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quarta-feira, julho 28, 2004  

o sobrolho

Ultimamente acontece-me "isto", a meio de uma conversa, na bicha do supermercado ou numa reunião de trabalho, o sobrolho franze, mas não franze um bocadinho, que isso até passava sem sobressaltos, como se fosse um tique, não, franze de uma forma deselegante, nervosa e marcada. As pessoas levam a mal, ficam zangadas, chamam-me trombudo, assim mesmo, "trombudo", eu que sempre fui um rapaz afável. Decidi ir ao médico.

Fui a um e a outro, médicos de clínica geral e diversas especialidades. Parecia o Moretti, sem a vespa nem o bigode. Tentei as medicinas alternativas. O sobrolho continuava a encrespar-se, deixando uma ruga profunda e sinistra na minha testa. Fiz dietas, ginástica, massagens, até esfreguei na cara a mistela chinesa que uma rapariga me assegurou ser milagrosa. Consultei um padre e passei tardes em igrejas frescas. Salpiquei-me com água benta. Tentei tudo e tudo foi em vão.

Ontem, por acaso, encontrei o meu antigo pediatra. Moramos perto e volta e meia cruzamo-nos. Contei-lhe o meu problema. Subimos ao consultório, ele pegou-me no pulso, pôs a sua mão primeiro sobre a minha testa, depois sobre o coração e, com a voz sumida, explicou-me:
"É grave e não tem cura".
"E agora? Que faço?", murmurei, quase em lágrimas. "Como posso sobreviver com um sobrolho insubordinado que me afasta dos outros?"
"É uma espécie de alergia", explicou o médico, "de um tipo ainda pouco conhecido. Pode ser causada por todos os males do mundo, pelos discursos destrambelhados dos políticos em exercício, pela brutalidade cíclica dos incêndios, ou até pela proliferação aberrante e tonta de bandeiras nacionais. Está para além do alcance da medicina".

Dormir, ele aconselhou-me a dormir e a nadar.

Já nada pode impedir a doença: estou a transformar-me num pessimista, o sobrolho é o primeiro sinal.

posted by Reporter on 15:38


 
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