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segunda-feira, fevereiro 09, 2004  
Livro de Assentos #46

O cheiro a cera e a incenso
sobe da infância e é recordado
pelo olfacto da memória
Há certos cheiros que persistem vida fora.
O cheiro da relva recém-cortada
frente à casa, o cheiro-maça de esperma nos lençóis,
o cheiro dos cavalos depois de uma caminhada,
o cheiro-estalido da lenha na lareira,
o cheiro da roupa de linho no estendal por detrás da casa,
o cheiro silvestre da minha primeira namorada,
o cheiro dos velhos álbuns de fotografias
(cheiro de morte, mas com cheiro de vida lá dentro)
sobretudo quando se sabe que o almirante navega
há muitos anos num mar para colorir.
Um avô almirante que eu nunca vi
numa pose de leão dos mares para a fotografia
(um cheiro a vaidade, que se perdoa tanto tempo depois),
o cheiro da catequista da igreja de S. Jorge de Arroios
por quem eu estava apaixonado,
cheiro de castos lençóis, provavelmente os mesmos
de Camilo Pessanha.
O cheiro da santidade, o cheiro da inveja
que se despreende de certa gente malina e de certos lugares aziagos,
o cheiro a guarda-chuva molhado e abandonado como um pássaro morto.
O cheiro de flores apodrecidas em amarelentos solitários.
O cheiro a corno queimado que anuncia a presença do demo,
esse que vem cheirar os cheiros que são muito nossos
para roubar a memória do que fomos sendo
nos laços e lacetes da existência.

Copiado de: cheiros que persistem vida fora, de Alexandre O'Neill
Arquivado em: parte incerta

posted by Escrivão on 20:56


 
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