completa incapacidade para levar a sério o que quer que seja, a começar por ele próprio. Tão depressa o concerto parece obedecer a uma rigorosa arquitectura, como subitamente implode numa atmosfera de quase improviso e constante interacção com o público: as canções são interrompidas a meio, viradas do avesso, expostas nas suas suturas. Mesmo quando se aproxima do histriónico, Tom Zé nunca perde o pé. Um artista extraordinário.

Na terceira noite, uma bela descoberta: o Septeto Roberto Rodriguez. Neste casamento entre as músicas cubana e judaica, tudo está alicerçado numa secção rítmica firme como uma rocha, com o próprio Rodriguez na bateria e uma notável contrabaixista. Contra este pano de fundo ouvem-se devaneios de vários instrumentos (acordeão, clarinete, violinos...) todos eles tocados por músicos de grande nível. A combinação final - o ambiente por vezes escuro das melodias judaicas com os ritmos dançantes de Cuba - nem se chega a estranhar, porque se entranha logo.

Muito mais haveria a dizer sobre o cartaz excepcional desta edição do FMM, e pela minha parte não me canso de gabar este festival. Mas os empregadores acham, estranhamente, que lá porque nos pagam temos que trabalhar, pelo que não temos tempo para mais. Remeto-vos para este excelente texto de Fernando Magalhães, e ficam muito bem servidos. E até para o ano!


posted by António Rebelo on 20:52


 
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