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Janela Indiscreta
 
sexta-feira, agosto 06, 2004  

© Henri Cartier-Bresson, Paris Cafe, 1968



Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer.
Muitas vezes me lembrei de que esse sítio podia ser,
até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto para reflectir a alma,
a impressão da tarde, o último estertor do dia antes
de nos despedirmos, quando é preciso encontrar uma
fórmula que disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer.
É que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação mais
exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível neste mundo.
Então, é natural que voltes atrás e me peças: "Vem comigo!",
e devo dizer-te que muitas vezes pensei em fazer isso mesmo,
mas era tarde, isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então as palavras caem
no vazio, como se nunca tivessem sido pesadas.
No entanto, ao escrever-te para marcar um encontro contigo,
sei que é irremediável o que temos para dizer um ao outro:
a confissão mais exacta, que é também a mais absurda, de
um sentimento; e, por trás disso, a certeza de que o mundo
há-de ser outro no dia seguinte, como se o amor, de facto,
pudesse mudar as cores do céu, do mar, da terra, e do
próprio dia em que nos vamos encontrar, que há-de ser um
dia azul, de verão, em que o vento poderá soprar do norte,
como se fosse daí que viessem, nesta altura, as coisas
mais precisas, que são as nossas: o verde das folhas e o
amarelo das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice

posted by Lídia on 12:58


 
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