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domingo, maio 09, 2004  

Me gusta el ruido de la lluvia



Por causa de “Un chien andalou” peguei no livro que a Cinemateca dedicou a Buñuel e dei por mim a folheá-lo de novo. Para além dos filmes (que infelizmente é raro conseguir ver) gosto profundamente dele, do Luis Buñuel, do seu humor, da sua candura, da sua liberdade e das suas palavras. Gosto das histórias que ele conta — e ele está sempre a efabular — e também dos recuerdos, tão buñuelianos, de Conchita.
Há um magnífico artigo de João Bénard da Costa neste livro que termina com a última blasfémia de Buñuel, nas suas próprias palavras, no seu “Último Suspiro”, assim:

«Há muito tempo que escrevo num caderno o nome dos meus amigos desaparecidos. Chamo a esse caderno O Livro dos Mortos. Folheio-o muitas vezes. Tem centenas de nomes, uns ao lado dos outros, por ordem alfabética. Só lá ponho os nomes dos homens — ou das mulheres — com quem tive, nem que fosse uma só vez, um verdadeiro contacto humano. Os membros do grupo surrealista estão marcados com uma cruz encarnada. 1977-1978 foi para o grupo um ano fatal: Man Ray, Calder, Max Ernst e Prévert foram-se em poucos meses.
Alguns dos meus amigos odeiam esse livro, certamente com medo de nele figurarem um dia. Não sou da opinião deles. Essa lista familiar permite-me lembrar desta ou daquela pessoa que sem ele já teria esquecido. Houve uma vez que me enganei. A minha irmã Conchita disse-me que tinha morrido um escritor espanhol, muito mais novo do que eu. Inscrevi-o. Algum tempo depois, sentado num café de Madrid, vi-o entrar e dirigir-se-me. Durante alguns segundos julguei que ia apertar a mão a um fantasma.

Há muito tempo que a ideia da morte me é familiar. Desde os esqueletos passeados nas ruas de Calanda, por ocasião das procissões da Semana Santa, a morte faz parte da minha vida. Nunca a quis ignorar nem negar. Mas não há muito a dizer sobre a morte, quando se é ateu como sou. Tem que se morrer com o mistério. Algumas vezes penso que queria saber, mas saber o quê? Nada se sabe, nem durante nem depois. Depois de tudo, nada. Nada nos espera senão a podridão, o cheiro adocicado da eternidade. Talvez peça para me queimarem, para evitar isso.
Interrogo-me apenas sobre a forma da minha morte.
Acontece-me, por simples prazer de distracção, pensar no nosso velho inferno. Sei que as chamas e os caldeirões desapareceram e que o inferno, para os teólogos modernos é apenas a simples privação da luz divina. Vejo-me vogar nas trevas eternas, com o meu corpo, com todas as minhas fibras, de que vou precisar para a ressurreição final. De repente, outro corpo esbarra com o meu, nos espaços infernais. Era um simples siamês, que morreu há dois mil anos, quando caiu dum coqueiro abaixo. Afasto-me no escuro. Passam milhões de anos e depois sinto outra pancada nas costas. Desta vez era uma vivandeira de Napoleão. E assim sucessivamente. Deixo-me ir por momentos nas trevas angustiantes deste novo inferno e depois volto à terra, onde ainda vivo.

Sem ilusões sobre a morte, acontece-me pensar nas formas que esta pode ter. Às vezes penso que a morte súbita é admirável, como a do meu amigo Max Aub que caiu para o lado, enquanto jogava as cartas. Mas a maior parte do tempo, as minhas preferências vão para uma morte mais lenta, mais esperada, que me permita saudar uma última vez toda a vida que conheci. Já há alguns anos, de cada vez que saio de um sítio que conheço bem, onde vivi e trabalhei, que faz parte de mim, como Paris, Madrid, Toledo, El Paular, San José Purua, detenho-me um momento para lhe dizer adeus. Falo com ele e digo por exemplo: «Adeus San José. Aqui vivi momentos felizes. Sem ti a minha vida teria sido diferente. Agora vou-me embora e não te volto a ver, vais continuar sem mim, adeus.» Digo adeus a tudo, aos montes e às fontes, às árvores e às rãs.
Evidentemente, já me aconteceu voltar a um sítio de que já me havia despedido. Não me importo. Quando me vou embora, digo-lhe adeus outra vez.

Era assim que queria morrer, sabendo que dessa vez não voltava. Quando me perguntam porque é que deixei de viajar, porque é que já não vou à Europa, respondo: «Com medo da morte». Respondem-me que tanto posso morrer aqui como lá e digo-lhes. «Não é o medo da morte, em geral. Não me percebem. Não me importa morrer. Mas não quero morrer no meio duma mudança». A morte atroz, para mim, seria num quarto de hotel no meio de malas abertas e dos papéis em desordem.
Igualmente atroz, e talvez pior, é a morte prolongada por técnicas médicas, essa morte que não acaba. Em nome do juramento de Hipócrates, que põe acima de tudo o respeito pela vida humana, os médicos criaram a forma mais requintada das torturas humanas: a sobrevivência. Isso parece-me criminoso. Cheguei a ter pena de Franco, que aguentaram artificialmente vivo durante meses, num meio dum sofrimento inacreditável: para quê? Se às vezes os médicos nos ajudam, a maior parte do tempo são «money-makers», escravizados pela ciência e pelos horrores da tecnologia. Quando chegar a altura, deixem-nos morrer e dêem-nos mesmo uma ajudinha para irmos mais depressa. Estou convencido, espero, que, dentro de muito pouco tempo, a eutanásia será autorizada pela lei, dentro de certas condições. O respeito pela vida humana deixa de fazer sentido quando só leva a um longo suplício, tanto para os que vão como para os que ficam.

À hora do meu último suspiro, imaginei muitas vezes uma última partida. Chamava os meus amigos que são ateus convictos como eu. Muito tristes, ficavam à beira da minha cama. Chegava então um padre, que eu tinha mandado chamar. Com grande escândalo dos meus amigos pedia a absolvição dos meus pecados e recebia a extrema-unção. Depois, virava-me para o lado e morria.
Mas ainda se terá forças para brincar, nessa altura?

Só tenho pena de uma coisa: não saber o que se vai passar. Abandonar o mundo em pleno movimento, sair no meio do folhetim. Julgo que esta curiosidade pelo após-morte não existia antigamente, ou existia menos, num mundo que mudava pouco ou nada. E uma confissão: apesar da minha raiva à informação, gostava de me poder levantar de entre os mortos, de dez em dez anos, ir até a um quiosque e comprar alguns jornais. Não pedia mais nada. De jornais debaixo do braço, pálido, roçando-me contra as paredes, voltava para o cemitério e lia os desastres que iam pelo mundo antes de voltar a adormecer, satisfeito, no abrigo reconfortante da tumba.»



posted by cristina on 13:53


 
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