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Janela Indiscreta
 
quarta-feira, maio 26, 2004  

As cores do Sabor

Até ao passado fim de semana não sabia nada sobre o Rio Sabor além das informações disponibilizadas pelo excelente e muito informativo site da Plataforma Sabor Livre, formada por um conjunto de organizações que se opõem à prevista construção de uma barragem naquele rio.

Já sabia assim que se tratava de "um dos últimos rios não represados e provavelmente aquele que se encontra mais próximo do estado natural em Portugal?. Mas não estava à espera de ver o que vi: o vale do Sabor é certamente um dos locais mais bonitos onde já estive.



O rio propriamente dito é lindíssimo (pelo menos o troço cuja descida em kayak se empreendeu, e que se estende por cerca de 15 Km a jusante da ponte de Remondes - um dos múltiplos pontos de interesse deste vale que ficará submerso com a construção da barragem). As águas são límpidas, às vezes calmas, às vezes furiosas, e as margens ora apresentam uma cerradíssima vegetação ora são delimitadas por formações rochosas de uma beleza estranha e selvagem.

Se o rio é bonito, o vale circundante não o é menos; um dos caminhos pedestres que fizemos serpenteia pela encosta abaixo, atravessando uma paisagem invariavelmente majestosa, imensamente tranquila, cores e aromas sucedendo-se sem dar descanso aos sentidos, até chegar a uma pequena praia fluvial onde o banho no rio é a única opção lógica depois da caminhada ao sol.



Infelizmente, tudo isto está ameaçado pela provável construção da dita barragem. Sendo quase completamente ignorante nestas matérias, a argumentação dos que se opõem a esta construção afigura-se, aos meus olhos leigos, rigorosa e bem fundamentada; por seu lado, os argumentos a favor da barragem parecem derivar todos de uma difusa e mal amanhada ideia de "desenvolvimento", que parece ignorar que o aproveitamento do enorme potencial (nomeadamente turístico) deste vale seriam provavelmente mais indutores de verdadeiro desenvolvimento - do sustentável, do que explora os recursos naturais sem os destruir - do que qualquer barragem.

Não se trata apenas de ameaçar a riqueza ecológica do vale; trata-se de uma opção que se afigura de facto irracional, numa altura em que actividades como o turismo de aventura ganham cada vez mais adeptos. Se há sítio admiravelmente talhado para estas actividades, o vale do Sabor é certamente um deles. Eis aqui uma excepcional oportunidade para promover o desenvolvimento de uma região em cumplicidade com a natureza (o que é muitas vezes difícil, como se sabe) e não parece haver vontade política de a aproveitar.

É pena. Pela minha parte, tenciono lá voltar antes que seja tarde. Mais do que uma visita, o sítio pede uma estadia prolongada para que nele nos percamos.



(Uma palavra final para os companheiros galegos também presentes, e que prepararam no final da actividade uma Queimada galega, bebida que desconhecia e da qual me tornei adepto; é feita, se bem em lembro, com aguardente, açucar, grãos de café e limão. Leva-se ao lume, e depois de quente, emborca-se. É uma bomba!)

posted by António Rebelo on 19:08


 
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